Tema que pouco desperta interesse no eleitorado, o Orçamento da União - a entrega pelo Executivo da proposta de Orçamento de 2027 ao Congresso Nacional está na marca do pênalti, até a segunda-feira 31 de agosto - poderá ser votado até o fim do ano.

Já no “esforço concentrado” – após entendimento entre Lula e os presidentes da Câmara e Senado – catalisam os trabalhos: fim da escala 6X1, “taxa das blusinhas”, segurança pública e terras raras. Bandeira de campanha de Lula, a mudança na jornada poderá ser votada em comissão no Senado e, talvez, no Plenário na quarta-feira, 2 de setembro.

Dedicada ao tema, a 4intelligence traz oportunas observações sobre a redução da jornada de trabalho. Bruno Imaizumi, especialista da consultoria em mercado de trabalho enumera ao NeoFeed: elevado apoio popular à proposta; maior adesão entre mulheres e trabalhadores de menor renda; e percepção de que seus efeitos não serão homogêneos. Embora positivo para a economia, o impacto da medida sobre as empresas preocupa por custos, produtividade e reorganização operacional. Não é pouca coisa.

Entre setores, a 6x1 é mais comum em serviços e comércio. As micro e pequenas empresas têm a maior proporção de trabalhadores em 6X1, mas a quantidade de vínculos se concentra nas médias e de grande porte. Os impactos serão heterogêneos, portanto, na cadeia produtiva formal.

Experiências internacionais oferecem evidências relevantes sobre a iniciativa. E ganhos de produtividade estão no centro dos debates. “Nesse sentido, o Brasil apresenta desafios importantes. A produtividade está estagnada há mais de uma década. Baixo investimento em capital, qualificação limitada da força de trabalho e a elevada complexidade tributária restringem o crescimento da produtividade.”

O economista é taxativo: “Se não tivemos ganho de produtividade de 1,4% aproximadamente, o resultado da redução da jornada poderá ser mais inflação e mais informalidade. Não dá para dizer exatamente qual o impacto líquido total da mudança que vai variar de setor para setor.”

Experimento conduzido com 2.280 funcionários da Microsoft no Japão em 2019 indicou aumento expressivo de produtividade, acompanhado de redução de custos operacionais e melhora no bem-estar dos trabalhadores. “Parte dos resultados, porém, está associada a efeitos de motivação temporária e esforço extra de trabalhadores para provar que a política funcionaria”, diz Imaizumi.

Na Islândia, experimentos entre 2015 e 2019 mostraram que a redução da jornada de 40 horas para 35 a 36 horas semanais, sem redução salarial, resultou em manutenção ou maior produtividade; melhora significativa no bem-estar dos trabalhadores; e impactos positivos sobre a igualdade de gênero.

Foco de atenção, sobretudo de empresários, os prazos para redução da jornada em países emergentes como Chile e México devem ser observados. No Chile, onde a redução da jornada de 45 para 40 horas foi aprovada em 2022, foi estabelecido ajuste ao longo de cinco anos. No México, que aprovou a redução da escala de 48 para 40 horas neste ano, a implementação começa em 2027 e se estende até 2030.

Tombo do PIB

Outra informação econômica relevante na virada de agosto para setembro é o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre a ser divulgado pelo IBGE na terça-feira, 1º de setembro, e que deverá confirmar um tombo.

A queda da taxa de expansão da economia de 1,1% no primeiro trimestre para algo entre 0,4% e 0,5% não deverá incentivar o governo a “bater bumbo” em comemoração porque a economia encolhe, apesar da cascata de programas sociais lançados mês após mês. E por muito tempo.

Até por esse motivo, ainda que esperada, a informação é relevante para apoiar projeções de outros indicadores. Entretanto, o Orçamento e o PIB terão na política um concorrente de peso. Afinal, de 31 de agosto a 4 de setembro, Senado e Câmara estarão na segunda etapa do “esforço concentrado” para votação – e a apenas um mês do primeiro turno das eleições em 4 de outubro.

Dividindo a atenção no Senado com a proposta de reforma da Segurança Pública, a redução da escala de trabalho 6x1 é destaque pela relevância do tema para a população e para um “up” na popularidade do presidente Lula que tem em Flávio Bolsonaro o principal oponente.

Apelo semelhante terá a votação da MP da “taxa das blusinhas” que deverá formalizar a isenção de imposto sobre compras em plataformas online. Aprovadas as duas iniciativas – cenário mais provável – o governo deverá, sim, “bater bumbo” aguardando “dividendos” nas urnas.

A Pesquisa BTG/Nexus, divulgada na segunda-feira 24 em sua décima primeira rodada, continuou exibindo disputa acirrada entre Lula e Flávio, respectivamente, com 46% e 45% no segundo turno de votação. Em março, na primeira sondagem, o placar era 46% a 46%. Evolução que dá margem à percepção de que a política, apesar da intensa polarização, está no freezer.

Não dá para dizer o mesmo, porém, quanto às projeções de indicadores econômicos. Para 2026, os principais ajustes já ocorreram, sugere a Pesquisa Focus. Para 2027, as projeções estão sujeitas a correções a partir do resultado da eleição e, por tabela, da proposta de política econômica “vencedora”.

De março a agosto – período similar às onze rodadas da Pesquisa BTG/Nexus – a expectativa para 2026 do IPCA saltou de 3,91% para 5,02; para expansão do PIB houve leve aumento de 1,82% para 1,95%; a Selic esperada passou de 12,13% para 13,75%; e o dólar recuou de R$ 5,41 para R$ 5,20. Para as contas públicas – tema de importância gritante para economistas de mercado e insosso para a população – a toada não muda. A expectativa déficit persiste.

A BTG/Nexus confirma a avaliação de que política fiscal não têm ibope junto ao eleitor mediano. Entre os “principais problemas” do País listados em março “gastos do governo” respondiam por 5%; em agosto, por 4%. Em contraste com a preocupação com Corrupção (29% em março e 18% em agosto); Saúde Pública (25% em março e 32% em agosto); Segurança Pública (23% e 31%).