O universo da corrida está em um novo patamar desde o domingo, 26 de abril. Em Londres, o queniano Sabastian Sawe, de 31 anos, cruzou a linha de chegada da maratona em 1h59min30s, quebrando uma das principais barreiras do esporte.
Em uma das World Marathon Majors, o circuito mais prestigiado de corridas de longa distância, o homem provou que a combinação da fisiologia do exercício e da medicina esportiva, do monitoramento de dados, da tecnologia dos equipamentos e do treinamento de qualidade são capazes de levar o atleta ao que parecia impossível.
“Quando tudo converge - preparação exaustiva, planejamento, execução impecável e condições ambientais favoráveis - surge um dia perfeito”, diz o médico fisiologista Paulo Zogaib, ao NeoFeed.
Zogaib acompanha essa evolução do homem com o esporte há mais de 35 anos. Ele é o fundador do Centro de Medicina da Atividade Física e do Esporte (Cemafe/Unifesp) e médico do esporte do Núcleo de Medicina do Esporte do Hospital Sírio-Libanês.
“Todos os estudos que tentaram prever um limite do desempenho humano erraram. Esse teto fisiológico tem margem para cair”, diz ele, que coordena desde 1985 o Departamento de Medicina Esportiva do Esporte Clube Pinheiros, um dos principais centros de desenvolvimento de atletas olímpicos do Brasil.
Correr 42.195 metros abaixo de 2 horas era uma obsessão dos corredores de longa distância. Em 2017, a Nike organizou a primeira tentativa. No autódromo de Monza, na Itália, o projeto "Breaking2" criava as condições ideais para o também queniano Eliud Kipchoge, de 32 anos. Mas ela ficou no quase: 2h00min25s.
Dois anos mais tarde, a multinacional petroquímica INEOS, em parceria com a Nike, financiou o projeto “1:59”. As ruas de Viena foram fechadas na melhor época climática, com pacers (corredores que marcam o ritmo) rotativos para não deixar o corredor fugir do seu objetivo, e um tênis altamente tecnológico com placa de carbono.
Nesse ambiente altamente controlado, Kipchoge se tornou o primeiro ser humano na história a correr uma maratona em menos de duas horas (1h59min40s). Mas, em razão de tudo o que envolveu o desafio, o tempo dele foi considerado simbólico e seu nome não consta como recordista mundial.
“Muitas vezes, o limite é inconsciente. Quando o atleta percebe que algo é possível, ele redefine seus objetivos. Aquilo que parecia inalcançável passa a ser uma meta real”, afirma Zogaib.
Passados sete anos, Sawe, defendendo o bicampeonato na Maratona de Londres, provou que era possível completar uma corrida de verdade com o ritmo de 2min50s por quilômetro e deixar para trás o que havia sido feito em laboratório e em uma pista controlada.
Tão impressionante quanto o desempenho do campeão da prova foi o tempo do segundo colocado: o etíope Yomif Kejelcha cruzou a linha de chegada em 1h59min41s - ambos calçavam um “super tênis” Adidas de menos de 100 gramas.
“A tecnologia contribui, mas ela é parte de um conjunto muito maior”, afirma o fisiologista do EC Pinheiros e do Hospital Sírio-Libanês.
Acompanhe, a seguir, os principais trechos da entrevista:
Por que aconteceu essa quebra da barreira das duas horas na maratona?
É uma conjunção de fatores. Você tem, evidentemente, um atleta de alto nível, geneticamente favorecido. Ele vive em uma região propícia para esse tipo de treinamento, com uma cultura voltada para isso. Talvez seja parecido com o futebol aqui no Brasil: uma pessoa de baixa renda que enxerga naquilo uma forma de sobreviver e ganhar dinheiro. Isso gera um estímulo muito maior do que alguém que pratica esporte apenas por lazer. Há também a dedicação, que é muito mais intensa. Soma-se a isso toda a parte de treinamento e tecnologia. E tudo isso converge para uma condição ideal no dia da prova.
Em que sentido?
