Linköping - Com uma população de apenas 10 milhões de habitantes e um território equivalente a duas vezes o do estado de São Paulo, a Suécia representa o melhor exemplo da recente guinada histórica na geopolítica europeia.

A interminável guerra na Ucrânia, aliada à pressão dos Estados Unidos de Donald Trump para que os países europeus aumentem seus gastos com defesa, acabou reforçando a ameaça que o líder russo Vladimir Putin passou a representar ao continente – um tema sensível aos suecos, cientes do risco de viverem a menos de 200 km do território russo, separados pela Finlândia.

Trump vem deixando claro que o compromisso americano de proteger a região deve ser assumido pelos europeus. A prioridade passou a ser engordar o orçamento da Otan, a aliança militar transatlântica formada após a Segunda Guerra.

O resultado dessa nova estratégia ficou claro na semana passada, com o pré-acordo assinado entre o primeiro-ministro da Suécia, Ulf Kristersson, e o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, pelo qual os ucranianos anunciaram a intenção de compra, por US$ 2,9 bilhões, de 20 caças Gripen E, fabricados pela gigante de defesa sueca Saab.

No anúncio, Kristersson ainda prometeu doar 16 caças Gripen de modelos mais antigos, os C/D, a serem entregues no início de 2027, como solução provisória para fortalecer a defesa aérea da Ucrânia enquanto a nova encomenda é produzida – o que deve levar alguns anos. Zelensky ainda manifestou interesse de ampliar a encomenda para 150 caças, a médio prazo.

Desde o início da guerra, em 2022, a Suécia já liberou o equivalente a US$ 14,5 bilhões em ajuda para a Ucrânia. O valor inclui pacotes militares sucessivos (munições, veículos, sistemas antiaéreos, treinamento, etc.) e apoio econômico via União Europeia e ONU.

Como efeito do anúncio do pré-acordo, feito na quinta-feira, 28 de maio, as ações da Saab subiram 7,6%, tornando a empresa a com maior valorização do dia na Europa, numa mostra do potencial dessa nova estratégia regional para gerar novos negócios para a indústria de armamentos do continente.

E isso já estava sendo colocado em prática antes do anúncio entre Suécia e Ucrânia. Mesmo com a economia dos países da Europa patinando desde a invasão russa da Ucrânia, o crescimento dos gastos em defesa na Europa (excluindo a Rússia) atingiu nível recorde em 2025. Foram cerca de US$ 674 bilhões, o equivalente a 23% do total global, de US$ 2,89 trilhões.

Parte desse aumento é reflexo do desafio assumido pelos países-membros da Otan, no ano passado, de ampliar seus investimentos em defesa para 5% do PIB até 2035 – quase três vezes acima da média atual, de 1,7% do PIB. Se os países europeus da aliança militar atingirem a meta de gastos, isso representaria um aumento combinado de US$ 1 trilhão nas despesas anuais de defesa nos próximos dez anos.

Esse fluxo de gastos já deu o pontapé inicial, com a União Europeia se comprometendo a emprestar o equivalente a US$ 93 bilhões para a Ucrânia se armar contra a Rússia, oque gerou a encomenda de Zelenski. A novidade é que boa parte desse arsenal aos ucranianos será fornecida pelas principais indústrias de armamentos da Europa - Rheinmetall (Alemanha), Saab (Suécia), BAE Systems (Reino Unido), Leonardo (Itália), Thales e Dassault (França).

Na prática, os europeus estão usando sua nova geopolítica como forma de privilegiar as gigantes de armamentos da Europa para fortalecer a Otan e, de quebra, retomar o crescimento econômico que lhes foi tirado pela guerra na Ucrânia.

O pré-acordo também chamou a atenção pelo protagonismo assumido pela Suécia na nova geopolítica adotada pelos países europeus. O governo sueco, na verdade, vinha ensaiando deixar de lado sua tradicional postura neutra, que vigorou durante a Segunda Guerra e a Guerra Fria, desde a anexação russa da península da Crimeia, em 2014 – o primeiro sinal claro mais recente da ameaça russa liderada por Putin à Europa.

Desde então, a Suécia vem aumentando seu orçamento de defesa, que foi triplicado nos últimos sete anos e hoje representa 2,2% do PIB, acima da média dos países-membros da Otan. O país, que havia desativado o serviço militar obrigatório em 2010, voltou atrás e decidiu retomá-lo em 2017.

Em 2024, com o agravamento da guerra na Ucrânia - que já se transformou no conflito mais sangrento em solo europeu em 80 anos –, o governo sueco oficialmente deixou de lado a neutralidade e, ao lado da Finlândia, decidiu se filiar à Otan. Com a adesão finlandesa, a aliança militar ocidental praticamente dobrou a extensão de sua fronteira com a Rússia.

“Os suecos mantêm uma Força Aérea reconhecida pela capacidade de ataque, estão modernizando sua Marinha e possuem uma indústria de defesa relativamente robusta, dominada pela Saab e com planta da BAE Systems no país, cujo crescimento é uma prioridade do governo”, afirma o especialista americano David Auerswald, pesquisador do Atlantic Council, centro de estudos sediado em Washington.

Segundo ele, antes mesmo da invasão em larga escala da Ucrânia e da adesão à Otan, o governo sueco vinha desenhando uma estratégia específica para a região do Ártico, cuja ponta mais ao norte de seu território fica dentro do Círculo Polar Ártico, que vem se transformando numa espécie de nova fronteira militar multinacional.

