A inflação nos Estados Unidos teve aumento em maio de 4,2% na comparação anual, o nível mais alto em três anos, acelerando em relação aos 3,8% do mês anterior.

O anúncio, na quarta-feira, 10 de junho, pelo Departamento de Estatísticas do Trabalho dos EUA, reflete o impacto do conflito no Oriente Médio – o núcleo da inflação, que exclui itens voláteis como alimentos e energia, apresentou ganhos mais moderados, subindo apenas 0,2% em maio ou 2,9% em comparação com o mesmo período do ano passado.

Após a divulgação dos números, os preços do petróleo voltaram a subir no mercado internacional. À tarde, o barril do Brent, referência internacional, subiu 2,72%, cotado a US$ 93,46.

As bolsas americanas também repercutiram o resultado da inflação. No meio da tarde, o Índice Dow Jones (1,43%), o Nasdaq Composite (1,57%) e S&P 500 (1,18%) operavam em baixa.

A aceleração da inflação americana reforçou a tendência de manutenção de juros elevados nos Estados Unidos, aumentando a pressão sobre mercados emergentes, incluindo o Brasil – o que explica a queda de 0,78% do Ibovespa às 16h, enquanto o dólar operava com volatilidade, chegando a ser cotado a R$ 5,22 pela manhã, caindo depois para R$ 5,18.

Os dados devem impactar na Superquarta da próxima semana, quando tanto o Fed quanto o BC brasileiro se reunião para decidir sobre o futuro dos juros básicos de seus respectivos países. Essa será a primeira reunião do BC americano com o novo presidente da instituição, Kevin Warsh.

Os preços dos combustíveis têm sido o principal impulsionador da inflação americana, com o custo da gasolina subindo cerca de 50% no país desde o início da guerra, em março. Em fevereiro, antes do conflito, a inflação foi de 2,4% - próximo da meta de 2% do Fed.

“Eu adoro a inflação”, afirmou o presidente americano Donald Trump nesta quarta, 10 de junho, no Salão Oval da Casa Branca, após ser questionado se estava preocupado com os dados recentemente divulgados do índice de preços ao consumidor. Segundo ele, as consequências econômicas da guerra “valiam a pena" para impedir que o Irã obtivesse uma arma nuclear. “A inflação vai cair como uma pedra quando a guerra terminar”, disse Trump.

Os americanos, porém, têm ficado cada vez mais frustrados com Trump devido ao impacto econômico do conflito. Pesquisa divulgada esta semana revelou que 68% dos eleitores desaprovavam a sua forma de lidar com a inflação e o custo de vida, um aumento de 10 pontos percentuais em relação a abril.

O recente aumento da inflação nos EUA mantém a pressão sobre o Federal Reserve para que mantenha as taxas de juros estáveis num futuro próximo, enquanto as autoridades avaliam o risco de que as pressões inflacionárias decorrentes da guerra no Irã se espalhem para outros setores.

“Quanto mais tempo persistir o conflito no Oriente Médio, mais amplas e persistentes serão as pressões inflacionárias”, advertiu Gregory Daco, da consultoria global EY Parthenon.

Diante desse cenário, as autoridades do Fed se mostraram mais cautelosas quanto aos cortes nas taxas de juros. Muitos membros do banco central têm mencionado a possibilidade de que as taxas precisem subir em algum momento para que a inflação retorne à meta de 2% estabelecida pelo banco central.

Impacto no Brasil

O aumento da inflação americana é uma péssima notícia para o Brasil. Isso porque aumenta a probabilidade de juros elevados nos EUA por mais tempo, o que reduz o apetite por risco e tende a provocar queda na bolsa brasileira, já que investidores migram para Treasuries mais atrativos.

Como efeito indireto, esse cenário tende a pressionar o câmbio e dificultar uma queda da Selic. Com juros americanos mais altos, há saída de capital de emergentes.

Analistas destacam que o aumento da cotação do dólar, chegando a bater em R$ 5,22 antes de começar a cair, confirma esse movimento, uma vez que a moeda era cotada entre R$ 5,04 e R$ 5,05 há pouco mais de uma semana.

Gustavo Assis, CEO da Asset, admite que os juros altos nos Estados Unidos reduzem o espaço do Copom para cortar a Selic porque pressionam o câmbio, mantêm o custo de capital global elevado e tornam o Brasil mais dependente de um diferencial de juros atrativo.

“Na próxima reunião, o Copom deve manter a Selic, mas a comunicação será tão importante quanto a decisão”, afirma Assis. “Se o Banco Central sinalizar que os cortes dependem de inflação ancorada e melhora no ambiente externo, o mercado começa a precificar uma transição gradual, sem romper a cautela.”

Antes mesmo do anúncio da inflação americana, o mercado financeiro já havia abandonado a perspectiva de corte de juros na próxima reunião do Copom – antes, a expectativa era de mais um corte de 0,25 ponto percentual. Passou a prevalecer a expectativa de que o juro básico ficará nos atuais 14,50%.

O BTG Pactual revisou a projeção de Selic de 13% para 14,25% neste ano, o Itaú alterou de 13,25% para 13,75% e a XP, de 13,75% para 14%. Na segunda-feira, 8, a pesquisa Focus também trouxe elevação da estimativa de 13,25% para 13,50% ao final de 2026.