É fim de tarde. Os últimos raios de sol tingem de laranja o horizonte. Em uma casa de dois andares, as luzes já foram acesas. Entre as árvores, emerge a figura de um homem de chapéu-coco. A silhueta, na penumbra, confere uma tensão à cena. O que estaria ele fazendo ali?

Essa fricção entre o ordinário e o extraordinário está no centro da pintura La fin du monde (1963), de René Magritte, o pintor que fez do realismo minucioso uma máquina de estranhamento, sugerindo que o cotidiano muitas vezes é mais enigmático do que aparenta.

Talvez mais “surreal” ainda seja saber que a tela pertence a uma coleção privada brasileira. Nem o MAC-USP nem o MASP, dois dos principais acervos de arte europeia do país, guardam uma obra de Magritte. Até 15 de agosto, porém, os paulistanos poderão vê-la de perto na mostra Surrealismos – arte além da razão, na galeria Pinakotheke.

“O maior mérito dessa exposição é que todas as obras provêm de coleções particulares brasileiras”, afirma o marchand Max Perlingeiro em entrevista ao NeoFeed. “Eu garanto que, com raríssimas exceções, o público em geral nunca viu várias dessas obras. E sabe quando verão de novo? Talvez nunca.”

A mostra reúne cerca de 150 trabalhos de outros grandes nomes da história da arte nacional e internacional, como Salvador Dalí, Max Ernst, Giorgio de Chirico, Louise Bourgeois, Diego Rivera, Alberto Giacometti, Maria Martins, Tunga, Tarsila do Amaral e Henry Moore.

Perlingeiro teve a ideia da exposição em 2016, depois de visitar Magritte: La trahison des images, no Centre Pompidou, em Paris.

Responsável pela administração de mais de 20 coleções particulares, o galerista tinha uma vantagem estratégica: conhecia boa parte do mapa de obras e colecionadores que poderia acionar para a mostra.

Ainda naquele estágio embrionário do projeto, convidou o curador Tadeu Chiarelli para trabalhar com ele na mostra que devia abrir em 2024, ano do centenário do Manifesto Surrealista escrito pelo francês André Breton.

A pandemia e problemas pessoais empurraram o plano adiante. O adiamento, no entanto, acabou coincidindo com outro marco: uma nova fase da Pinakotheke em São Paulo.

Aberta aos encontros

Fundada no Rio de Janeiro em 1979, a Pinakotheke deixa, após 26 anos, sua sede paulista no Morumbi — instalada em um edifício projetado por Carlos Bratke — para ocupar um endereço mais próximo do circuito cultural da cidade.

O novo espaço funciona em um palacete dos anos 1930, na Rua Minas Gerais, a poucos minutos da Avenida Paulista. Integralmente reformado, o imóvel aproxima a filial paulista da atmosfera da casa carioca da galeria, em Botafogo, também instalada em um palacete de inspiração neoclássica.

A arquitetura da nova casa acaba funcionando como uma metáfora da própria exposição. Em vez da neutralidade do cubo branco, a nova Pinakotheke aposta num percurso feito de desvios, corredores e encontros improváveis. “Numa casa, você é surpreendido”, diz Perlingeiro. Ao procurar por um banheiro, por exemplo, você pode encontrar uma gravura de Max Ernst de 4 metros de comprimento.

"O Lago", 1928, de Tarsila do Amaral (Foto: Jaime Acioli)

"Vénus spatiale", 1984, de Salvador Dalí (Foto: Falcão Junior/coleção Igor Queiroz Barroso, Fortaleza/Salvador Dalí, Fundació Gala-Salvador Dalí AUTVIS, Brasil, 2026)

"Cabeça de Medusa", década de 1940, de Maria Martins (Foto: Jaime Acioli)

"Retrato ancestral", 1932, de Flávio de Carvalho (Foto: Jaime Acioli)

Sem título, 1930, de Max Ernst (Foto: Falcão Júnior/Ernst, Max / AUTVIS, Brasil, 2026)

