Nova York — Na terça-feira, 28 de abril, um concerto da Filarmônica de Nova York, no Lincoln Center, seguido por um jantar de gala, em que foram arrecadados US$ 3 milhões para a orquestra, marcou oficialmente a chegada de seu novo diretor artístico e musical: o maestro venezuelano Gustavo Dudamel, de 45 anos.

Ao assumir a regência da filarmônica mais antiga dos Estados Unidos, fundada em 1842, ele  passa a figurar entre os maestros lendários que já ocuparam o posto, como o austríaco Gustav Mahler, o italiano Arturo Toscanini, o americano Leonard Bernstein e o alemão Kurt Masur.

Dudamel chega ao Lincoln Center depois de reger a Filarmônica de Los Angeles por 17 anos e de atuar como condutor convidado em Nova York nos últimos três anos.

Filho de um trombonista e de uma professora de canto, o regente nasceu em Barquisimeto, a quarta maior cidade da Venezuela conhecida como a Cidade da Música por abrigar diversas instituições voltadas a esta arte.

Desde pequeno, Dudamel participava do El Sistema, um programa de educação musical para crianças de baixa renda, financiado pelo governo. Trata-se de uma iniciativa criada há 50 anos pelo músico e maestro José Antônio Abreu, falecido em 2018, que também fundou, em 1978, a Orquesta Sinfónica Simón Bolívar de Venezuela, da qual Dudamel é diretor desde 1999.

“Quando eu tinha nove anos, o maestro Abreu notou algo especial na minha vida musical. Ele me fez aprender e trilhar o belo caminho da regência”, contou Dudamel em uma entrevista a músicos da filarmônica.

“Ele era um pai. Ao conversar sobre uma interpretação ou uma peça, surgiam temas de filosofia e de poesia. Ele era um gênio”, diz o venezuelano que, ao longo da carreira, trabalhou com maestros como o argentino Daniel Barenboim e o italiano Claudio Abbado. “O mais bonito é que eles foram meus maestros e também meus amigos.”

A programação do primeiro ano de Dudamel no comando da Filarmônica de Nova York, que começa em setembro de 2026 e se estende até 3 de outubro de 2027, inclui estreias assinadas pelas pianistas e compositoras Zosha Di Castri, canadense, e Tania León, cubano-americana.

Está previsto também um concerto-homenagem aos 25 anos dos ataques de 11 de setembro, acompanhado de apresentações de On the Transmigration of Souls, obra do compositor contemporâneo John Adams.

A orquestra ainda se apresentará em seis cidades europeias e comemora uma nova parceria operística de cinco anos com o Carnegie Hall, que começa com uma produção de Tosca, de Giacomo Puccini.

A filarmônica trará colaborações de artistas como Lang Lang, Yo-Yo Ma e Mitsuko Uchida, além de residências artísticas multimídia com Marina Abramović e Gustavo Santaolalla.

Sob o comando de Dudamel, a orquestra se apresentará em seis cidades europeias (Foto: imdb.com)

O documentário "El Canto de las Manos" mostra como a ópera "Fidelio" de Beethoven levou Dudamel de volta às suas raízes na Venezuela (Foto: imdb.com)

O filme sobre foi digido por Maria Valverde, esposa do maestro (Foto: Instagram @gustavodudamel)

Além disso, o maestro dedicará três semanas aos 200 anos da morte de Beethoven, celebrará os aniversários de John Adams (79) e Steve Reich (90) e conduzirá os concertos gratuitos ao ar livre durante o verão nova-iorquino. A temporada termina com MASS, composição de Leonard Bernstein de 1971, que reúne músicos, atores e bailarinos.

Antes mesmo desta maratona musical, Dudamel subiu ao palco do Lincoln Center em novembro passado para um painel sobre a estreia de El Canto de las Manos (O Canto das Mãos), documentário rodado em 2022 e dirigido por sua esposa, a atriz espanhola María Valverde.

O filme acompanha o maestro na montagem de Fidelio, a única ópera de Ludwig van Beethoven (1770-1827), encenada em 2020, por cantores surdos, em celebração aos 250 anos do nascimento do compositor alemão — Beethoven começou a perder a audição por volta dos 28 anos e aos 40, não escutava mais nada.

“Escolhemos Bethooven não só pela música, mas também pela sua surdez”, disse María, ao lado do marido e dos demais painelistas: DJ Kurs, diretor do Deaf West Theatre; Melissa Draganac-Hawk, líder em educação de libras; e do apresentador da noite, o ator Bradley Cooper — indicado ao Oscar por dirigir e atuar em Maestro, sobre a vida de Leonard Bernstein.

O documentário mostra como Fidelio levou Dudamel de volta às suas raízes na Venezuela e a um projeto criado pelo El Sistema em 1995: o Coro de Manos Blancas (ou Coral das Mãos Brancas), formado por músicos surdos.

“Na época, conduzi o primeiro concerto deste coral. Eu era adolescente, sem total entendimento do que se tratava", contou o maestro no evento, do qual o NeoFeed participou. "Mas aquela já era uma conexão com o impossível: jovens surdos cantando Ode à Alegria, de Beethoven. Era a forma mais natural de me conectar com aquela comunidade”, completou, perante uma plateia de cerca de duas mil pessoas.

O documentário mostra um projeto audacioso do maestro e sua equipe ao selecionar, treinar e ensaiar 12 destes músicos para a ópera, performada em libras ao lado de cantores profissionais, atores do Deaf West Theatre e da Filarmônica de Los Angeles no Walt Disney Concert Hall.

“O mais importante foi trazer justiça a uma comunidade que às vezes é segregada sem motivo. Ao mudar nossa visão, percebemos um mundo completamente diferente”, disse o maestro. “Não se trata de inclusão. Seria arrogante dizer que queremos incluir a comunidade surda na comunidade ouvinte. Trata-se de integração, um processo natural.”

“Nada disso foi criado por uma única pessoa: foi Beethoven, o Coro de Manos Blancas, a comunidade surda, o teatro, e muitas pessoas que se reuniram para imaginar o impossível”, diz o maestro, que envolveu sua fundação filantrópica neste projeto. “Além de apresentarem concertos, as instituições artísticas precisam considerar a arte como uma verdadeira ferramenta de transformação social”, ressaltou Dudamel.

É como Maria disse: “Considerando quem é Gustavo, o que já conquistou e o que é capaz de fazer, é essencial ver como este projeto o impactou para entendermos que o conceito deste trabalho vai além do som. Ele dá a estes músicos a oportunidade de se tornarem protagonistas de uma ópera, e também de suas vidas. Este é o poder do reconhecimento”.