A Times Square, um dos endereços mais icônicos de Nova York, tornou-se cenário de um filme de terror da Netflix na sexta-feira, 17 de julho. Mais precisamente na Nasdaq, um dos cartões-postais da cidade: as ações da empresa despencam após o resultado do segundo trimestre assustar os investidores.

Logo no início da sessão, os papéis da Netflix chegaram a cair 12,4%, indo à mínima desde 2024, ao serem negociados a US$ 65,10. Mesmo com os papéis reduzindo as perdas para perto de 7% ao longo do dia, a companhia caminha para encerrar o pregão com uma queda de US$ 21,5 bilhões no valuation, equivalente a quase todo o valor de mercado da Fox Corporation (US$ 23,5 bilhões), a mais de duas vezes o da Paramount (US$ 10,3 bilhões).

No trimestre, o lucro líquido da Netflix foi de US$ 3,4 bilhões, 9% mais alto na comparação anual, enquanto a receita cresceu 13,4%, para US$ 12,56 bilhões. Até aí, em linha com as expectativas do mercado.

O susto veio nas projeções da Netflix, que passou a considerar um crescimento mais fraco da receita, da ordem de 11,7%, para o terceiro trimestre.

Na conference call, o CFO Spence Neumann tentou minimizar, chamando a variação de “choppiness” — uma espécie de solavanco pontual — e reiterando a projeção de crescimento de 13% a 14% para o ano inteiro.

O mercado não comprou. A situação piorou quando a empresa anunciou que vai encerrar a divulgação semestral de dados sobre horas assistidas. O relatório What We Watched, que era publicado junto com os resultados semestrais, passará a sair apenas uma vez por ano, a partir de 2027.

A Netflix argumentou que quer manter o foco nos indicadores financeiros. Wall Street fez uma leitura diferente. Nos primeiros seis meses de 2026, os assinantes assistiram a mais de 97 bilhões de horas de conteúdo — alta de apenas 2% em relação ao mesmo período do ano anterior, uma das menores taxas de crescimento de engajamento da história recente da empresa.

O pessimismo do mercado com a Netflix, porém, não é de hoje. Desde as máximas de 2025, as ações da companhia acumulam queda de cerca de 45%, acarretando uma perda próxima de US$ 260 bilhões em valor de mercado — montante superior ao valor da Disney inteira, avaliada em cerca de US$ 160 bilhões.

Por trás da queda está uma pergunta que divide o mercado há meses: a Netflix está chegando a um teto de crescimento ou está na iminência de destrancar mercados enormes? Analistas do Itaú BBA pendem para o lado mais pessimista.

“Embora a companhia tenha entregado receita e lucros em linha com o guidance, as expectativas eram mais altas, dado o contexto de investimentos crescentes, altas de preço anunciadas em algumas regiões, novos formatos de conteúdo, novos jogos e formatos publicitários expandidos”, afirmaram em relatório.

Analistas do Bank of America também atrelam a baixa de quase 50% das ações a “preocupações dos investidores com o apetite da empresa por uma transação transformadora”.

A empresa tentou, sem sucesso, acelerar por meio de aquisições. Perdeu a Warner Bros. Discovery para a Paramount Skydance no início do ano, após uma guerra de lances que lhe custou uma taxa de rescisão de US$ 2,8 bilhões. Depois, em junho, viu o Roku — plataforma de streaming com mais de 100 milhões de usuários ativos — ser arrematado pela Fox por US$ 22 bilhões.

Na conference call, questionado sobre possíveis movimentos envolvendo Lionsgate ou NBC Universal, o co-CEO Ted Sarandos foi categórico: “Somos construtores, não compradores.” Quem não teve estômago para aguentar o filme de terror vendeu a posição.