Casado com uma brasileira e fã de bossa nova, o francês Julien Delbourg tem o Brasil como um dos seus destinos mais frequentes. Mas essas passagens e conexões locais vão muito além de sua vida e gostos pessoais. E do português que ele já entende bem, mas um pouco fala - ainda.
Desde março de 2025, ele é o chief commercial officer (CCO) da Deezer, plataforma francesa de streaming de música, rival de serviços como Spotify e Apple Music. A empresa desembarcou no Brasil em 2013 e, de lá para cá, o País tornou-se um dos principais nomes da sua playlist.
“O Brasil é, de longe e há muito tempo, nosso segundo mercado global, atrás apenas da França”, diz Delbourg, em entrevista ao NeoFeed. “É realmente o país número um quando falamos em investimentos além do nosso mercado doméstico.”
Com esse status, o Brasil é uma das prioridades da aposta mais recente da companhia, a Deezer for Business, plataforma que reformula — e reforça — sua pegada B2B. E cuja trilha passa por uma vertente que está no topo das paradas de qualquer companhia: a inteligência artificial (IA).
A empresa desenvolveu uma ferramenta que usa IA para detectar músicas criadas justamente a partir dessa tecnologia. E para combater as fraudes na reprodução dessas faixas, que impactam a distribuição de royalties na plataforma.
“Um dos grandes problemas para as plataformas é a facilidade com que se criam essas faixas”, diz Delbourg. “Isso ajuda a construir um modelo de negócio, pois há robôs que impulsionam a reprodução dessas músicas.”
Hoje, 44% das faixas enviadas diariamente para a Deezer são geradas por IA, o que representa mais de 2 milhões de músicas por mês. Em 2025, esse volume chegou a 13,4 milhões.
Do total identificado, 85% das músicas são fraudulentas e desmonetizadas pela companhia, o que também exclui essas faixas de suas recomendações por algoritmos, além de sinalizar aos usuários que aquele conteúdo foi criado por IA.
“Não somos contra a IA e, de modo geral, os usuários também não são”, afirma o CCO. "Não queremos julgar ou definir o que eles vão ouvir. Mas o que percebemos é que eles querem transparência."
Um estudo da Confederação Internacional das Sociedades de Autores e Compositores (CISAC) reforça o que está em jogo. A pesquisa projetada que, diante dessa onda, quase 25% da receita dos compositores pode estar em risco até 2028, o equivalente a € 4 bilhões.
De olhos nesses números, a Deezer entendeu que havia demanda para vender sua ferramenta a outros players da indústria da música. E, há poucos meses, já fecharam acordos com nomes como a Associação Húngara de Gestão de Direitos de Artistas Intérpretes (EJI).
“Nosso papel não é decidir que outras empresas do setor farão com essa informação”, diz o executivo. "Mas, dado que temos essa ferramenta, vamos garantir que outros players tenham acesso a ela. E eles irão definir as políticas que desejam adotar."
Além dessa ferramenta e de uma plataforma de publicidade em áudio, que dá aos anunciantes acesso ao inventário da Deezer e de parceiros, o Deezer for Business tem linhas como o Deezer Music as Service, um white label para empresas que queiram construir seus serviços de streaming.
Nessa área, que já inclui clientes como a Sonos, empresa americana de tecnologia de áudio, e a RTL, grupo alemão de mídia, a Deezer fornece todo o aparato por trás desses serviços – da infraestrutura ao catálogo, passando por áreas como gestão de royalties e de assinaturas.
Som customizado
O pacote B2B também conta com uma plataforma de áudio para locais como lojas, restaurantes, escritórios e espaços públicos. A ideia é criar experiências sonoras customizadas, conectadas com o perfil e o público-alvo de cada um desses clientes.
O menu à disposição envolve desde playlists focadas em um perfil de estabelecimento —restaurantes italianos, por exemplo — até listas criadas especificamente para determinados horários, estratégias e fluxos de movimento de cada loja ou rede.
Inicialmente, esse serviço está disponível apenas na França, onde redes como o McDonald's e o Dunkin' (antigo Dunkin' Donuts), que está relacionado a marca no país, vêm testando a plataforma em suas unidades.
Em compasso de espera para receber esse serviço, o Brasil vem ditando o ritmo na oferta que complementa essa plataforma B2B: as parcerias com empresas que distribuem o catálogo da Deezer aos seus clientes, um modelo que deu o tom da expansão da companhia desde a sua fundação, em 2007.
Antes, tal formato era mais restrito às operadoras de telecomunicações, como a Orange, na França, e, por aqui, a TIM. Agora, outros setores estão reforçando esse coro — hoje, são mais de 40 parceiros globais. E o Brasil está na vanguarda desses novos duetos, com colaborações com nomes como o Itaú Unibanco.
Sem balanço
Questionado se, ao definir sua estratégia no B2B, a Deezer tem planos de se tornar muito mais uma provedora de infraestrutura e tecnologia para a indústria da música, em detrimento de um aplicativo de benefício ao consumidor, Delbourg afirma:
“Não se trata de uma evolução que pende mais para um lado do que para o outro”, diz. Mas ele deixa claro que a empresa está reforçando a tese por meio de qual sempre buscou se diferenciar dos seus pares, centrados prioritariamente no B2C.
Em um mercado que, só no Brasil, já movimenta mais de R$ 1 bilhão, essa é também a resposta da Deezer à concorrência de big techs como Apple, Google e Amazon, com maior poder de fogo financeiro e seus serviços de streaming não têm necessariamente a mesma pressão para serem rentáveis.
Com essa aposta, em 2025, a Deezer reportou o primeiro lucro líquido anual da sua história, de € 8,5 milhões, revertendo a perda de um ano anterior, de € 26 milhões. No período, a empresa chegou a uma base de 9,1 milhões de usuários, distribuídos em mais de 180 países.
“Esse marco nos dá mais controle sobre o nosso destino”, diz Delbourg. "Temos muito mais visibilidade para dar sequência ao que vínhamos fazendo, investir em novos projetos e, especificamente, no B2B. E regiões em estratégicas para nós, como o Brasil."