As ações do banco suíço Julius Baer caíam quase 9% na manhã de sexta-feira, 22 de maio, depois de sinalizar que a retomada de captação de novos clientes perdeu força no início do ano. A queda apagou os ganhos acumulados pelo papel em 2026 e mostrou que, para os investidores, a recuperação do private bank depois do caso Signa ainda está longe de ser uma história resolvida.
O banco reportou uma entrada líquida de recursos abaixo do esperado pelo mercado. Segundo a agência Reuters, analistas projetavam uma entrada líquida de 5,7 bilhões de francos suíços nos quatro primeiros meses do ano, quase o dobro dos 3 bilhões de francos suíços entregues pelo Julius Baer, o equivalente a US$ 3,81 bilhões.
O número representa um crescimento anualizado de 1,7%, abaixo dos 2,7% registrados no segundo semestre do ano passado.
Em conversa com analistas, o CEO Stefan Bollinger afirmou que o banco teve de reduzir ativos de risco na carteira de clientes em uma intensidade “um pouco maior” do que esperava.
A desaceleração foi atribuída a três fatores: a nova abordagem de risco e compliance adotada pelo banco, as incertezas relacionadas à guerra no Oriente Médio e uma pausa no apetite dos clientes por tomar dívida para investir.
A reação negativa do mercado veio mesmo com sinais positivos em outros indicadores. Os ativos sob gestão do Julius Baer chegaram a 528 bilhões de francos suíços no fim de abril, uma alta de 1% desde o início do ano.
O banco também afirmou que espera um lucro líquido no primeiro semestre substancialmente maior do que o registrado no mesmo período do ano anterior, beneficiado pelo desempenho forte no começo do ano e pela ausência de efeitos extraordinários relevantes.
Mas, para os investidores, o ponto central foi a perda de tração na entrada de dinheiro novo. O próprio Julius Baer reconheceu que a captação dos clientes enfraqueceu de forma significativa em abril, depois de um início de ano mais aquecido. O banco afirmou ainda que não espera uma volta ao mesmo ritmo nos próximos meses.
A leitura negativa do mercado passa pelo histórico recente da instituição. O Julius Baer vem tentando reduzir o risco da carteira de clientes depois do colapso da incorporadora austríaca Signa Holding, que levou o grupo a registrar perdas em empréstimos e a revisar seu portfólio de crédito.
A crise também provocou mudanças relevantes na estrutura do banco. Stefan Bollinger, ex-Goldman Sachs, assumiu o comando no início do ano passado e, desde então, o Julius Baer vem promovendo uma reorganização na liderança e no arcabouço de risco e compliance.
O desafio é fazer isso sem comprometer demais o crescimento em uma área em que a entrada de dinheiro novo é um dos principais termômetros de saúde do negócio.
Esse movimento de reorganização global também chegou ao Brasil. Como noticiou o NeoFeed, o Julius Baer vendeu sua operação local de wealth management ao BTG Pactual por R$ 615 milhões em janeiro de 2025, em uma transação que marcou a saída do banco suíço do mercado doméstico brasileiro e envolveu R$ 61 bilhões sob gestão.
E o resultado mostrou uma pressão sobre a estratégia apresentada por Bollinger para reconstruir o Julius Baer depois das perdas ligadas à Signa. O banco mantém a meta de elevar o crescimento de net new money para uma faixa de 4% a 5% até 2028, mas agora espera que a taxa anualizada de 2026 fique abaixo dos 2,9% registrados em 2025.
Na bolsa de Viena, a ação do private bank está em alta de 1,6% no ano. O valor de mercado do Julius Baer é de US$ 16,6 bilhões.