A dois dias de sua tão aguardada abertura de capital na Nasdaq, a SpaceX está sob todos os holofotes. E não é para menos. A expectativa é de que, ao tocar o sino na bolsa de valores americana, a empresa de Elon Musk crave o maior IPO de todos os tempos.

Em números, esse marco se traduz na expectativa de captar até US$ 75 bilhões e alcançar um valuation de cerca de US$ 1,75 trilhão em sua oferta pública inicial. O que colocaria a companhia, inclusive, à frente da Tesla, outro negócio de Musk, avaliada atualmente em US$ 1,43 trilhão.

As cifras saltam aos olhos. Mas, à parte dos prováveis recordes, há quem faça uma análise mais pragmática das oportunidades e riscos em uma oferta dessa magnitude. É o caso de Thiago Kapulskis, sócio da São Pedro Capital, um dos principais analisas de tecnologia do Brasil e que enxergou a tese de IA da Nvidia antes da maioria dos especialsitas.

“A primeira questão é o próprio Musk. Do ponto de vista mais frio possível, ele é brilhante. Ele conseguiu, por exemplo, fazer um foguete dar ré”, diz Kapulskis, ao NeoFeed. “Então, o principal fator é o brilhantismo dele. O que é bom e ruim para a SpaceX.”

Nessa direção, ele faz referência ao chamado key man risk. “Se alguma coisa acontecer com o Musk, como fica a SpaceX? Então, ele é a maior vantagem competitiva, mas também, o maior risco da empresa.”

Kapulskis também estabelece outros contrapontos nesse roteiro. De um lado, ele ressalta que a história contada pela empresa, com episódios como o plano de desenvolver colônias em Marte e fábricas na lua, é, de fato, instigante.

Entretanto, ele faz ressalvas a outros possíveis capítulos dessa trama. Entre eles, as projeções de mercado com estimativas de que a SpaceX salte de uma receita de US$ 18,7 bilhões, em 2025, para aproximadamente US$ 500 bilhões, em cinco anos.

Thiago Kapulskis, sócio da São Pedro Capital
Thiago Kapulskis, sócio da São Pedro Capital

“Hoje, entre as big techs, a única companhia com receita maior do que essa projeção é a Amazon”, afirm ele. “E a Amazon levou 14 anos para sair de uma receita de US$ 18 bilhões para US$ 500 bilhões”.

Na conversa, Kapulskis fala ainda de outros temas que estão impulsionando a oferta, bem como de tópicos que devem estar no radar dos investidores. Confira:

O que mais chama sua atenção nessa oferta da SpaceX?
Talvez seja a magnitude como um todo. Estamos lidando com a maior oferta da história, a possibilidade de o Elon Musk se tornar o primeiro trilionário do mundo e com a primeira empresa de tecnologia que viria, já no valuation do IPO, acima de US$ 1 trilhão. Quando a gente olha para o todo, é quase um fascínio.

Mas, na sua avaliação, o que explica esse interesse expressivo pelo IPO?
A primeira questão é o próprio Musk. Do ponto de vista mais frio possível, ele é brilhante. Ele conseguiu, por exemplo, fazer um foguete dar ré. E foi pioneiro em carros elétricos, com a Tesla, entre outras questões. Então, o principal fator é o brilhantismo dele. O que é bom e ruim para a SpaceX.

Por quê?
Porque isso cria, ao mesmo tempo, o fator key man risk. Se alguma coisa acontecer com o Musk, como fica a SpaceX? Então, ele é a maior vantagem competitiva, mas também o maior risco da empresa.

Nesse balanço, tomando como exemplo a Tesla, você entende que há uma paciência maior com Musk no que diz respeito ao que ele promete e, de fato, entrega?
O caso do Musk é muito particular. Ele criou, de certa forma, uma idolatria, assim como outros personagens, como Steve Jobs. Tem também muito de marketing nessa história. Então, ele tem muitos apoiadores que, no limite, vão lhe dar o benefício da dúvida.

"O principal fator é o brilhantismo do Musk. O que é bom e ruim para a SpaceX"

Quais outros componentes estão por trás desse frenesi em torno da oferta?
Um segundo ponto é a narrativa. A história é incrível para ser contada. Estão falando em ter uma colônia em Marte, de economia lunar, de fábricas na Lua e tudo mais. Então, existe um espaço para imaginação que aguça todo mundo, inclusive os investidores do varejo. Mas há outra questão quando vamos para o mundo dos investidores institucionais.

