A Sequoia Logística anunciou nesta quarta-feira, 22 de abril,  a venda de seu mega sorter para o Mercado Livre por R$ 40 milhões, em uma transação que consolida a já esperada saída da companhia do segmento de e-commerce (B2C). O contrato de aluguel do galpão de São Bernardo em que o equipamento está instalado também foi transferido para o marketplace.

O sorter, um sistema automatizado de triagem de encomendas por esteiras, havia sido incorporado à operação após a fusão com a Move3, em 2024, com capacidade para processar até 32 mil pacotes por hora. Na prática, porém, operava entre 30% e 40% desse volume, tornando-se um ativo ocioso e gerador de prejuízo.

A vertente, segundo a companhia, vinha consumindo R$ 2,5 milhões por mês em caixa, considerando os gastos com manutenção, aluguel do galpão e mão de obra.

“Tínhamos cerca de 260 colaboradores dentro dessa operação. Fizemos um plano de desligamento para essas pessoas. Algumas, indicamos para o Mercado Livre. É uma área demandante, com outras empresas também interessadas em absorver essa mão de obra”, diz Leopoldo Bruggen, CEO da Sequoia, ao NeoFeed.

O equipamento foi projetado na China e, segundo Bruggen, só faria sentido se houvesse escala suficiente. “Mas, da pandemia em diante, houve uma ruptura no setor de e-commerce, com os maiores marketplaces passando a dominar sua própria logística. As empresas independentes que vinham investindo em sua própria infraestrutura foram pegas no contrapé”, admite.

“A Move3 era uma empresa focada na entrega de pequenos pacotes e que tinha também um sorter que, naquele momento, parecia ser muito interessante”, recorda Bruno Gomes, sócio e head da vertical de Distressed & Special Situations da JiveMauá. A gestora é a principal acionista da Sequoia desde 2023, após converter parte da dívida da empresa em ações, com cerca de 90% de participação.

Leopoldo Bruggen, CEO da Seqouia

Mas, com a verticalização da logística do e-commerce, Gomes afirma que foi necessário “pivotar” a reestruturação da empresa, que segue em recuperação extrajudicial. “Como gestora, temos essa capacidade de se adaptar e mudar a estratégia, quando o cenário se altera de forma significativa.”

Sem a operação do mega sorter, a Sequoia planeja manter uma operação “asset light”, focada em vertentes que demandam baixa infraestrutura fixa e receita previsível. O foco será na entrega de produtos bancários, como cartões e maquininhas, liderada pela marca Flash Courier.

A nova Sequoia

“Queremos ser a logística de preferência dos grandes bancos e das fintechs brasileiras. Eu diria que essa é a nossa missão”, diz Leopoldo Bruggen. Segundo o CEO, a Flash Courier já é líder desse mercado, com cerca de 70% de market share.

Bruggen espera aumentar ainda mais essa fatia de mercado, agora que a companhia obteve a certidão negativa de débito (CND), após concluir as negociações com a Procuradoria Geral da República para o pagamento de dívidas federais.

“Agora, podemos entrar em processos de concorrência em que o CND era exigido. Eu gostaria muito de entrar na logística de bancos públicos, por exemplo. Hoje, ela é dominada pelos Correios. Mas somos mais eficientes e mais baratos que os Correios.”

Segundo o CEO, a operação de pequenos pacotes — concentrada na entrega de cartões e maquininhas — já respondia pela maior parte da receita e do resultado, sendo também a vertical mais rentável do grupo.

No balanço do terceiro trimestre, o mais recente divulgado pela companhia, a Flash Courier foi responsável por mais de 80% da receita, de R$ 152,4 milhões. Dada a queda do B2C, o faturamento foi 30% inferior ao registrado no mesmo período do ano passado. Mas Bruggen afirma que essa não é a maior preocupação da empresa.

“O mercado tem que parar de perguntar sobre receita, porque tem empresas faturando bilhões e tendo déficit de caixa. Não quero dar ganho de receita, quero gerar caixa.”

A Sequoia não abriu a margem exata da Flash Courier, mas um dos covenants da dívida obriga a companhia a manter 25% de margem bruta ou mais na unidade de cartões e apenas 11% no resultado consolidado.

Apesar do maior uso de cartões digitais ser um risco para o negócio, a avaliação do grupo é de que a demanda pelo cartão físico não deverá cair significativamente no curto prazo.

“O cartão físico não concorre com o digital. São complementares. Há a bancarização das classes C e D, que não tinha acesso a cartões de crédito, e o crescimento de fintechs que veem o cartão como um importante instrumento de marketing”, diz o CEO. “Também temos tido um volume muito grande de entregas de maquininhas em todo o Brasil e, para nós, é um mercado interessante porque entra na mesma malha de entrega de cartões.”

Nessa operação, a Sequoia tem maior previsibilidade de receita, dados os contratos de serviço já firmados com instituições financeiras, sem a necessidade de uma grande infraestrutura, como a que mantinha no B2C.

Na prática, os cartões e maquininhas são separados por destinatário em centros de triagem e, a partir daí, roteirizados para entrega final. Essa última etapa é feita por parceiros terceirizados, mas sob gestão e monitoramento da própria Sequoia, com rastreamento em tempo real e compartilhamento de informações com os clientes.

Bruno Gomes, head da JiveMauá

Outra frente que ganha mais espaço com a saída do B2C é a de entregas dedicadas, conhecida como full truck load. Nesse modelo, a companhia transporta cargas fechadas para um único cliente, com origem e destino definidos, sem necessidade de consolidação com outros pedidos ao longo do trajeto. “É um negócio rentável e de risco baixo, porque, com carga cheia ou não, o valor a receber é basicamente o mesmo”, diz Bruggen.

Nessa operação, a companhia também consegue ter maior controle de gastos, dado que as despesas são previstas somente após a contratação do serviço. “Diferentemente do B2C, onde se antecipava o custo para buscar a receita, aqui a receita e o custo estão muito alinhados. Então, dificilmente, o B2B terá uma operação deficitária”, explica Gomes, da JiveMauá.

Para Gomes, a geração de caixa será a única forma de a Sequoia conseguir se reerguer e ganhar a atratividade necessária na bolsa para a gestora sair do investimento com lucro. Desde 2023, quando a JiveMauá comprou participação relevante na empresa, os papéis da companhia caíram mais de 99%, cotados a R$ 0,17, mesmo após grupamentos de ações. Atualmente, a Sequoia vale R$ 1 bilhão, menos de um terço dos cerca de 3,5 bilhões que chegou a valer no auge de 2021.

“Desde que fizemos o investimento, sempre buscamos a restauração financeira e ter uma saída via equity. Mas, ao longo do tempo, precisamos nos adaptar um pouco ao que aconteceu com a empresa e com o mercado.”

Com a missão de tocar o dia a dia da empresa desde que saiu do cargo de CFO e assumiu como CEO da Sequoia, no fim de 2025, Bruggen vê a saída do B2C como um marco nas finanças da companhia.

“Não queremos e não podemos trabalhar com segmentos deficitários. Então, voltamos nosso foco em segmentos em que já somos líderes de mercado, temos boas margens e queremos crescer”, afirma o CEO.