San Sebastián (Espanha) - O título já diz tudo. O maior trunfo de “A Voz de Hind Rajab” é justamente a gravação real da menina palestina de seis anos, no telefone, implorando por socorro em Gaza. A voz da garotinha tem um impacto emocional brutal no espectador, ao acompanhar a reconstituição da tragédia, ocorrida em 29 de janeiro de 2024, apesar de todos os esforços para resgatar a criança.
Lançamento desta semana nos cinemas do Brasil, “A Voz de Hind Rajab” é um dos rivais de “O Agente Secreto” na disputa pelo Oscar de melhor filme internacional. Concorrendo pela Tunísia, o filme traz produtores executivos de peso nos créditos, como Brad Pitt, Spike Lee, Michael Moore, Alfonso Cuarón, Joaquin Phoenix, Jonathan Glazer e Rooney Mara.
Todos foram tocados pelo projeto, que é um testemunho das atrocidades dos tempos modernos. O que o filme faz, distanciando-se de outras produções políticas sobre a Guerra de Gaza, é simplesmente se ater a um fato incontestável: o assassinato de Hind Rajab.
Não há qualquer intenção no roteiro de entender o conflito armado entre Israel e Hamas, contextualizando-o. Tudo é reconstruído do ponto de vista da organização humanitária chamada Sociedade do Crescente Vermelho Palestino.
Mais especificamente, dos voluntários que atuavam no centro de emergência, no momento da primeira ligação telefônica. A adolescente Layan Hamadeh, prima de Hind, foi quem pediu ajuda inicialmente, explicando que elas eram sobreviventes de uma família que teve o seu veículo bombardeado por tanques israelenses, ao tentar fugir de Gaza.
Depois que a prima morreu no carro, Hind continuou no telefone, implorando por socorro, mas o resgate acabou chegando tarde demais. Todas as conversas foram recuperadas pela diretora do filme, a tunisiana Kaouther Ben Hania, que optou por utilizar os áudios originais no filme, o que infalivelmente corta o coração do público.
“Sabíamos que contracenaríamos com a gravação real, mas não ouvimos a voz de Hind até a diretora gritar ‘ação’ no set de filmagem”, contou a atriz Saja Kilani, ao NeoFeed, durante a 73ª edição do Festival de Cinema de San Sebastián, no norte da Espanha, onde “A Voz de Hind Rajab” foi uma das atrações.
Kilani interpreta uma das voluntárias que passa mais tempo com a criança no telefone, muitas vezes tentando acalmá-la e consolá-la, enquanto os detalhes e os riscos do resgate são analisados. A ação se desenrola ao longo de 24 horas, ambientada unicamente no prédio da organização humanitária. O espectador só toma conhecimento do que acontece lá fora por meio da conversa com a menina.
“A voz de Hind nos foi revelada no dia a dia da filmagem, realizada cronologicamente. Não ouvíamos a gravação do dia seguinte, apenas a do dia em questão”, comenta a atriz, concordando com a decisão da diretora. “Dessa forma, a nossa reação foi quase uma reação real de quem ouve o pedido de socorro pela primeira vez”, completou ela.
Apenas trechos da gravação já tinham sido divulgados na mídia, na época da morte da garota. “Mas nunca a gravação completa. E é importante deixar que a plateia mundial ouça a conversa, com todos os detalhes. Só assim esse material permanecerá, como um registro histórico”, disse Kilani.
A atriz divide a cena com Motaz Malhees, escalado para viver outro voluntário que estabelece uma conexão emocional com Hind pelo telefone. “A gravação nos dá a falsa impressão de que ela ainda está viva, o que contribui para um efeito mais devastador ainda. Em alguns momentos, eu até tive que pedir para interrompermos a filmagem. Eu não conseguia terminar a cena”, contou o ator, que deu entrevista ao lado de Kilani, no festival espanhol.
Desde que “A Voz de Hind Rajab” fez a sua première mundial, no Festival de Cinema de Veneza, onde levou o Grande Prêmio do Júri, o uso da gravação original instiga certa polêmica, levantando questões éticas principalmente. Entre elas, se a diretora tinha mesmo o direito de usar a conversa da garotinha morta.
“Entrei em contato com a mãe de Hind porque eu jamais conseguiria fazer esse filme sem a aprovação e a bênção dela”, afirmou a cineasta, em um painel online sobre “A Voz de Hind Rajab”, que teve cobertura do NeoFeed.
“Embora aquela mãe ainda estivesse de luto, ela me autorizou. Disse que queria que eu fizesse o filme porque tinha medo de que a memória de sua filha acabasse enterrada com todos os cadáveres de crianças em Gaza”, completou Hania, que é indicada a um Oscar pela terceira vez.
Ela já disputou a estatueta da Academia, de melhor filme internacional, com “O Homem que Vendeu Sua Pele” (2020), e de melhor documentário, com “As 4 Filhas de Olfa” (2023).
O primeiro título conta a história de um refugiado sírio que aceita ser tatuado por um artista para conseguir viajar à Europa. O segundo resgata o drama de uma família tunisiana que perdeu duas filhas adolescentes recrutadas para lutar pelo Estado Islâmico.
“Vejo o cinema como uma ferramenta de mudança e de impacto”, disse ela, lembrando que “A Voz de Hind Rajab” diz respeito não só à morte da garotinha que dá título ao filme.
“O cinema é tão grandioso porque, por meio de uma única história, você pode imaginar as outras. Nós não sabemos quantas milhares de outras crianças foram mortas nas condições de Hind. E se é doloroso ouvir uma história, imagine o sofrimento se multiplicando. Isso está além do que a humanidade consegue suportar”, disse ela.