Qual?
A Nasdaq decidiu instituir uma entrada acelerada no Nasdaq 100 (para atrair IPOs de empresas como a SpaceX). E isso nos leva aos ETFs e a muitos gestores que, tecnicamente, seguem um índice parecido ou têm que estar, necessariamente, over ou under. Então, todos eles vão ser inclinados a tentar acompanhar ou bater aquele índice. E esse é um efeito que pode levar a uma alocação quase que independente dos fundamentos da empresa.

Quem pode ser mais afetado nesse contexto?
Onde nós percebemos mais pressão é nas big techs, porque são empresas que já são as mais líquidas e fáceis de negociar. Então, tem um efeito técnico de competição por capital aqui. Essas companhias vão ter que ceder espaço não só para a SpaceX, como eventualmente, para empresas como OpenAI e Anthropic.

Existem outros fatores impulsionando essa listagem?
Há um outro ponto. A indústria de venture capital, em particular, nos EUA, ficou bastante dependente não só da SpaceX, mas de companhias como que captaram dezenas ou centenas de bilhões de dólares em seus últimos rounds, como as próprias OpenAI e Anthropic. Então, por conta dessa dependência, há um viés aqui de, no fim do dia, contar a parte boa dessas histórias, criar muitos conteúdos e narrativas.

A abertura de capital da SpaceX pode ser decisiva para os IPOs da OpenAI e da Anthropic?
O sucesso do IPO da SpaceX deveria favorecer o sucesso desses outros IPOs. Se ele não der certo, atrasa os planos dessas outras companhias e cria um nervosismo no mercado de venture capital.

No saldo entre todos esses fatores, as cifras envolvidas nesse IPO se justificam?
Para esse valuation se justificar, é preciso colocar estimativas bastante agressivas. Há projeções de um banco americano que falam em uma receita de cerca de US$ 500 bilhões em cinco anos. Sendo que a SpaceX fez US$ 18,7 bilhões em receita em 2025. Então, a empresa vai ter que multiplicar sua receita em muitas vezes e, mais do que isso, numa velocidade muito grande.

"Com a quantidade de narrativas e jargões interessantes, é muito fácil ficar deslumbrado e desviar a atenção das variáveis que são as mais importantes para a decisão de investimento correta"

Há algum paralelo dessa magnitude no mercado de tecnologia?
Entre as big techs, hoje, a única companhia com receita maior do que essa projeção é a Amazon. E a Amazon levou 14 anos para sair de uma receita de US$ 18 bilhões para US$ 500 bilhões. E, além desse ponto, há também uma questão de conquistas da SpaceX baseada em frentes que ainda não existem.

Quais, por exemplo?
Está embutido nas expectativas gerais do mercado de que essa companhia vai ter data centers no espaço e não apenas um, mas uma capacidade significativa de data centers. Também se espera um sucesso das iniciativas de inteligência artificial e nós sabemos que há um cenário competitivo bastante acirrado com a Anthropic e a OpenAI. Então, obviamente, a decisão é do investidor. Mas a assimetria, sem dúvida, não é favorável. O que não quer dizer que eles não sejam capazes de entregar isso.

Você entende que esse cenário se estende a outros IPOs de tecnologia além da SpaceX?
O que estamos vendo cada vez mais são ondas de sobreposição de tecnologia, que permitem IPOs como o da SpaceX e, eventualmente, da OpenAI e da Anthropic. E esses efeitos vão criando possibilidades de retornos exponenciais. O que, ao mesmo tempo, traz um grau de complexidade muito grande.

Como gestor, qual conselho você daria aos investidores nesse contexto?
Eu acredito muito na especialização e na profundidade como ferramentas de diferenciação na avaliação desses investimentos. Com a quantidade de narrativas e jargões interessantes, é muito fácil ficar deslumbrado e desviar a atenção das variáveis que são as mais importantes para a decisão de investimento correta. Então, é fazer a diligência adequada. É preciso separar grande feitos de construção de negócio do investimento. As boas histórias não são, necessariamente, um investimento excelente.