Milão — O serviço impecável não deixa margem para dúvidas. Cada uma das 71 suítes do Hotel Carlton, em Milão, é decorada com uma paleta diferente de cores, ao estilo italiano, com móveis de design, tecidos sofisticados, cafeteria e roupões de algodão macio. Dentro do guarda-roupa, cabides revestidos com cetim preto e utilitários de madeira para limpeza e calce de sapatos revelam a essência do cuidado nos detalhes. A equipe de atendimento busca ouvir com atenção, sem invadir o espaço dos clientes.
“Temos história, provavelmente desde o Renascimento, somos vanguardistas. Nosso design é muito original, não copiamos”, afirma ao NeoFeed, Francesco Roccato, responsável pelos hotéis do grupo Rocco Forte no norte da Itália. Nascido em Turim, chef formado nos Estados Unidos, ele é um dos homens de confiança da famiglia Forte, a dona do negócio, para comandar o lançamento do hotel na capital da moda há poucos meses.
Mas o sucesso da empresa no setor de luxo atravessou um percurso impressionante: lágrimas, queda e ascensão — um drama que poderia virar uma série da Netflix. A trajetória da família na hospitalidade começou no início do século XX, quando o patriarca Carmine Forte deixou a cidade de Frosinone, no sul do Lácio, e se estabeleceu na Escócia, abrindo um pequeno café chamado The Savoy.
O negócio cresceu com restaurantes e cafés, até que o filho Charles se mudou para Londres nos anos 1930, inaugurando um Milk Bar na Regent Street, um café simples, com bebidas lácteas, lanches e sobremesas, expandindo rapidamente. Décadas depois, a Trusthouse Forte se tornaria um conglomerado global de hotéis e restaurantes, consolidando o nome da família no mercado internacional de alto padrão.
Em 1996, o grupo foi tomado por meio de uma aquisição hostil pela britânica Granada plc, encerrando o controle dos Forte sobre a empresa e deixando apenas uma fração do capital original nas mãos do clã — uma reviravolta considerada uma das mais dramáticas do universo dos negócios hoteleiros.
Determinados a recomeçar, os netos do patriarca, Rocco Forte e a irmã Olga Polizzi fundaram, no mesmo ano, a Rocco Forte Hotels, reconstruindo uma rede de hotéis cinco estrelas que hoje se estende por toda a Itália e planeja novas propriedades no sul do país, nas cidades de Noto e Nápoles e nas regiões da Sardenha e Puglia.
O mercado em que a família atua integra um setor maior que movimenta a chamada economia della bellezza, responsável por moda, design, arte, turismo e cultura. Segundo relatório do Banco Ifis, esses setores alcançaram cerca de € 626 bilhões, aproximadamente R$ 3,75 trilhões em 2024 — o que equivale a cerca de 29% do PIB italiano. De olho em crescimento, os Forte seguem investindo na ampliação do negócio nos últimos anos.
Em Milão, o The Carlton ocupa um imóvel muito bem localizado no concorrido Quadrilátero da Moda. Reformado por € 60 milhões (cerca de R$ 362 milhões) sob a direção criativa de Olga, o hotel combina tradição e modernidade.
A gastronomia é assinada pelo premiado chef Fulvio Pierangelini, reconhecido por usar ingredientes simples e trazer a integridade do sabor da comida em vez de truques técnicos. No La Spiga, restaurante do local, a massa com caviar é um exemplo do respeito à cultura local com toque refinado.
Mas é na área de bem-estar que o The Carlton se destaca. A filha de Rocco, Irene, criou um spa com salas de tratamento, sauna, vapor, duchas sensoriais e camas sonoras. Todos os serviços utilizam produtos formulados com ingredientes nobres, como o pistache siciliano, azeites e hibisco e refletem a filosofia de beleza que começa de dentro para fora. Os hóspedes também têm os mesmos produtos nos quartos.
Em contraste com o ritmo urbano de Milão e Roma, a Rocco Forte Hotels também aposta em uma experiência ligada à natureza e ao bem-estar profundo no Verdura Resort, na costa sul da Sicília.
Instalado em uma propriedade de mais de 230 hectares entre oliveiras, pomares cítricos e quase dois quilômetros de costa mediterrânea, o lugar combina praias, campos de golfe e uma proposta de saúde integrada com a filosofia local de vida longa e saudável.
Perto dali nas montanhas, a pequena comunidade de Caltabellotta é considerada candidata a Blue Zone — regiões do mundo onde a proporção de pessoas que vivem 90 anos ou mais está significativamente acima da média, fenômeno ligado a fatores ambientais, dieta tradicional e laços sociais profundos.
Essas zonas têm atraído atenção internacional por apresentar hábitos e ambientes propícios a uma longevidade saudável, como já ocorre em parte da Sardenha (Itália), Okinawa (Japão), Ikaria (Grécia) e Nicoya (Costa Rica).
Todas as propriedades da família Forte buscam oferecer uma estadia memorável, sem deixar de atender gerações diversas. A sofisticação se percebe nos espaços e no serviço discreto.
"O hóspede de luxo já mora em casas maravilhosas, com todo conforto que se possa imaginar, mas ele precisa se sentir em casa conosco: somos uma extensão da vida dele", afirma Roccato, que conhece bem seu cliente, que se divide entre pessoas tradicionais e jovens milionários em busca de experiências autênticas e personalizadas.
"Eles apreciam ambientes clássicos e história, mas querem originalidade em cada detalhe", explica.
Essa combinação de discrição, atenção aos detalhes e respeito à tradição define o luxo italiano. É voltado para quem busca ser original e valoriza a sofisticação sem ostentação. Nesse cenário, a Rocco Forte Hotels se mantém como a cadeia mais marcante do país, símbolo do que há de melhor no mundo quando o assunto é se hospedar bem.