A Itaú Asset Management alcançou um marco inédito no mercado brasileiro de fundos de índice no fim do ano passado e tornou-se a maior gestora de Exchange Traded Funds (ETFs) do País em volume sob gestão, superando a BlackRock, líder histórica desse segmento no mundo.
Com cerca de R$ 30 bilhões distribuídos em 31 ETFs, a asset do Itaú chegou a aproximadamente 28% de participação de mercado, segundo dados da gestora de março. A virada é em volume sob gestão, não no número de investidores. O que mostra que a gestora conseguiu surfar o movimento recente neste mercado.
Isso porque o crescimento da indústria não veio acompanhado de uma explosão no varejo, mas de um maior uso do mercado institucional. Hoje, os institucionais respondem por 56,1% do volume sob custódia, enquanto as pessoas físicas representam 33,7%, segundo dados da B3.
Prova disso é que desde janeiro de 2025, o número de investidores em ETFs passou de 733 mil para 763 mil, segundo a B3. E foi justamente nesse público mais sofisticado que a Itaú Asset construiu sua vantagem, que corresponde a cerca de dois terços do seu total sob gestão em ETFs.
“Nossa dominância no mercado institucional, muito mais seletivo e criterioso, mostra que somos mais eficientes em gerir ETFs. Temos mais de 20 anos de experiência nesse mercado”, afirma Pedro Boainain, diretor de investimentos de crédito privado, renda fixa e indexados da Itaú Asset, que lançou o primeiro produto no Brasil em 2004.
A leitura interna é que, mais do que preço, a disputa passa por eficiência. A casa acompanha de perto métricas como o tracking error - o descolamento entre o fundo e seu índice de referência - e afirma operar com níveis inferiores aos da concorrência, além de manter taxas de administração competitivas.
“Não cobramos barato para ‘trucidar’ o concorrente. Cobramos o preço que a nossa eficiência e o nosso tamanho permitem. Mas esse mercado não é apenas preço”, diz Renato Eid Tucci, superintendente de estratégias indexadas e investimento responsável da Itaú Asset.
Um dos exemplos está na gestão do aluguel de ações. No Brasil, 100% dessa receita é revertida ao cotista, o que pode gerar diferenças relevantes de performance entre ETFs semelhantes, dependendo da eficiência da gestora.
Briga pelo varejo
Se a liderança em volume veio pelos institucionais, o próximo passo é avançar sobre o investidor pessoa física, um segmento em que a BlackRock ainda mantém vantagem em número de cotistas.
Para isso, a Itaú Asset tem apostado em educação financeira e em produtos mais aderentes ao perfil do brasileiro, historicamente concentrado em renda fixa.
Os ETFs de renda fixa viraram a principal porta de entrada. Além de simplificar o acesso, esses produtos trazem vantagens relevantes: não têm come-cotas, contam com alíquota única de 15% de Imposto de Renda e eliminam a necessidade de recolhimento de imposto via DARF.
Em vez de funcionar apenas como atalho para replicar um índice, o instrumento passou a ocupar espaço na engenharia das carteiras por custo, liquidez, transparência e eficiência tributária.
Nos últimos dois anos, a gestora lançou uma série de produtos com essa proposta, combinando renda fixa local e exposição internacional, como estratégias atreladas a Treasuries, ouro e inflação.

Mais recentemente, avançou sobre um terreno ainda mais específico: ETFs que compram títulos públicos individuais, como NTN-Bs com vencimentos definidos.
A lógica é entregar ao investidor previsibilidade (conhecimento de taxa e prazo) com mais eficiência tributária e operacional.
Segundo Eid, o reinvestimento automático dos cupons, sem incidência imediata de imposto, pode gerar uma diferença de até 600 pontos-base em relação ao investimento direto.
A estratégia atual também reflete aprendizados com erros do passado. A leva de ETFs temáticos lançada em 2021 (como fez toda a indústria), que surfavam nas tendências como tecnologia, ESG e saúde, teve baixa tração. O único destaque foi o produto focado em tecnologia, que ultrapassou R$ 1 bilhão.
A conclusão foi que o investidor brasileiro responde melhor ao “simples bem feito” do que a teses de moda. Essa disciplina passou a guiar a expansão da prateleira.
Uma indústria em expansão
O crescimento da Itaú Asset coincide com um ponto de inflexão da indústria de ETFs no Brasil. De janeiro de 2025 para cá, os ETFs foram a classe de fundos que mais cresceu no País (com exceção dos Fiagros), dobrando de tamanho e superando a marca de R$ 100 bilhões sob gestão.
Ainda assim, seguem pequenos e representam cerca de 1% do mercado de fundos local. O contraste com os Estados Unidos é enorme. Lá, os ETFs já ultrapassaram os fundos tradicionais, com mais de US$ 19 trilhões sob gestão.
“Nós sempre acreditamos no produto, na sua eficiência e simplicidade. Mas o Brasil sempre foi um país de juros altos”, diz Boainain. “Os ETFs eram vistos como ‘bolsa’, não como veículo de investimento. Isso está mudando.”
A virada começou pelos institucionais. Gestoras, fundos de pensão e seguradoras passaram a usar ETFs não apenas como exposição passiva, mas como ferramenta de construção de portfólio - inclusive em estratégias mais complexas.
Na própria área de solutions da Itaú Asset, que monta carteiras personalizadas para o private e institucionais, a participação média dos ETFs já gira em torno de 15%.
A liderança da Itaú Asset acontece em um mercado que tende à concentração. Nos Estados Unidos, três casas (BlackRock, Vanguard e State Street) concentram mais de 80% dos ativos em ETFs.
A lógica é que escala, liquidez e eficiência operacional são determinantes em um negócio de margens comprimidas.
E no Brasil, essa corrida já começou. Gestoras como XP, Bradesco e BTG Pactual aceleraram lançamentos recentes, enquanto novas casas começam a entrar no segmento. Segundo a B3, 62 novos ETFs foram listados em 2025 e mais de 20 apenas em 2026.
“Vemos com bons olhos a entrada de novos concorrentes. Mas não estamos confortáveis na liderança. O jogo está no começo”, diz Eid.
Boainain projeta que o mercado brasileiro pode chegar a R$ 1 trilhão em uma década, o que implicaria um crescimento anual abaixo do ritmo atual.
Se isso se confirmar, a disputa tende a seguir o mesmo roteiro global. “No fim, devem sobrar poucos grandes players”, afirma Boainain. “E queremos ser um deles, com mais de 30% de participação.”