Nova York — Pela primeira vez em 30 anos, a fórmula infantil entrou na pauta da FDA, a agência de controle de alimentos e remédios do governo dos Estados Unidos. Batizada de Operation Stork Speed (“Operação Cegonha Rápida”) e lançada em março de 2025, a iniciativa tem por objetivo modernizar o arcabouço regulatório da qualidade dos produtos e da inovação na indústria de substitutos do leite materno.

Para isso, a FDA abriu um canal público, por meio do qual especialistas, famílias e empresas contribuíram com as discussões. Criada pelo mineiro Del Afonso, a Harmony Baby Nutrition, startup focada na criação de fórmulas hipoalergênicas, esteve entre os participantes mais ativos. Cientista com carreira em foodtech, ele busca uma composição com até 90% de proximidade ao leite materno.

Nos Estados Unidos, três empresas detêm 70% do mercado — Abbott, Mead Johnson e Perrigo. “Elas remuneram bem seus profissionais, mas estão estagnadas, sem qualquer inovação”, critica o empresário, em entrevista ao NeoFeed, de Boston, onde mora. A primeira fórmula infantil, segundo ele, foi comercializada na Europa na década de 1860: “O oligopólio americano reduz os incentivos à inovação, mas cria uma oportunidade para entrantes com propostas tecnológicas mais avançadas”.

Del criou a Harmony a partir de uma experiência pessoal. Em 2018, ele se tornou pai pela segunda vez. No entanto, ao contrário do que aconteceu com o primeiro filho, sua esposa não produziu leite suficiente para amamentar a filha recém-nascida. “Leite materno é sempre a melhor opção, mas nem sempre a amamentação natural é viável”, afirma o cientista.

O casal teve então de recorrer à fórmula tradicional, feita normalmente com a proteína de leite bovino. Mas a bebê apresentou reação alérgica ao composto e começou a perder peso — para desespero dos pais.

O pediatra então receitou fórmulas hipoalergênicas, produzidas pelos mesmos fabricantes das fórmulas tradicionais, mas que utilizam proteína de vaca hidrolisada (de mais fácil absorção), soja e aminoácidos como substitutos proteicos. Ainda assim, algumas crianças podem ser alérgicas a estas alternativas.

Ao examinar os ingredientes das fórmulas disponíveis no mercado, incluindo as hipoalergênicas, Del se espantou com a quantidade elevada de açúcar, sem falar no sabor — se bebês falassem, colocariam a boca no trombone.

Formado em farmácia pela UFMG, com mestrado em administração pela PUC e pelo MIT, em 2018, Del se juntou a cientistas locais para atacar o problema.

“Ao entender o microbioma intestinal infantil, estamos desenvolvendo uma tecnologia para tratar e prevenir alergias”, conta. “As fórmulas existentes não permitem antecipar este problema.”

No segundo semestre, a Harmony deve levar ao mercado americano seu primeiro produto: a fórmula Melodi, destinada a crianças com mais de 12 meses. Com ingredientes aprovados pela FDA, a fórmula usa proteína de vaca hidrolisada e menos açúcar do que as composições disponíveis.

A escolha desta faixa etária foi estratégica: nos Estados Unidos, fórmulas para bebês de até 12 meses demandam cerca de dois anos em pesquisas e costumam absorver cerca de US$ 5 milhões em investimentos. Para crianças acima dessa idade, os produtos entram na classificação de alimentos e as exigências regulatórias são menores.

A mulher de Del Afonso não consegiu amamentar a segunda filha, nascida em 2018. Foi aí que surgiu a ideia para a criação da Harmony Baby Nutrition (Foto: Divulgação)

Formado em farmácia pela UFMG, o empresário tem mestrado pela PUC e pelo MIT (Foto: Divulgação)

Os R$ 30 milhões captados junto ao governo brasileiro serão usados na construção de uma centro de pesquisa e desenvolvimento e uma fábrica em Belo Horizonte (Foto: Divulgação)

O primeiro produto desenvolvido pelo empreendedor mineiro é a fórmula Melodi, para crianças acima de um ano (Foto: Divulgação)

“Após lançarmos a Melodi e validarmos o mercado, investiremos em estudos clínicos para expandir as fórmulas para bebês de 0 a 12 meses, focando em componentes mais próximos ao leite materno”, explica ele, que já está gerenciando a captação de fundos no site WeFunder.

Em dezembro passado, a Harmony anunciou o aporte de R$ 30 milhões em financiamento da Finep e do BNDES. Os recursos serão usados na construção de um centro de pesquisa e desenvolvimento e de uma unidade fabril em Belo Horizonte. A inauguração está prevista para daqui a dois ou três anos, com um time de 25 profissionais.

“Hoje, temos uma quantidade incrível de cientistas ultraqualificados no Brasil”, celebra Del.  “A proposta veio de pesquisadores a editais de subvenção econômica, destacando a força do Brasil em commodities, mas a falta de fabricantes nacionais relevantes de nutrição infantil.”

Pelos dados do CDC, a agência americana de saúde pública, cerca de 54% dos bebês no país são alimentados com fórmula até os três primeiros meses de vida e 75% até os seis meses, seja como suplemento ou como dieta integral.

O caso da filha de Del não é exceção. Um estudo recente do Massachusetts General Hospital indica: um em cada cinco recém-nascidos apresenta reações a fórmulas tradicionais. Dos três autores da pesquisa, Victoria Martin se juntou a Del na criação da Harmony.

As reações alérgicas mais comuns às fórmulas infantis incluem manchas cutâneas, cólica e proctite (inflamação retal). “Nestes casos, indico a marca de fórmula Neocate [à base de aminoácidos], importada dos Estados Unidos”, diz ao NeoFeed o pediatra carioca Jayme Vaisman. “Normalmente, a alergia desaparece em alguns dias”, completa o médico, com seis décadas de experiência.

No Brasil, o preço de cada lata de 400 gramas do produto varia entre R$ 200 e R$ 300, o que resulta em um custo mensal superior a R$ 3 mil.  “Os pais podem se cadastrar no site da empresa [Danone] para obter descontos ou recebê-las gratuitamente em hospitais”, diz o pediatra, que estava atendendo um caso na semana desta entrevista.

A iniciativa da FDA de reorganizar o setor de fórmulas infantis chega com atraso. O domínio de mercado nas mãos de poucos tem gerado graves consequências. Em 2022, a Abbott recolheu três marcas de circulação devido à contaminação que resultou na morte de alguns bebês.

Em 2023, foi a vez da empresa Reckitt recolher 145 mil latas contaminadas do mercado.  No Brasil, um episódio similar ocorreu em janeiro passado, envolvendo quatro marcas da Nestlé.

“Estes casos deram início a uma crise: linhas de telefone dos hospitais ficaram congestionadas e algumas mães criaram um mercado paralelo, desembolsando US$ 300 no eBay por latas normalmente vendidas por US$ 45, ou importando novas marcas da Europa”, recorda Del.