É com algum otimismo que o mercado vê a tentativa da Squadra de entrar no conselho de administração da Hapvida. No início de abril, a gestora fluminense indicou três nomes para disputar assentos no board, que será definido na assembleia geral marcada para quinta-feira, 30 de abril.

No plano original dos controladores, a votação ocorreria por chapa, com a reeleição dos nove membros atuais do conselho de administração.  “Vemos com muito bons olhos esse movimento. É bom para a empresa e para o acionista. Temos uma posição pequena na Hapvida, mas estamos avaliando participar da AGE para apoiar os indicados pela Squadra”, disse um gestor de ações do Rio de Janeiro.

Os nomes indicados pela Squadra foram Tania Sztamfater Chocolat, Bruno Magalhães e Silva e Eduardo Parente Menezes. Com apenas 5,15% de capital na Hapvida, a possibilidade de eleição por voto múltiplo e o apoio de outros minoritários devem ser cruciais para a Squadra fazer frente às indicações do bloco de controle, que vem se fortalecendo às vésperas da AGE.

Nas últimas semanas, a família controladora ampliou sua participação na companhia por meio de aluguel de ações, aumentando seu poder político para a AGE sem se expor a uma eventual queda de preços, já que as ações deverão ser devolvidas.

Até o início de sexta-feira, 24 de abril, os controladores haviam alcançado 58,62% do capital (excluindo as ações em tesouraria). Da participação total agregada, cerca de 14% vem de instrumentos derivativos e outros 14% de aluguel de ações.

A corrida para ganhar força antes da AGE também tem influenciado diretamente nas negociações do papel da Hapvida na bolsa. Nesta sexta, as ações da empresa tiveram 5,94% de alta, acumulando 15% de valorização na semana e quase 40%, no mês. Já o volume negociado chegou a R$ 195 milhões, segundo dados da Elos Ayta, 61% superior à média registrada no primeiro trimestre.

“Sabemos que os controladores têm aumentado de posição, devido aos comunicados públicos da empresa. Mas qualquer um que queira ter mais poder de voto na AGE pode estar pressionando as compras na bolsa e aumentando os aluguéis de ações”, disse outro gestor de ações, que há anos acompanha de perto o mercado de saúde. Ele, no entanto, afirma que tem mantido distância das ações, ao menos por enquanto. “Já me machuquei muito.”

Para este gestor, mesmo com o apoio de minoritários, muito dificilmente a Squadra conseguirá emplacar os três conselheiros, mas que a entrada de apenas um deles já seria uma sinalização positiva. “Um conselheiro já é suficiente para começar a incomodar e elevar o nível de cobrança. Dois seria melhor e três, ótimo."

Entre os indicados pela Squadra, afirma essa fonte, Eduardo Parente é o nome que mais poderia fazer diferença no conselho. Na avaliação dele, Parente tem experiência executiva relevante, com passagem por companhias como a Yduqs e atuação em conselhos, o que lhe daria maior capacidade de diálogo e influência dentro do board.

Críticas da Squadra

Além das indicações, a Squadra fez duras críticas à condução dos negócios, apontando problemas de governança, alocação de capital e execução.

Na avaliação da Squadra, a proposta da administração apresentava potenciais conflitos de interesse entre os indicados, citando o caso de um candidato classificado como independente que presta consultoria remunerada à companhia.

A Squadra também criticou a remuneração proposta para o board, de cerca de R$ 57 milhões em 2026, considerada elevada, além dos pacotes pagos nos últimos anos ao CEO Jorge Pinheiro, membro da família controladora.

Jorge Pinheiro, no entanto, informou recentemente que deixará o comando da companhia, em meio a um movimento de reestruturação da gestão. A Hapvida indicou uma nova diretoria para assumir a operação, com Luccas Adib como CEO, além de mudanças em áreas-chave como finanças, estratégia, tecnologia e experiência do cliente.

“A saída de Jorge Pinheiro e a indicação da nova diretoria já é um movimento positivo, independentemente da Squadra”, disse o gestor.

No mercado, um dos principais rancores foi promessas não cumpridas de melhora do desempenho operacional da companhia ao longo dos últimos anos. “É uma companhia que machucou muito os minoritários. Então, não gosto dos donos”, disse outro gestor de ações.

Apesar da forte alta da Hapvida neste mês, as ações da companhia ainda acumulam queda superior a 90% em relação a cinco anos atrás, quando a empresa chegou a valer mais de R$ 70 milhões.

No último ano, o lucro líquido ajustado caiu 32,3% para R$ 1,23 bilhão. Sem os ajustes contábeis, a companhia teria encerrado 2025 com prejuízo líquido de R$ 237 milhões. No quarto trimestre, sua margem Ebitda foi de 9%, 5,2 pontos percentuais abaixo do registrado no mesmo período de 2024.

Na B3, a ação HAPV3 está em queda de 3,2% no ano. Em 12 meses, o papel cai 61,5%. O valor de mercado da companhia é de R$ 7,1 bilhões.