O percurso da Maratona de Londres é um dos mais planos que existem. O horário da prova também é favorável. A temperatura e a umidade do ar estavam ideais. Para maratonas, preferimos temperaturas mais baixas, ao contrário das provas de velocidade. O [jamaicano Usain] Bolt, por exemplo, bateu recordes com temperaturas próximas de 30 graus. Já as provas de fundo são melhores no frio, porque o corpo consegue dissipar melhor o calor. Além disso, havia outros atletas em excelente forma. O segundo colocado também correu abaixo de duas horas, e o terceiro chegou muito perto. Eles acabaram puxando o ritmo entre si.
Dá para dizer que foi o “dia perfeito”?
Essa combinação de fatores levou aquele atleta, naquele momento, a um feito extraordinário. Sempre que ocorre algo fora da curva, há componentes adicionais. Quando o Bolt correu 9s58, por exemplo, todas as condições eram perfeitas: pista, temperatura, vento e adversários. Claro que antes disso houve um trabalho exaustivo, um treinamento extremamente bem planejado. Mas mesmo com tudo isso, se as condições forem ruins, o resultado não vem. Então, você soma todos esses fatores - físicos, ambientais e até circunstanciais - e isso acontece naquele exato momento.
"Todos os estudos que tentaram prever um limite do desempenho humano erraram. Sempre aparece alguém combinando fisiologia, biomecânica e outros fatores, e esses estudos acabam sendo superados"
Do ponto de vista fisiológico, o que exatamente torna a barreira das 2 horas tão simbólica e tão difícil?
Todos os estudos que tentaram prever um limite do desempenho humano erraram. Sempre aparece alguém combinando fisiologia, biomecânica e outros fatores para dizer que não é possível correr uma maratona abaixo de duas horas, e esses estudos acabam sendo superados. Tudo evolui. Hoje temos formas muito mais precisas de monitorar o treinamento e individualizar cargas.
Existe um "teto" fisiológico para a maratona ou, na sua visão, ainda há margem para esse tempo cair?
Quando você trabalha com muitos atletas, a base recebe um treinamento mais geral. No Clube Pinheiros, são 3 mil atletas em desenvolvimento, que recebem uma carga de treinamento e criar lastro de condicionamento. Ele melhora a capacidade aeróbica, a força, a resistência, coordena melhor os movimentos, aprende a técnica. Mas desses, cerca de 200 são fora da curva e estão em outro nível. Para esses, do topo, tudo vira detalhe. É detalhe no dia a dia e individualizado. Se o atleta não está bem, não adianta seguir a planilha rigidamente. Hoje, com frequencímetros, GPS e análise de dados, o treinamento é muito mais preciso. Soma-se a isso nutrição, suplementação e equipamentos. É muito melhor quantificado. Por isso, essas previsões acabam sendo derrubadas. Esse teto fisiológico tem margem para cair.
Kipchoge disse após a prova que "estamos apenas no começo do que é possível". Quando uma barreira é quebrada, isso muda o patamar dos outros atletas?
Sim. Quando você quebra algumas barreiras no esporte, outros atletas passam a enxergar aquilo como possível. Isso eleva o nível geral. Na ginástica, por exemplo, certos movimentos pareciam impossíveis. Depois que alguém realiza, outros passam a repetir. Nunca se pensou que uma mulher fosse dar um salto triplo e talvez até a Daiane [dos Santos] tenha sido uma dessas precursoras. Outras atletas vão imitar, como a Simone Biles e a Rebeca [Andrade]. Há também a evolução tecnológica. O tablado da ginástica era fixo e hoje tem molas, o que melhora o desempenho e reduz lesões.
Para o alto desempenho, menos lesões significam mais performance?
A absorção de impacto e o controle de carga reduzem as lesões. No esporte de alto rendimento, a diferença está no longo prazo e na repetição. A continuidade do treinamento é essencial. Uma lesão no meio desse caminho faz o processo voltar para trás e será preciso pegar um novo ritmo. É o que está acontecendo com o Neymar hoje em dia. Quando você tem quebras de ritmo, com lesões seguidas, é muito difícil voltar ao seu nível de excelência. Lesões interrompem o processo e fazem o atleta regredir, tanto fisicamente como mentalmente.
