Paris — No número 19 da rue Bonaparte, no bairro parisiense de Saint-Germain-des-Prés, uma discreta porta azul leva a uma livraria onde os livros ocupam estantes do chão ao teto. As edições, todas em capa dura, são belíssimas. Impressas em alta qualidade, as páginas revelam algumas das grandes obras da literatura mundial — ilustradas por artistas de renome.

Ali estão, por exemplo, A Divina Comédia, de Dante, com desenhos de Botticelli; Fausto, de Goethe, com obras de Delacroix; O Mercador de Veneza e Otelo, de Shakespeare, sob a perspectiva do Renascimento veneziano; e a seleção de 162 poemas de Emily Dickinson acompanhados por 170 pinturas do Modernismo americano.

Quem busca variedade talvez prefira as lojas vizinhas da Taschen ou da Assouline. No número 19, a escassez é deliberada. O catálogo com 35 títulos funciona quase como uma declaração de princípios da belga Diane de Selliers. Ao fundar a editora homônima, seu objetivo era tão simples quanto radical: publicar apenas um livro por ano.

E, assim, ela transformou um negócio pequeno (e arriscado) em um gigante do prestígio editorial.

Reunindo prêmios dedicados aos livros de arte, a Diane de Selliers é hoje uma das únicas três casas editoriais integrantes do Comitê Colbert. A associação criada em 1954 para promover o art de vivre francês reúne hoje mais de uma centena de marcas e instituições de luxo.

A ser lançado no outono europeu, o livro de 2026 é o Le Sutra du Diamant et ses miracles (O Sutra do Diamante e seus milagres, em tradução livre).

Pela primeira vez, o manuscrito budista do século XV é traduzido para o francês, graças ao trabalho do Institut Diane de Selliers, instituição que viabiliza o financiamento das pesquisas da editora por meio de doações.

Com um ritmo de publicação tão reduzido, a escolha do título anual está longe de ser trivial. As ideias nascem de diversas fontes: conversas com especialistas em arte, encontros com tradutores e viagens feitas por Diane.

É, acima de tudo, uma decisão guiada pela intuição, sustentada pelo conhecimento e pela paixão da editora pelas belas-artes e pela literatura — traços que transparecem em cada uma de suas falas.

“Nosso trunfo é que nossos livros não são apenas livros”, diz ela ao NeoFeed. “São objetos de arte. Quando você os tem em sua biblioteca, é dono de uma coleção de caráter patrimonial.” O preço das edições faz jus ao status que sua dona lhes imprime: entre € 200 e € 300, mas algumas podem chegar a quase € 1 mil.

Estresse financeiro

Em uma indústria tão difícil quanto o mercado editorial, publicar apenas uma obra por ano é viver constantemente sob estresse financeiro — sobretudo se o faturamento anual não chega a € 1 milhão, como é o caso da Diane de Selliers.

Fazer edições caprichadas custa caro: entre € 120 mil e €  150 mil, sem contar o tempo de dedicação a cada projeto. Para uma editora de pequeno porte e tiragens reduzidas, em torno de 3 mil exemplares, é um investimento grande.

"Nossos livros não são apenas livros. São objetos de arte”, diz Diane de Selliers (Foto: Divulgação)

A loja da editora está no elegante Saint-Germain-des-Près, condiderado o bairro dos bairro dos "métiers" literários (Foto: Divulgação)

O livro de 2026 é o manuscrito bustista do século XV "Le Sutra du Diamant et ses miracles" (Foto: institutdianedeselliers.org)

A coleção do épico sânscrito "Le Râmâyana", de Vâlmîki, levou dez anos para ficar pronta (Foto: editionsdianedeselliers.com)

Lançados em 2007, a € 490, os tês volumes do livro "Le Dit du Genji", de Murasaki-Shikibu esgotou em apenas três meses (Foto: editionsdianedeselliers.com)

Sua obra mais ambiciosa, Le Râmâyana, de Vâlmîki, por exemplo, levou cerca de dez anos para ficar pronta. São sete volumes do épico sânscrito, composto entre os séculos V a.C. e I a.C.

As negociações das 660 miniaturas indianas do século XVI que ilustram os livros aconteceram em vários países e envolveram até o marajá de Japuir, conta Diane. A coleção foi lançada em outubro de 2011, a € 950.

O rigor científico, o capricho estético e a ousadia do projeto quase causaram a falência da editora, após um sucesso comercial modesto — os 3 mil exemplares foram vendidos aos longo de vários anos.

Na métrica de Diane, sucesso é quando a uma edição esgota até o lançamento do livro do ano seguinte. Mas há exceções. Le Dit du Genji, de Murasaki-Shikibuteve toda a tiragem adquirida em apenas três meses, apesar de custar € 490.

Escrito no início do século XI e ambientado no Japão medieval, é tido como o primeiro romace psicológico do mundo. Na versão da editora parisiense, a obra ganhou três volumes e 420 pinturas tradicionais japonesas.

Apesar dos desafios, Diane segue firme na decisão de publicar somente um livro por ano. Certa vez, ao pedir um empréstimo ao Centre National du Livre, órgão do Ministério da Cultura da França de apoio a toda a cadeia do livro no país, ouviu da instituição: o financiamento era temerário, mas a Diane de Selliers "não poderia sair da paisagem editorial francesa".

La Petite Collection

Para manter a viabilidade financeira do negócio, Diane adotou uma série de estratégias.

A começar pela época do lançamento do título do ano. “Sempre no outono [europeu], porque é a época dos presentes, quando todo mundo fala em livros de arte”, explica.

Além disso, a equipe é muito enxuta. São três pessoas, coordenadas por Josephine Barbereau — há 20 anos na editora, ela começou como estagiária e hoje é a CEO. Traduções e fotografias são feitas por profissionais independentes.

Apesar de localizada em uma das regiões mais nobres de Paris, o aluguel é reduzido graças a uma política municipal que tem por objetivo manter as livrarias e editoras em Saint-Germain, considerado o bairro dos métiers literários. Há 15 anos, Diane está na rue Bonaparte.

A empresa mantém-se como uma editora de nicho, que precisa se planejar a longo prazo para garantir sua sobrevivência até a próxima publicação. Em 2007, também como uma tática comercial, Diane lançou a La Petite Collection, a linha mais acessível e compacta da coleção principal.

Com tiragens mais amplas, cada exemplar custa ao redor de € 60. Os 35 títulos do catálogo atual incluem também os livros da coleção menor.

Se na pequena os títulos são repostos sempre que acabam, na grande, se acabar, acabou. Aí restam apenas as plataformas de colecionadores, onde um livro da Diane de Selliers pode chegar a alguns milhares de euros.

Depois de explorar a literatura e a arte da Europa, do Oriente Médio, do Extremo Oriente e de ter se aventurado um pouco pela América do Norte e pela África, Diane pensa em fazer algo sobre a América Latina. Mas, por enquanto, nenhuma obra a inspirou.

Habituada a vir ao Rio de Janeiro onde tem família, ela se interessa pelo Brasil e gostaria de editar um livro dedicado à mistura étnica do país.