Nova York — Há uma partitura no Morgan Library & Museum com rasuras que nenhuma cópia ousaria reproduzir. Não são os erros de quem hesitou e deixou a caneta correr pelo papel. São os traços criativos de quem pensava depressa demais para a tinta acompanhar.
Essa partitura original — assim como todas as outras — de Wolfgang Amadeus Mozart pertence à instituição sem fins lucrativos criada por John Pierpont Morgan, ou J.P. Morgan (1837-1913), o banqueiro que foi o maior colecionador de arte do mundo entre o fim do século XIV e início do XX.
A exposição Wolfgang Amadeus Mozart: Treasures from the Mozarteum Foundation of Salzburg está em cartaz por um curto período (até 31 de maio) e é uma colaboração inédita entre o Morgan e a Fundação Internacional Mozarteum, de Salzburgo.
Essa é a primeira vez que a guardiã do maior acervo mozartiano do mundo, formado originalmente por doações e heranças da própria família do compositor, permite que a coleção atravesse o Atlântico para reencontrar as partituras originais do músico e compositor austríaco (1756-1791).
Uma seleção significativa desse acervo está separado em duas salas: ato I e ato II, que simbolizam os períodos de vida do músico — a infância e a descoberta de um talento de um lado, a maturidade e a liberdade criativa de outro.
O violino que Mozart usou na infância, por exemplo, fabricado em Salzburgo por volta de 1746, está na exposição. Assim como o cravo que ele tocava enquanto compunha A Flauta Mágica. Junto com retratos, cartas e manuscritos autógrafos, esses objetos formam algo raro em qualquer museu do mundo.
É interessante atentar aos detalhes. O clavicórdio de Mozart tem teclas desgastadas de tanto uso. O violino de sua infância, feito de abeto e bordo em Salzburgo quando ele tinha dez anos, ainda carrega marcas que nenhum restaurador apagou.
Mas há um ponto que eleva a mostra. O Morgan possui, em seu acervo permanente, duas páginas com as primeiras composições de Mozart — escritas quando ele tinha cinco anos, entre fevereiro e dezembro de 1761.
Essas páginas foram, no início do século XIX, cortadas do chamado Caderno de Música de Nannerl, um livro de exercícios que Leopold Mozart, o pai do músico, compilou a partir de 1759 para ensinar piano à filha mais velha, Maria Anna.
O caderno original acabou nas mãos do Mozarteum em 1864. As páginas destacadas, no Morgan. Durante mais de duzentos anos, estiveram separadas.
Agora, reunidas pela primeira vez desde então na mesma sala, o visitante pode ver o livro e as páginas que um dia pertenceram a ele, uma mesma história que finalmente voltou a se encontrar.
O que é o Morgan Museum
Localizado na 225 Madison Avenue, no bairro de Murray Hill, o prédio que abriga o Morgan Library & Museum guarda Bíblias de Gutenberg, manuscritos medievais e a sala onde nasceu o Federal Reserve (Fed), o banco central americano.
Ele é o espelho do desejo de seu patrono. Amante de artes, J.P. Morgan queria uma biblioteca para guardar e aproveitar a sua coleção - que chegou a acumular cerca de 50 mil itens.
O espaço, erguido pelo arquiteto Charles Follen McKim, o mesmo que projetou a Pennsylvania Station original (demolida em 1963), ficou pronto em 1906, sete anos antes da morte de J.P. Morgan.
Ele era, no início do século XX, o homem mais poderoso das finanças americanas. Mas sua obsessão por colecionar precedeu sua dominância financeira.
Acumulou pinturas, esculturas, artefatos egípcios, porcelanas chinesas. E livros (manuscritos iluminados, primeiras edições, partituras originais, incunábulos) com uma voracidade que seus biógrafos nunca conseguiram explicar completamente e que o próprio Morgan jamais se deu ao trabalho de articular. O basement da sua casa na 36th Street foi construído para guardar o que ele não parava de adquirir.
A biblioteca original, por exemplo, tem três andares de estantes em nogueira esculpida, afrescos no teto com signos do zodíaco e figuras da mitologia, e entre as prateleiras, escadas secretas de acesso aos níveis superiores e um elevador para transportar volumes.
Ali estão três exemplares da Bíblia de Gutenberg — de uma tiragem original de cerca de 180 cópias, das quais menos de cinquenta sobreviveram. Uma está sempre em exibição, em rodízio de conservação.
Há também manuscritos medievais iluminados de mais de 1,3 mil anos; o Evangelho Dourado de Henrique III; a única cópia completa da edição de William Caxton de Le Morte d'Arthur, adquirida em 1911; primeiras edições de Copérnico e Galileu; o manuscrito do Conto de Natal de Charles Dickens; os rabiscos em papel onde Bob Dylan anotou os primeiros versos de Blowin' in the Wind; e, descoberto em 2024 por uma funcionária do museu entre pilhas de documentos, uma valsa inédita de Chopin, datada dos anos 1830, que ninguém sabia que existia. O acervo soma mais de 350 mil objetos.
Mas nenhuma sala do museu ilustra isso melhor a figura de J.P. Morgan do que o seu escritório particular, no chamado West Room, que é coberto por paredes em seda vermelha (tudo ali está restaurado em razão do tempo e das manchas provocadas pela fumaça do charuto).
Acima da lareira, um retrato de Morgan — colocado no local após a sua morte. Ao lado, um cofre de aço onde os manuscritos mais valiosos eram guardados até 2003. E a história conta que, na parede dissimulada entre as prateleiras, existia uma estante secreta.
Mas nessa prateleira oculta os funcionários do museu que a descobriram não encontraram nada. O que Morgan guardava ali é, até hoje, um mistério.
O que não é segredo é o que aconteceu entre aquelas paredes na madrugada de 4 de novembro de 1907. O mercado financeiro americano havia entrado em colapso semanas antes. Bancos quebravam. Depositantes corriam às agências para retirar seu dinheiro.
O país não tinha banco central e, portanto, não tinha mecanismo de contenção. Morgan convocou os presidentes das principais instituições financeiras de Nova York para sua biblioteca e, simplesmente, trancou a porta.
Durante 24 horas, os confinados negociavam os valores que cada um comprometeria para estabilizar o sistema. Poucas horas antes de Nova York amanhecer, todos assinariam um compromisso de aporte. A crise foi contida. Seis anos depois, o episódio seria citado como o passo inicial para a criação do Fed, em 1913.