O cérebro é conhecido por "mentir" para o corpo antes do corpo realmente chegar ao limite. Qual é o papel da mente nesse tipo de desempenho extremo?
A mente tem um papel fundamental. Muitas vezes, o limite é inconsciente. Quando o atleta percebe que algo é possível, ele redefine seus objetivos. Aquilo que parecia inalcançável passa a ser uma meta real. Esse ajuste mental muda completamente o patamar de desempenho.
"O ritmo da maratona é baseado em uma intensidade sustentável, próxima ao limiar anaeróbio. Um corredor comum treina a cerca de 70% a 75% da capacidade máxima. Atletas de elite chegam a 85% ou até 90%
Os chamados "supertênis", com placas de carbono e espumas avançadas, são parte da história desse recorde. Qual é o papel da tecnologia nessa conquista? Tem impacto real?
Faz diferença. Essas placas funcionam como molas. A cada passada, há um pequeno ganho. Isoladamente, esse ganho é pequeno, mas ao longo de milhares de passadas em uma maratona, o impacto se torna significativo. Então, a tecnologia contribui, mas ela é parte de um conjunto muito maior.
Uma imagem que circulou bastante foi a foto do relógio do Sawe marcando um pace de 2min50s/km nos últimos quilômetros da maratona, ou seja, mais de 23 km/h. O que acontece no corpo humano nessa intensidade?
Programamos uma maratona ou qualquer prova de fundo baseado na intensidade que aquele indivíduo consegue manter por longa duração. Ou seja, o ritmo da maratona é baseado em uma intensidade sustentável, próxima ao limiar anaeróbio. Essa intensidade é uma porcentagem da sua capacidade máxima, do seu VO2 máximo. Um corredor comum treina a cerca de 70% a 75% da capacidade máxima. Atletas de elite chegam a 85% ou até 90%. O desempenho depende de três sistemas: respiratório, cardiovascular e muscular. O oxigênio é captado, transportado e utilizado nas células musculares para gerar energia. Ao mesmo tempo, há produção de substâncias como o ácido lático. O treinamento permite produzir muita energia e eliminar rapidamente esse ácido, evitando a queda de desempenho. Além disso, fatores como hidratação, temperatura corporal e equilíbrio metabólico são fundamentais. Se qualquer um deles falha, a capacidade de produção de energia diminui.
A genética explica o domínio de africanos nas provas de longa distância?
Existe influência genética, sim. O Abebe Bikila [etíope, o primeiro homem a vencer duas maratonas olímpicas e o primeiro negro africano a conquistar uma medalha de ouro na Olimpíada de Roma, 1960] corria descalço. Há uma tradição histórica e também condições ambientais favoráveis, como viver em altitude moderada, o que estimula a produção de glóbulos vermelhos. A grande maioria das cidades está entre 1,8 mil e 2 mil metros de altitude e não no nível do mar. Isso melhora o transporte de oxigênio. Mas há também treinamento, adaptação e outros fatores envolvidos.
"O amador precisa entender que não é só o tênis que vai resolver o problema. O equipamento ajuda, mas é um detalhezinho pequeno. O essencial é o condicionamento"
Para o atleta amador, quais lições podem ser tiradas desse feito para alguém que busca simplesmente bater seu próprio tempo?
O amador precisa entender que não é só o tênis que vai resolver o problema. O equipamento ajuda, mas é um detalhezinho pequeno. O essencial é o condicionamento. Se você não treinar, nada muda. Outro ponto importante, que eu sempre reforço, é adaptar a atividade ao indivíduo, e não o contrário. É espetacular o clima de uma assessoria de corrida, a parte social, aquela história de um puxa o outro, vão todos em busca de correr a Maratona de Boston, mas em treinos coletivos nem todos estão na intensidade ideal. Não há dúvida que se 10 pessoas saírem correndo no mesmo ritmo e fizerem o mesmo treino, muitos vão estar fazendo um treino aquém do que poderiam e muitos vão estar fazendo um treino além do que poderiam e deveriam. Para quem busca desempenho, a individualização é fundamental.