A América Latina vem ganhando a atenção de investidores globais que buscam exposição à inteligência artificial (IA) sem aumentar ainda mais a concentração das suas carteiras nos Estados Unidos e na Ásia.

Segundo relatório do Santander, o interesse pelo continente não está ligado apenas à perspectiva de juros mais baixos ou à tradicional busca por mercados emergentes. A região oferece empresas e mercados onde resiliência dos lucros, exposição a commodities, dividendos e alocação de capital sustentam a tese macroeconômica, em meio a um mercado global de IA cada vez mais concentrado.

De acordo com os analistas Aline de Souza Cardoso, Andres Soto e Ulises Argote, o desconforto com as teses de inteligência artificial mais concorridas parece estar aumentando. Diversos investidores manifestaram em uma conferência da instituição em Londres a preocupação com o grau de concentração observado em alguns mercados asiáticos, especialmente na Coreia do Sul, onde a etapa mais recente da valorização passou a ser impulsionada cada vez mais pelo investidor de varejo.

Isso não significa, porém, que a corrida da inteligência artificial esteja perdendo força, mas sugere que o fluxo de capital adicional pode estar se tornando mais seletivo.

Com base em teleconferências de resultados de 118 empresas da América Latina entre o primeiro trimestre de 2025 e o primeiro trimestre de 2026, o Santander constatou que a adoção de inteligência artificial está avançando rapidamente em setores como bancos, telecomunicações, varejo, consumo e educação. E em vez de ser apenas uma inovação tecnológica, a IA já começa a se traduzir em produtividade e vantagem competitiva mensurável.

Pelo índice de IA do Santander, que usa como critérios estratégia, casos de uso, execução prática e impacto na operação, Globant, Totvs, Nubank, Itaú e TIM aparecem entre as companhias mais bem posicionadas.

A Globant aparece no relatório como o caso mais avançado de empresa nativa de inteligência artificial da América Latina. O banco destaca que a empresa já acumula US$ 32,8 milhões em receita recorrente anual (ARR) com AI Pods, modelo de assinatura para serviços como desenvolvimento de software e definição de produto, com testes em larga escala potencializados por IA. A consultoria ainda possui um pipeline de US$ 352 milhões nessa frente e já incorporou a solução em 40% de suas 20 maiores contas.

Já a Totvs está posicionando a IA como uma camada adicional sobre seu ecossistema de ERP, T-Cloud e soluções para pequenas e médias empresas. O principal destaque é o Lynn, plataforma de IA desenvolvida para o mercado brasileiro, baseada em agentes de IA e no conceito de task as a service.

A companhia informou que soluções relacionadas à IA representaram mais de 17% da receita de 2025, com crescimento de 37% em relação ao ano anterior, enquanto a receita líquida por funcionário avançou mais de 11%, indicando ganhos de produtividade.

Entre os bancos, Nubank e Itaú lideram a adoção de IA na região. O Santander destaca que o Nubank avança na construção de um banco nativo de IA, com quase 100% dos funcionários usando ferramentas de inteligência artificial. Além disso, o NuFormer, seu modelo proprietário, já está em produção para tomada de decisões de crédito no Brasil e no México e para empréstimos sem garantia no Brasil.

O Itaú, por sua vez, acumula mais de 500 casos internos de uso de IA voltados à produtividade e vem incorporando a tecnologia em produtos como o Pix via WhatsApp, além de aplicações em atendimento, investimentos e meios de pagamento.

Por fim, o relatório aponta que a TIM já mapeou 100 casos de uso de inteligência artificial, dos quais 24 foram testados e sete implementados. A maioria dos pilotos focou na eficiência de custos, com alguns visando oportunidades comerciais. A operadora também citou ganhos iniciais de produtividade de TI acima de 20% no desenvolvimento de software, apoiados por parcerias com o Google e a Microsoft.