Sem título, 1968, de Athos Bulcão (Foto: Jaime Acioli)

"La ninã durmiendo", 1936, de Diego Rivera (Foto: Jaime Acioli)

"Figura Masculina", de Ismael Nery (Foto: Jaime Acioli)

"Sonho no 35", 1949, de Grete Stern (Foto: Coleção Jorge Scwartz/São Paulo, SP)

Broche "Oeil", de Jean Cocteau (Foto: Coleção particular, São Paulo, SP)

"The welcoming hands", 1996, de Louise Bourgeois (Foto: The Easton Foundation/AUTVIS, Brasil, 2026)

A nova sede paulista da Pinakotheke fica em um palacete dos anos 1930, no bairro de Higienópolis (Foto: Sergio Guerini )

É com espírito menos linear, mais aberto a associações inesperadas, que Surrealismos foi concebida. “Para nós, era importante propor um panorama que problematizasse a ideia do surrealismo como um movimento com começo, meio e fim”, afirma ao NeoFeed o curador Tadeu Chiarelli, que assina a organização ao lado de Perlingeiro.

Mais do que revisitar o surrealismo histórico das décadas de 1920 e 1930, interessava à dupla tratá-lo como um “tipo de subjetividade que transcende esse período histórico em que ele é mais cultuado”, completa o curador. Daí o plural do título.

Aproximações inesperadas

Organizada em núcleos geográficos — europeus, latino-americanos, estadunidenses e caribenhos —, a mostra aproxima do surrealismo artistas que raramente aparecem sob esse enquadramento. É o caso de Preparação (1975), vídeo da baiana Letícia Parente, geralmente situado no campo da arte conceitual brasileira dos anos 1970 e entre os pioneiros da videoarte no país.

Na obra, uma mulher cobre olhos e boca com esparadrapo e, em seguida, maquia sobre a superfície selada os traços do rosto que acaba de ocultar. “Ela trabalha muito com o paradoxo, o estranhamento, o deslocamento”, explica Chiarelli. “Ela enfatiza uma ação aparentemente simples que vai adquirindo uma dimensão impensável.”

Essa lógica de aproximações inesperadas aparece também nas relações que o visitante é convidado a construir ao longo do percurso. Uma pequena escultura da paulistana Érika Verzutti, por exemplo, encontra eco numa peça do britânico Henry Moore, revelando afinidades na maneira como ambos organizam os corpos no espaço como personagens de uma cena teatral.

É nesse terreno de afinidades improváveis que a exposição amplia as fronteiras do surrealismo e enfrenta também as ausências que marcaram sua historiografia. Associada a uma confraria predominantemente masculina e europeia, a mostra abre espaço para artistas frequentemente mantidos à margem das narrativas oficiais do movimento.

A mineira Maria Martins ocupa um lugar central nessa revisão. Chiarelli lembra que, embora o MoMA já possuísse obras da escultora brasileira em seu acervo, seu nome sequer aparece em Dada, Surrealism and Their Heritage, publicação ligada à histórica mostra organizada pelo museu em 1968.

“Isso mostra o grau de invisibilização das mulheres nessa narrativa”, afirma o curador. “Havia uma visão muito preconceituosa sobre a obra de Maria Martins pelo fato fundamental de ela ser uma mulher e também rica e bem colocada socialmente.”

A sala dedicada à escultora brasileira é uma estratégia de “reforçar essa importância e centralidade dela no debate”, ressalta.

A revisão alcança também nomes pouco conhecidos do público brasileiro, como a artista afro-americana Minnie Evans e o haitiano Préfète Duffaut, cujos universos fantásticos ampliam o eixo eurocêntrico do surrealismo. “Nunca o surrealismo foi tão discutido, pensado e repensado”, conclui Perlingeiro.

Nunca, tampouco, observado a partir de um conjunto tão improvável de obras reunidas em coleções privadas brasileiras.