Se antes, nos bastidores dos eventos corporativos na Faria Lima, os CEOs se conectavam falando de performance no esporte - pace na corrida, ritmo no triatlo, carga no treino -, agora o assunto é o desempenho na cama.

Mas não é isso que você imaginou... O descanso entrou no centro da pesquisa de alto desempenho nos negócios. Até pouco tempo atrás, informações relacionadas ao tempo de descanso noturno, de sono profundo ou de insônia eram restritas a laboratórios médicos. Hoje, fazem parte das conversas informais entre executivos.

O maratonista Alexandre Riccio, CEO do Inter, usou durante anos dispositivos como o Apple Watch e wearables da Garmin, mas nunca conseguiu dormir bem com eles por achar desconfortável. Ao ver executivos no exterior usando Oura Ring, um anel discreto que coleta dados 24 horas por dia, resolveu testar.

Fundada em Oulu, na Finlândia, a Oura Health faturou cerca de US$ 1 bilhão no ano passado, dobrando sua receita de 2024, impulsionada por sua presença nos pulsos de celebridades como Jennifer Aniston, Gwyneth Paltrow e Michael Dell. O modelo combina a venda do dispositivo com uma assinatura mensal para acesso aos dados e análises mais avançadas.

Hoje, Riccio não abre mão de monitorar indicadores como prontidão, qualidade do sono e resiliência — que mede o quanto o organismo está sustentando a rotina ao longo dos dias.

“O mais impressionante é a capacidade preditiva”, diz ele, em conversa com o NeoFeed . "Quando você viaja muito, dorme mal, come pior e aquilo vai deteriorando. O sistema antecipa quando você está mais sujeito a adoecer."

A tecnologia acabou provocando mudanças de comportamento. Ele aumentou em cerca de 45 minutos sua média de sono, passando a dormir cerca de seis horas e meia por noite. E os resultados do descanso mais reparador se refletiram no dia a dia: menos episódios de doença, mais controle sobre energia e uma sensação de maior previsibilidade.  E, talvez, tão importante quanto isso, seja o novo código social.

"Virou quebra-gelo. Todo mundo olha para o dedo do outro", conta. “Tem até uma rivalidade entre quem usa Oura e quem usa Whoop, como se fossem dois times.”

Tiago Santos, CEO da Danone Brasil, é do “time” da Whoop - principal concorrente da healthtech finlandesa, a empresa americana lançou uma pulseira que mede sono, esforço e recuperação.

Há três anos, Santos começou um olhar com mais atenção para a qualidade de seu sono depois de sofrer com uma recuperação lenta de Covid-19.

Por causa das informações coletadas, mudou o horário dos treinos - da noite para a manhã - e passou a buscar regularidade na rotina, com horários mais previsíveis para dormir e acordar.

"No mundo corporativo, você é um atleta. Vai ter pressão, estresse. A questão é como você sustenta isso, e o sono é central", afirma, em entrevista ao NeoFeed.

"Teve uma fase da minha vida em que descobri que seis horas eram suficientes. Hoje, sei que oito é o ideal e sete é o mínimo", complementa.

Com o anel da Oura Health, Alexandre Riccio, CEO do banco Inter, promoveu mudanças em seu estilo de vida, como aumentar as horas de sono (Foto: Divulgação)

"No mundo corporativo, você é um atleta. Vai ter pressão, estresse. A questão é como você sustenta isso, e o sono é central", diz Tiago Santos, CEO da Danone Brasil (Foto: Divulgação)

Renato Franklin, CEO da Casas Bahia, tem 45 anos, mas, segundo a pulseira Whoop, sua idade biológica é de 39 anos (Foto: Divulgação)

“Nunca me senti tão rápido de cabeça como me sinto hoje”, afirma Leonardo Rangel, cofundador da Cortex,, sobre os benefícios do Oura Ring e da cama Eight Sleep (Foto: LinkedIn)

O Oura Ring é um anel inteligente projetado para monitorar a saúde 24 horas por dia, com foco na qualidade do sono, recuperação física e temperatura corporal (Foto: ouraring.com)

A pulseira da empresa americana Whoop mede sono, esforço e recuperação (Foto: whoop.com)

As camas Eight Sleep controlam automaticamente a temperatura do leito para otimizar o sono, além de acompanhar métricas de saúde, como frequência cardíaca e respiração (Foto: eightsleep.com)

Se para alguns executivos medir a qualidade do sono começou como curiosidade, para outros virou quase obsessão. Renato Franklin, CEO do grupo Casas Bahia, é um deles. Ele já usou Garmin e Apple Watch ao mesmo tempo para comparar dados. Agora, está no Whoop. “Sou viciado nesses apetrechos”, diz ao NeoFeed.

O que o atrai não é apenas o monitoramento, mas a camada de inteligência, que orienta o que fazer para melhorar.

“Ele mede qualidade do sono, recuperação e ainda tem um LLM que orienta: se você deve treinar mais forte, mais leve, qual o impacto disso na sua idade biológica versus a cronológica”, afirma Franklin, de 45 anos - mas com 39 de idade biológica, de acordo com o dispositivo.

"Quando comecei, era o contrário. Parecia que eu estava envelhecendo mais rápido, porque dormia pouco e treinava demais."

No meio dessa corrida por avaliações, o médico pneumologista e nutrólogo Arthur Feltrin, da clínica Longevitar, lembra que o básico continua sendo, muitas vezes, negligenciado - e que, paradoxalmente, os próprios dispositivos podem deflagrar crises de ansiedade, piorando a insônia.

“Não adianta monitorar tudo e continuar dormindo mal”, alerta o médico, em conversa com o NeoFeed. "Reduzir telas, evitar refeições pesadas, ter rotina… isso vem antes.”

Leonardo Rangel, cofundador da startup Cortex, chegou à fase de monitoramento do sono depois de mudar hábitos de alimentação e exercícios físicos ao ler livros sobre longevidade. Cortou o cafezinho do meio da tarde, passou a jantar comidas mais leves. Depois, se modernizou com o Oura Ring e, por último, adotou a cama tecnológica da Eight Sleep.

“Nunca me senti tão rápido de cabeça como se sinto hoje”, relata ao NeoFeed. “É um conjunto, que inclui o sono, que você coloca em outro patamar.”

Fundada em 2014, a americana Eight Sleep já arrecadou mais de US$ 250 milhões e foi avaliada em cerca de US$ 1,5 bilhão. A empresa opera com um modelo que combina hardware e assinatura mensal, oferecendo um sistema que monitora temperatura corporal, ambiente e padrões de sono, ajustando automaticamente o colchão para maximizar o descanso.

Na prática, sensores instalados no colchão capturam dados durante a noite e utilizam inteligência artificial para regular a temperatura - um dos fatores mais críticos para o sono profundo. A tecnologia também substitui o despertador tradicional por vibrações suaves e ajustes térmicos, tornando o despertar mais natural.

“Estamos apenas começando”, diz ao NeoFeed o CEO da empresa Matteo Franceschetti. “Continuaremos inovando em nossas linhas de produtos, levando a Eight Sleep a milhões de pessoas em novos mercados ao redor do mundo.”

Gigantes como Google, Samsung e Apple também vêm ampliando suas ofertas de saúde, lançando novos dispositivos vestíveis relacionados à saúde e serviços de IA para não dormir no ponto nessa nova era — em que a vantagem competitiva deixou de ser medida em horas extras e passou a ser avaliada em horas bem dormidas.