Espirais, volutas, elementos florais, colares de contas, serpentinas. Seja na pintura, na colagem ou na gravura, o repertório visual de Beatriz Milhazes é imediatamente reconhecível. Inspirada pela natureza e pelas festas populares, a artista cria composições em que cores, formas e ornamentos se sobrepõem, preservando a força de sua linguagem em diferentes suportes.
Esse universo está presente em Beatriz Milhazes: gravuras do acervo da Pinacoteca de São Paulo, em cartaz na Estação Pinacoteca. A mostra reúne 27 impressões produzidas entre 1996 e 2019 em parceria com o americano Jean-Paul Russell, fundador da Durham Press, uma das oficinas de gravura e editoras mais prestigiadas do mundo.
“Eu diria que foi um encontro mágico, um dos mais importantes da minha vida”, conta a artista ao NeoFeed. “Eu e Jean-Paul temos a mesma paixão pelo que fazemos. A sensibilidade e o respeito dele pela linguagem do artista são algo que contribuíram para o sucesso da nossa parceria.”
Em 1996, depois de realizar sua primeira exposição em Nova York e dar os primeiros passos de uma carreira internacional que se consolidaria nos anos seguintes, Milhazes buscava um impressor capaz de traduzir para a gravura seu já reconhecível vocabulário visual.
O primeiro profissional a quem recorreu recusou a proposta. Considerava o projeto excessivamente complexo, caro e sem perspectivas de mercado nos Estados Unidos. Na época, a pintora ainda era pouco conhecida fora do Brasil. A avaliação, porém, se mostraria equivocada.
Doze anos depois, em 2008, O mágico foi arrematada por US$ 1,05 milhão em um leilão da Sotheby's, em Nova York, tornando Milhazes a primeira artista brasileira contemporânea a ultrapassar a marca do milhão de dólares em um leilão internacional. Russell, embora também não pudesse prever esse desfecho, aceitou o desafio.
Logo depois de concluir o ensino médio, o impressor começou a trabalhar com Rupert Jasen Smith, colaborador histórico de Andy Warhol, Frank Stella e Robert Rauschenberg, e um dos nomes mais importantes da serigrafia americana. Foi nesse ambiente de intensa experimentação técnica que desenvolveu o conhecimento que, anos depois, lhe permitiria converter as composições complexas de Milhazes em gravuras.
“Minha linguagem pictórica, com tantas camadas, composições complexas e uma estrutura cromática diversificada, apresentava desafios para o desenvolvimento das gravuras”, comenta a artista.
Milhazes buscava preservar as características de seu trabalho e, ao mesmo tempo, explorar as possibilidades oferecidas pela gravura. “Foi um grande desafio técnico, um exercício de generosidade para o impressor e um investimento para o estúdio. E Jean-Paul aceitou correr esse risco”, completa.
Camadas e mais camadas
A artista é um dos principais nomes da chamada Geração 80, grupo que recolocou a pintura no centro da produção artística brasileira e ganhou projeção no mercado de arte. Em vez de reforçar a gestualidade característica da pintura, Milhazes passou a investigar maneiras de apagá-la. Entre o fim da década de 1980 e o início dos anos 1990, desenvolveu a técnica do monotransfer.
O processo consiste em pintar os elementos da composição, invertidos, sobre uma folha de plástico para, em seguida, transferir essa camada para a tela. Em vez de valorizar a pincelada, a artista reduz os vestígios da manualidade e cria uma espécie de colagem da própria pintura.
Esse mesmo princípio de construção por camadas reaparece nas gravuras. "O trabalho da Beatriz opera pela soma", resume Renato Menezes, curador da mostra, ao NeoFeed. A forma como essa soma acontece, porém, muda completamente de uma técnica para outra.
"Enquanto a pintura é fatal — o que você colou não dá mais para tirar —, a gravura resulta de uma longa sequência de experimentações e sobreposições de matrizes antes de chegar à versão final", explica. Uma única impressão pode reunir cerca de 50 camadas de serigrafia e até 150 matrizes de woodblock, evidenciando a complexidade técnica de sua produção.
Vista em conjunto, a série revela a recorrência de determinadas formas. Em Uva selvagem e Cabeça de mulher, duas das primeiras gravuras produzidas pela artista, em 1996, um arabesco azul ocupa lugar de destaque na primeira composição. Na segunda, a mesma forma permanece parcialmente encoberta por flores e elementos circulares.
O raciocínio das camadas também orienta a construção das cores. Em Figo (2006), apontada por Menezes como uma das gravuras mais complexas da exposição, os azuis não são cores prontas. Eles resultam da impressão sucessiva de camadas de amarelos e verdes. "Um pintor mistura a tinta na paleta. Na gravura, ela mistura as cores pelas sobreposições", explica o curador.
Pensamento gráfico feminino
Figo, Sábado, Cabeça de mulher, Espelho — os títulos escolhidos por Milhazes evocam personagens, objetos e situações do cotidiano. Nenhuma dessas imagens, porém, pode ser reconhecida entre as formas, as cores e os arabescos das gravuras. Sua produção está ligada à abstração.
Segundo Menezes, parte desses nomes nasce de uma lista mantida pela artista; outros surgiram de conversas com Jean-Paul Russell durante o processo de criação:
"Ela é uma artista muito rigorosa, muito fiel ao seu vocabulário de formas e aos seus princípios. Ao mesmo tempo, tem a sabedoria de lidar com esses elementos menos racionais, menos duros, que são os títulos".
Em geral, o título funciona como uma chave de leitura, oferecendo ao espectador uma pista para interpretar a obra. Milhazes, contudo, segue outro caminho.
Ao batizar suas gravuras com referências aparentemente alheias às imagens apresentadas, rompe a expectativa de correspondência entre palavra e representação.
Menezes ressalta ainda que a decisão da artista de doar esse conjunto de gravuras à Pinacoteca foi deliberada. A instituição é a única do mundo a reunir esse conjunto completo de impressões e já possui em seu acervo obras de artistas como Renina Katz e Maria Bonomi, nomes incontornáveis da gravura brasileira.
Como o curador define: "Beatriz é mais um desses nomes que se junta ao acervo, fortalecendo essa linha de pesquisa ligada ao pensamento gráfico feminino no Brasil".