Nova York - O Itaú BBA reuniu fundadores de empresas latino‑americanas em diferentes estágios de internacionalização para falar sobre como transformar tração local em escala global - sem perder foco no produto, na execução e no cliente.

Os debates cruzaram temas recorrentes do ecossistema, como momento certo para expandir, papel dos investidores, playbooks operacionais, talento e a vantagem competitiva de quem nasce em mercados complexos.

Houve um senso comum: ir para o exterior é uma decisão de produto e maturidade, e não um objetivo automático. “Quando decidimos ir para o exterior, já éramos número um no Brasil. Só então começamos a explorar México, Colômbia e Chile”, disse Alejandro Vazquez, cofundador da Nuvemshop (Tiendanube para o resto da América Latina)

Outro ponto importante foi a demonstração de que investidores são alavanca e não substitutos da execução. E que operar em ambientes complexos (Brasil, México, Argentina) cria “musculatura” e capacidade de resolver logística, tributação e pagamentos em cenários adversos.

Leia, a seguir, algumas pílulas do evento.

O unicórnio por “cinco minutos”

Há poucos dias, a Enter se tornou o primeiro unicórnio de inteligência artificial da América Latina. A legaltech brasileira fundada em 2023 levantou US$ 100 milhões em uma série B e passou a ser avaliada em US$ 1,2 bilhão.

O Founders Fund liderou a operação, que também contou com a participação de Sequoia Capital, Kaszek, ONEVC entre outros venture capitals.

Mateus Costa-Ribeiro, CEO e fundador da Enter, contou que foram apenas cinco minutos de comemoração porque o objetivo não era ter o “status”.

“Tem muito unicórnio que não chegou em lugar nenhum. As empresas que realmente admiramos são empresas de capital aberto de longa data que entregam resutlado”, disse ele.

“Tornar‑nos um unicórnio foi um passo, mas o objetivo é entregar valor real. Nós apostamos que o Brasil poderia produzir a terceira empresa de IA jurídica mais valiosa do mundo”, complementou.

Quebra de protocolo e doação

No painel “Investimento social: da doação ao retorno”, Diego Barreto, CEO do iFood, que estava ao lado de Tatiana Alonso, CEO internacional da Gerando Falcões, quebrou o protocolo e chamou Felipe Whitaker, líder de wealth management com foco em ativos digitais do Mercado Bitcoin.

A ideia era explicar como a solução de tokenização viabilizou a transferência de recursos para o projeto Favela 3D, um programa é uma tecnologia social criada pela Gerando Falcões que significa favela digna, digital e desenvolvida.

Mas essa não foi a única “surpresa” de Barreto. No fim, ele se virou para a plateia e disse que “se no café todo mundo não gosta do Lula nem do Bolsonaro” está claro que não será pela política. E não é só doando toda a fortuna. É preciso fazer a diferença com quem faz a diferença, disse ele.

Broadcasting ao vivo

A LiveMode está por trás de uma transformação na transmissão esportiva ao vivo - criaram a CazéTV, em parceria com Casimiro Miguel. Com comunidades engajadas, o desafio era replicar esse modelo internacionalmente.

No Brasil, a prova de que o conceito tem valor e consegue ser monetizado. São entre 40 e 50 milhões de usuários únicos por mês e cobertura de eventos de alto alcance, como Copa do Mundo, Olimpíadas - o canal foi um dos destaques dos Jogos de Inverno - e campeonatos nacionais de diferentes esportes.

Esse alcance serviu como alavanca para a entrada em mercados externos. O primeiro passo foi Portugal, onde a empresa testou a replicabilidade cultural e operacional do formato.

“Dado o sucesso no Brasil, tivemos apoio de entidades, marcas e do YouTube para replicar o negócio em mercados globais; lançamos em Portugal e estamos começando uma expansão global”, disse Edgard Diniz, CEO e fundador da LiveMode.

O objetivo é manter a paixão e o tom “latino” do engajamento esportivo, mesmo em mercados mais formais, sem perder a consistência do produto.

Suor do fundador

Houve uma diferença de ênfase entre os participantes do painel “Construindo e escalando internacionalmente”. Enquanto Diniz, da LiveMode, e Alejandro Vásquez, cofundador da Nuvemshop, destacaram o valor prático da rede de investidores para a expansão no exterior, Sebastian Mejia, fundador da Tako, valorizou o suor do fundador.

“Quando você está construindo uma empresa, ter bons parceiros é importante, mas no fim o trabalho do fundador e da equipe é o que constrói a companhia. Investidores são marginalmente úteis”, disse Mejia.

No banco do passageiro

Ao lado de Gabriel Braga, CEO do Quinto Andar, Nicolas Szekasy, sócio e cofundador do Kaszek, explicou o que importa para escalar um negócio da América Latina globalmente.

Szekasy disse que não há um “grande segredo” e que tudo passa por execução, timing, e relação de confiança que permite apostas arriscadas.

“Queremos garantir que estamos 100% alinhados. Investimos para o longo prazo. Desde que passamos de empreendedores e operadores a investidores, ficou claro que nos posicionaremos no assento do passageiro. O volante fica nas mãos do fundador ou do CEO”, afirmou o sócio e cofundador do Kaszek.

Modelo como cérebro de decisões

O diferencial competitivo da IA não é mais apenas o modelo de linguagem, mas o uso do dado proprietário como insumo primário para decisões empresariais. Em vez de prompts textuais, o insumo passa a ser transações, eventos e comportamentos do cliente

Para Bruno Pierobon, CEO e fundador da NeoSpace, isso transforma o problema de “prever” em um problema de “prescrever” ações: preço, limite, oferta, retenção.

A consequência estratégica é que empresas que dominarem esse “cérebro” de dados terão vantagem sustentável porque convertem dados operacionais em decisões comerciais automatizadas e explicáveis.

“Não se trata de LLM. Trata-se de dados. O prompt desse modelo são as transações, a interação do cliente", disse Pierobon.