Nos últimos anos, o Brasil tem assistido a um crescimento consistente no número de recuperações judiciais e extrajudiciais — um fenômeno que vai além de fatores macroeconômicos como juros elevados ou desaceleração da economia. Há, por trás desse movimento, um problema mais silencioso e estrutural: a forma como muitas empresas avaliam sua própria saúde financeira.

Dados públicos indicam que os pedidos de recuperação judicial no Brasil vêm crescendo de forma relevante desde 2023, com milhares de empresas recorrendo ao instrumento anualmente. Em 2025, o volume superou patamares históricos recentes, impulsionado principalmente por companhias de médio e grande portes.

Casos emblemáticos voltaram a chamar atenção do mercado, como as situações envolvendo o GPA e a Raízen, que anunciaram processos de reestruturação em meio a pressões financeiras relevantes.

Embora cada caso tenha suas especificidades, há um denominador comum que merece reflexão: a obsessão pelo Ebitda como principal indicador de desempenho.

O Ebitda, sigla para Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization, não é uma métrica contábil formal. Não aparece nas demonstrações financeiras obrigatórias.

Trata-se de uma construção do mercado, amplamente utilizada para tentar aproximar o resultado operacional da geração de caixa. O problema é que essa aproximação, muitas vezes, é ilusória. O ponto central é simples: Ebitda não é caixa. E empresas não pagam suas contas com Ebitda.

O indicador parte do lucro contábil, que por sua vez é reconhecido no momento da venda e não no momento do recebimento. Em outras palavras, uma empresa pode apresentar crescimento de receita, margem Ebitda robusta e, ainda assim, enfrentar dificuldades financeiras graves se esse resultado não se converter em dinheiro no caixa.

Esse descompasso se manifesta em decisões operacionais críticas que passam despercebidas quando o foco está exclusivamente no Ebitda. Prazos de recebimento mais longos, inadimplência crescente, estoques acumulados e baixa eficiência no capital de giro são fatores que não aparecem com clareza nesse indicador, mas têm impacto direto na liquidez da empresa. É nesse ponto que a deterioração começa de forma silenciosa.

Há uma passagem clássica do livro O sol também se levanta, de Ernest Hemingway, que ilustra bem esse processo. Ao ser questionado sobre como quebrou, um personagem empresário responde: “Primeiro gradualmente, depois de repente”. A lógica é a mesma no mundo corporativo.

As empresas não quebram de um dia para o outro. Elas vão dando sinais: geração de caixa insuficiente, aumento do endividamento, necessidade constante de capital de terceiros para sustentar a operação. Enquanto isso, o Ebitda pode continuar aparentemente saudável, criando uma falsa sensação de segurança.

O problema se agrava em ambientes de juros elevados, como o atual. Com taxas na casa de dois dígitos, o custo da dívida passa a consumir uma parcela significativa do caixa gerado — quando ele existe. Nesse cenário, indicadores como dívida líquida sobre Ebitda, amplamente utilizados pelo mercado, começam a se deteriorar rapidamente.

Historicamente, níveis acima de 2.5 vezes já foram considerados sinais de alerta relevantes. Isso significa, na prática, que a empresa precisaria de dois anos e meio de geração de caixa através das operações (com todos os problemas e limitações do Ebitda), sem considerar investimentos e outras obrigações, apenas para quitar suas dívidas. É um cenário de altíssima fragilidade financeira.

O que se observa hoje é que muitas companhias continuam operando com foco quase exclusivo em métricas de resultado, negligenciando a gestão de caixa. Recebem de um lado e pagam do outro, frequentemente com descasamento de prazos. Em situações mais críticas, passam a usar novas dívidas para cobrir obrigações correntes, alimentando um ciclo que, em determinado momento, se torna insustentável.

Aqui, cabe destacar a importância da demonstração dos fluxos de caixa, demonstração financeira obrigatória desde 2008 no Brasil e que exibe, claramente, em três atividades (operacionais, de investimento e de financiamento), a fonte e o destino do caixa da empresa em determinado período. Esse “momento” é o gatilho. O “de repente” de Hemingway.

Pode ser a quebra de um cliente relevante, uma restrição de crédito, a revisão de um covenant bancário ou até uma mudança regulatória. Quando esse gatilho ocorre, a empresa que já vinha fragilizada entra rapidamente em colapso financeiro, culminando no pedido de recuperação judicial.

O avanço recente das recuperações no Brasil, portanto, não deve ser interpretado apenas como reflexo de um ambiente econômico adverso com taxas de juros estratosféricas. Ele também expõe uma fragilidade na forma como o desempenho empresarial é medido e acompanhado.

Isso não significa que o Ebitda deva ser descartado. Trata-se de um indicador útil para avaliar eficiência operacional e comparar empresas dentro de um mesmo setor. O problema está na sua utilização isolada — ou, pior, na sua elevação à condição de principal bússola da gestão.

*Marcio Berstecher é sócio de auditoria da RSM no Brasil