Roma — Foi no dia 11 de abril, no interior da Basílica de São Pedro, em Roma, que o papa Leão XIV proferiu um de seus discursos mais contundentes. Durante a Vigília de Oração pela Paz, convocada pelo próprio pontífice em meio à escalada dos conflitos armados no mundo, o Santo Padre trouxe uma mensagem direta.
Diante da multidão reunida no templo mais simbólico do catolicismo, ele foi enfático: “Basta com a idolatria de si mesmo e do dinheiro! Basta com a ostentação da força! Basta com a guerra! (...) A Igreja é um grande povo a serviço da reconciliação e da paz, que segue em frente sem hesitar, mesmo quando a rejeição da lógica bélica pode custar incompreensão e desprezo.”
O papa não citou nominalmente Donald Trump, mas sua fala foi interpretada como resposta indireta às críticas da Casa Branca após sua postura em relação às ações militares dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.
A reação em Washington foi imediata. O presidente americano atacou publicamente o pontífice, chamando-o de “fraco” e “desconectado da realidade política internacional”.
Horas depois, já a bordo do voo com destino à Argélia, em uma viagem apostólica por quatro países africanos, Leão XIV comentou a controvérsia com jornalistas:
“Não tenho medo da administração Trump. Eu falo do Evangelho e, por isso, continuarei a falar em voz alta contra a guerra.” E acrescentou: “Não tenho intenção de entrar em um debate com ele”.
O episódio marca uma inflexão neste pontificado, que completa um ano em 8 de maio. Após um período em que era descrito como uma figura discreta e de baixa projeção midiática, Leão XIV passou a ocupar com mais frequência o centro de polêmicas, impulsionado pela firmeza de suas posições e pelo impacto crescente de suas declarações.
Com isso, a ideia de que “o papa é pop” começou a fazer sentido.
A transformação ao longo do último ano é evidente. O conclave foi marcado por grande imprevisibilidade, surpreendendo até os analistas. Inicialmente distante das listas de favoritos e fora das apostas centrais, o nome do cardeal Robert Francis Prevost refletiu a busca por um perfil de consenso em meio às divisões internas da Igreja e à necessidade de reposicionar o Vaticano no cenário global. O fato de ser americano o prejudicava.
"Pé na lama"
É nesse contexto que o vaticanista Filipe Domingues, diretor do Lay Centre e professor da Universidade Gregoriana, em Roma, ajuda a interpretar o momento. “Os cardeais entendiam que Francisco (1936-2025) era muito carismático, que, com um estilo próprio, se impôs sobre a própria figura do líder religioso”, conta ao NeoFeed. “A escolha então deveria recair sobre alguém mais protocolar, que tranquilizasse um pouco as águas que ele agitou.”
Nesse cenário, a biografia de Prevost ganhou força, reunindo elementos considerados decisivos no processo de escolha, como ampla experiência pastoral e atuação fora da Cúria Romana.
Domingues define o ministério petrino como “uma continuidade na diferença: uma Igreja sinodal mais participativa, mas, neste momento, com ênfase na paz”. Foi o que levou o papa a interlocutor global: “Ele já tem autoridade moral reconhecida, mas foi a discussão em nível retórico que o trouxe ao centro das atenções. Ele, porém, não é político. Ele prega o Evangelho”.
Ser americano, neste momento, é um elemento que o transforma em antagonista do principal criador de crises do mundo.
Em livros e análises recentes, vaticanistas retratam Leão XIV como uma figura discreta, mas de forte determinação. Em American Hope, o correspondente da CNN em Roma, Christopher Lamb, o define como “o mais não americano dos americanos”, destacando a imagem de “um leão que sabe quando rugir”, guiado por uma visão de longo prazo no governo da Igreja.
A jornalista Elise Ann Allen, autora da biografia Leão XIV: Cidadão do mundo, missionário do século XXI, também reforça essa leitura. Ela o descreve como “seguro e transparente” e observa que, desde o início, mantém uma postura voltada ao diálogo: “Ele não tem pressa”.
Antes de ser eleito, Leão XIV passou cerca de duas décadas no Peru, com forte atuação missionária, especialmente na região de Chiclayo, onde trabalhou com comunidades em áreas de vulnerabilidade social. Esse período é lembrado como a fase em que “botava o pé na lama” — experiência que ajudou a moldar sua imagem de pastor prático e pouco afeito a formalismos.
A comunidade LGBTQIA+ e as vítimas de assédio
O pontífice assumiu o posto já no meio de um jubileu da Igreja Católica, período de grande simbolismo e intensa circulação de peregrinos em Roma, o que o colocou imediatamente no centro da agenda religiosa global, incluindo a canonização de Carlo Acutis (1991–2006) e Pier Giorgio Frassati (1901–1925).
Entre os momentos de maior visibilidade, sua participação em um concerto de Natal dedicado aos pobres, que reuniu nomes da música internacional como Michael Bublé.
Apesar dos gestos de proximidade com comunidades vulneráveis, setores ligados à comunidade LGBTQIA+ e a grupos mais progressistas observam o momento com cautela, apontando a ausência de sinais mais diretos de abertura institucional.
Outro ponto de atenção é a escuta às vítimas de abuso sexual na Igreja. Embora Leão XIV tenha se reunido com algumas delas e sinalizado disposição ao diálogo, espera-se por medidas mais firmes e punições mais severas do que as adotadas até agora.
No entorno do Vaticano, essas leituras são tratadas com discrição, em um esforço para manter o equilíbrio entre continuidade doutrinária e sensibilidades contemporâneas.
Tênis e piscina
Nos bastidores, o retrato é mais leve e inesperado. Leão XIV passou a viver no Palazzo Apostolico, complexo histórico ao lado da Basílica de São Pedro e sede administrativa da Santa Sé. A mudança ocorreu após reformas estruturais, e relatos indicam que o papa tem adaptado o espaço a uma rotina mais funcional, incluindo a instalação de equipamentos simples para exercícios físicos.
Além do Vaticano, ele também vai ao Castel Gandolfo às terças-feiras, nos arredores de Roma, às margens do Lago Albano, tradicional residência de verão dos pontífices.
Leão XIV é disciplinado com hábitos cotidianos. Gosta de tênis e, em uma ocasião, resumiu sua vida ali com a frase: “Un po’ di tennis, un po’ di piscina” (“Um pouco de tênis, um pouco de piscina”). Ganhou uma raquete do campeão italiano Janik Sinner em sua primeira audiência pública.
Entre compromissos e descanso, mantém interesse por tecnologia, usando o aplicativo Duolingo para praticar idiomas. Tem e-mail e lê reportagens à noite, antes de dormir.
Usa relógio de pulso e, em círculos próximos, já teria mencionado com certa nostalgia o fato de não poder mais dirigir.
Trata-se de uma rotina inevitavelmente enquadrada pelas exigências da função, amplamente documentadas nas redes sociais. São quase 80 milhões de seguidores que compõem a sua audiência.
Mesmo reservado, é um perfil digno de um influencer com um objetivo claro: uma missão de paz que ainda deve se estender por algumas décadas.