Ao ordenar o ataque ao Irã no fim de fevereiro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prometeu destruir as principais instalações nucleares e só parar diante da “rendição incondicional” iraniana.
A sucessão de acontecimentos do fim de semana expôs a armadilha que Trump impôs a si próprio ao acreditar que seria possível, numa só tacada, inviabilizar o programa nuclear iraniano e ainda derrubar o regime dos aiatolás.
Após três meses de guerra e dois de cessar-fogo que não destruíram o programa nuclear iraniano e tampouco renderam o acordo de paz que o presidente americano imaginava que sairia rápido, a retomada de ataques entre o Irã e Israel nos últimos dias tornou o cenário ainda mais complexo.
De um lado, mostrou que Trump não consegue mais conduzir o processo – uma vez que foi atropelado pelos ataques do Irã a Israel, em retaliação a um bombardeio israelense no sul do Líbano, e pela resposta de Israel.
Num gesto próximo da humilhação, Trump chegou a fazer um apelo aos dois lados para que interrompessem a troca de mísseis para não atrapalhar as negociações de paz entre EUA e Irã, que se arrastam há semanas, sem nenhum sinal concreto de avanço.
De outro, fez o mercado financeiro global retomar os temores de um conflito sem solução no curto prazo. O petróleo Brent, referência internacional, que estava negociado acima de US$ 98 o barril no início da segunda-feira, 8 de junho, caiu para cerca de US$ 95 no meio da tarde depois que Irã e Israel suspenderam as hostilidades – mesmo assim, ainda distante dos US$ 72 o barril antes da guerra.
O rompimento da trégua iniciada há dois meses foi um duro golpe para Trump porque mostrou que o Irã não tem pressa de chegar a um acordo com os EUA.
Isso ficou claro não só pelo fato do primeiro ataque do final de semana ter partido do país persa, mas pelas ameaças feitas pelo porta-vozes do regime iraniano caso os bombardeios israelenses prosseguissem. Entre elas, de levar a guerra para o Oceano Índico, incluindo o Estreito de Bab el-Mandeb, o Mar Vermelho e o Mediterrâneo.
O estreito de Bab al-Mandab, que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Aden, tem funcionado como uma válvula de escape crucial para os exportadores de petróleo. O fluxo de petróleo da Arábia Saudita aumentou consideravelmente através do seu oleoduto leste-oeste após o fechamento do Estreito de Ormuz, redirecionando milhões de barris por dia para o Mar Vermelho.
A rota do Mar Vermelho é responsável por 15% do comércio marítimo mundial e o Estreito de Ormuz por cerca de 20%. O fechamento total e simultâneo de ambas as vias navegáveis exerceria uma enorme pressão sobre a rota do Cabo da Boa Esperança, contornando a África do Sul.
Novo trunfo
A pressão de Trump sobre o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, no fim de semana, para que não retaliasse o ataque iraniano (o que foi ignorado por Israel) deu um novo trunfo para o regime do Irã: explorar as tensões entre Israel e os EUA para acelerar um acordo rápido com um presidente americano.
Na visão iraniana, Trump está desesperado para se livrar de uma guerra que está se transformando em uma demonstração alarmante de impotência diplomática e militar dos Estados Unidos.
As exigências de negociação do Irã têm sido claras: um cessar-fogo no Líbano, incluindo a retirada das forças israelenses e o descongelamento de metade dos ativos iranianos congelados, cerca de US$ 12 bilhões; uma forma de gestão iraniana sobre o Estreito de Ormuz; e discussões detalhadas posteriores sobre como o Irã vai garantir aos EUA que não busca armas nucleares, incluindo a redução do seu estoque de urânio altamente enriquecido.
Trump esteve muito perto de concordar com esses termos, mas parece estar tentando encontrar maneiras de formulá-los para torná-los mais aceitáveis para seu público interno.
Brett McGurk, que ocupou altos cargos de segurança nacional nos últimos governos americanos, afirmou em artigo para a CNN que, para Trump, restam apenas três opções, nenhuma delas confortável.
A primeira é de resistir, ou seja, superar a pressão macroeconômica e o aumento dos preços da gasolina causados pelo fechamento do Estreito de Ormuz, na esperança de que a crise econômica se intensifique no Irã, rumo a um ponto de ruptura que o próprio McGurk considera distante e incerto.
A segunda opção seria um recuo do presidente americano, concordando em pagar os custos iniciais da guerra ao Irã em troca de um retorno ao status quo anterior ao início do conflito — na prática, uma humilhante retirada para Trump, considerando os objetivos declarados desde o início.
A terceira opção, tampouco atraente, seria uma nova ofensiva militar americana para buscar o controle do estreito e retomar as principais operações dentro do Irã. Na prática, seria retomar o cenário do início da guerra, que o Irã não só conseguiu resistir como virar a situação a seu favor.
Para McGurk, a batalha dos bloqueios no Estreito de Ormuz está pendendo a favor do Irã.
“O esgotamento gradual das reservas mundiais de petróleo, que está causando um colapso na economia global, parece mais perigoso do que o Irã ficar sem dinheiro e sem exportações de petróleo”, escreveu ele. “As repetidas previsões de Trump de que um acordo está próximo podem apenas reforçar a crença iraniana de que o presidente americano precisa de um acordo com muito mais urgência do que o Irã.”