Foi com cautela que o mercado recebeu o balanço anual da Aegea, divulgado na madrugada de sábado, 11 de abril, após uma sequência de atrasos provocada por uma revisão contábil abrangente nas demonstrações financeiras da companhia.

As principais mudanças envolveram a metodologia de reconhecimento de receita e o cálculo das Perdas de Crédito Esperadas (PECLD), passando a adotar uma abordagem mais conservadora da capacidade de recuperação dos créditos da companhia.

O novo modelo de provisão também introduz uma matriz de perdas baseada no histórico de inadimplência, que considera a evolução da carteira por faixas de atraso. Quanto maior o tempo de vencimento, menor a probabilidade de recuperação. Foi também incorporado o risco de perdas em créditos ainda a vencer, dando maior peso ao histórico de pagamento dos clientes. E renegociações vencidas há mais de 30 dias foram baixadas.

Como resultado, a provisão para Perdas de Crédito Esperadas (PECLD) passou a equivaler a 105% dos créditos vencidos no ecossistema Aegea. Ao fim de 2025, a companhia contabilizava R$ 978 milhões em contas vencidas, sem considerar renegociações. O volume é 65% superior aos números revisados de 2024 e também acima do saldo de créditos adimplentes, de R$ 850 milhões.

Na nova metodologia, o saldo de créditos a receber vencidos seria de R$ 593,55 milhões, abaixo dos R$ 729,47 milhões que a empresa havia reportado no ano passado. Por outro lado, as contas a receber do balanço de 2024 foram reduzidas de R$ 2,48 bilhões para R$ 1,58 bilhão.

A companhia também alterou o modelo de reconhecimento de receita, com o objetivo de aproximar os resultados da geração de caixa. No modelo anterior, a receita era reconhecida após a prestação do serviço, enquanto os valores inadimplentes eram posteriormente registrados como perdas de crédito.

A receita associada a clientes, na nova metodologia, com saldos vencidos há mais de seis meses ou com cadastro incompleto ou desatualizado passa a ser reconhecida apenas após o efetivo pagamento.

No consolidado, a receita líquida proforma revisada de 2024 ficou em R$ 15,16 bilhões, cerca de R$ 1 bilhão abaixo do valor originalmente reportado antes da revisão. Em 2025, a receita líquida proforma somou R$ 18,3 bilhões.

A concessão mais afetada pela revisão foi a Águas do Rio, que, segundo a empresa, ainda “se encontra em processo de amadurecimento e conversão da carteira de clientes”. A Águas do Rio abrange mais de 20 municípios do estado do Rio de Janeiro e mais de 100 bairros da capital fluminense.

O atraso também afetou o resultado da Aegea via equivalência patrimonial, reduzindo a contribuição das coligadas ligadas à Águas do Rio e o valor do investimento registrado no balanço. Em 2025, o faturamento proforma da Aegea com essa concessão cresceu apenas 2%, bem abaixo de 8% da operação.

No mercado, o atraso na divulgação do balanço vinha alimentando desconfiança, com a Fitch e a S&P rebaixando a nota de crédito da companhia. Nas vésperas da divulgação do balanço, na semana passada, as debêntures da Aegea lideraram a abertura de prêmio no mercado de crédito. O AEGP17 foi o papel que mais sofreu, com os spreads abrindo 3,76 pontos percentuais e encerrando a semana em 6,3%.

Hoje, os papéis da companhia se mantiveram relativamente estáveis, com baixa liquidez. “O balanço ajudou a acalmar. Veio bem em linha com o que esperávamos”, diz um analista de crédito sênior de um grande banco.

Entre os fundos com maior exposição à companhia estavam o Vinland XP Fundo Incentivado, o Icatu Vanguarda Iporã e o Polo Crédito Corporativo, que tinham 24,4%, 12,6% e 10,5% de suas carteiras alocadas em títulos da Aegea, respectivamente. Os dados foram levantados pela Credit Guide, com base nas informações mais recentes disponíveis das carteiras dos gestores, referentes a novembro.

Em call com investidores nesta segunda-feira, 13, o CEO Radamés Casseb afirmou que os ajustes foram necessários para aproximar os resultados da geração de caixa e que as mudanças foram apenas contábeis.

“O aumento da inadimplência foi exclusivamente relacionado à mudança de metodologia. Não há um impacto da deterioração genuína das nossas contas a receber quando a gente olha o Rio de Janeiro, na verdade, é uma melhora, e também no ecossistema”, afirma Casseb.

Segundo o CEO, o atraso se deu em razão da complexidade das demonstrações financeiras da empresa, após o forte crescimento da empresa nos últimos anos.

“Saímos, em dezembro de 2020, de 50 cidades para 892 cidades em 2025, de 4 mil colaboradores para 25 mil e de 10 concessões para 65 concessões”, disse. “Refizemos os balanços dos últimos cinco anos de todas as concessões.”

De acordo com o executivo, os ajustes tiveram impacto de cerca de 50 pontos-base na alavancagem. A Aegea encerrou 2025 com dívida líquida proforma de R$ 47,05 bilhões, equivalente a 4,51 vezes o Ebitda. Em 2024, a relação era de 4,13 vezes, já considerando os números revisados.