Ali, as mudanças climáticas são uma realidade – a região está aquecendo quatro vezes mais rapidamente que o resto do planeta. O derretimento do gelo pode levar a maiores oportunidades econômicas e, por essa razão, vem sendo alvo de interesse estratégico e movimentação militar.

“Uma política de defesa do país que redirecione o foco para o norte com o objetivo único de deter a agressão russa é essencial — e a economia, a política e a indústria de defesa da Suécia estão preparadas para isso”, assegura Auerswald.

Novas opções

Não surpreende que, entre as grandes indústrias de defesa da Europa, a Ucrânia tenha optado pela compra dos caças Gripen, da Saab – o mesmo modelo de avião de combate do acordo assinado entre a empresa sueca e o governo brasileiro em 2014, com transferência de tecnologia. De acordo com especialistas europeus, tecnicamente, o avião é muito mais avançado do que qualquer aeronave operada pela Ucrânia atualmente.

Mikael Franzen, CMO do Programa Gripen da Saab, assegura que o caça da empresa sueca é uma excelente opção. “Esse tipo de aeronave foi projetado para combate em situação semelhante à adotada pela Ucrânia na guerra contra a Rússia: a partir de pistas de pouso remotas, onde a aeronave é reabastecida e rearmada por equipes de solo móveis com bastante rapidez”, diz Franzen, em conversa com jornalistas brasileiros na cidade sueca de Linköping, onde a Saab concentra a unidade Aeronáutica.

Franzen afirmou que a linha de produção do caça sueco Gripen E na fábrica da Embraer em Gavião Peixoto (SP) pode ser ampliada para dar conta da encomenda ucraniana – a unidade de Linköping tem capacidade de produzir cerca de 20 Gripen por ano, mas deve aumentar para 30, caso o contrato com a Ucrânia seja assinado.

Embora, a princípio, a provável encomenda ucraniana deverá ser produzida na Suécia, a unidade brasileira deverá crescer porque produz o painel digital dos contratos da Saab e precisa de mais espaço para montar os 15 Gripen encomendados recentemente pela Colômbia. A unidade da Embraer de Gavião Peixoto é a primeira fora da Suécia a montar o caça.

O Brasil adquiriu no total 36 Gripen E. O primeiro foi apresentado em março e, outros 14 serão produzidos em território nacional, com transferência de tecnologia sueca e participação direta de engenheiros brasileiros na produção. Na ocasião, o CEO da Saab, Micael Johansson, já havia levantado a possibilidade de ampliar a produção na unidade brasileira e não descartou criar outra no Canadá.

Na terça, 2 de junho, a Saab faz em Linköping o lançamento do Gripen F (bicomposto), uma versão de dois lugares que terá 8 unidades produzidas em Gavião Peixoto encomendadas pela Força Aérea Brasileira (FAB).

Da esq. à dir: o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky; o CEO da Saab, Micael Johansson; e o primeiro-ministro sueco, Ulf Kristersson (Foto: Mattias Rådström/Saab/Divulgação)

O caça Gripen E: pré-acordo para compra de 20 unidades pela Ucrânia (Foto: Saab/Divulgação)

Global Eye: Aeronave de alerta aéreo antecipado ganha mercado na Otan (Foto: Saab/Divulgação)

A rápida adaptação da Ucrânia às mudanças tecnológicas militares, com a incorporação de drones e sistemas avançados de vigilância e resposta – cada vez mais procurados que as tradicionais plataformas de defesa, como porta-aviões - reforça as oportunidades que se abrem para a indústria de armamentos da Europa de forma geral.

A Saab, por exemplo, já é uma fornecedora importante para o governo sueco e para diversos países europeus de radares, sistemas antiaéreos, mísseis, sensores e submarinos, além dos caças Gripen.

A gigante de armamentos captura entre 15% e 20% do gasto sueco anual em Defesa e exporta para mais de 100 países. Em 2025, a Saab registrou receita recorde de US$ 8,54 bilhões, sendo 59% em exportações – só para países da Otan, excluindo a Suécia, as encomendas somaram US$ 2,75 bilhões.

Esse avanço da empresa no mercado europeu se reflete no faturamento. A Saab reportou vendas de US$ 2,07 bilhões no primeiro trimestre de 2026, com um crescimento orgânico de 23,6% em comparação com o mesmo período do ano anterior.

Todas as áreas de negócio — Vigilância, Aeronáutica, Armamentos e Tecnologia Combinada — registraram crescimento de vendas de dois dígitos. Para 2026 e 2027 a previsão é de média de 20% de crescimento de vendas.

Num segmento onde o avanço tecnológico faz a diferença para aumentar a participação no mercado, a empresa investe 16% da receita de vendas em pesquisa e desenvolvimento, área que concentra 12 mil dos 29 mil funcionários da gigante sueca.

“A Saab é uma história de sucesso em muitas áreas de negócios, e acredito que a ampla gama de produtos e serviços da empresa torna difícil identificar um segmento específico”, afirma o consultor Joakim Paasikivi, especialista militar que ocupou posto de liderança estratégica nas Forças Armadas da Suécia.

Além dos caças Gripen, Paasikivi cita um produto que deve alavancar as vendas da Saab nos próximos anos: o GlobalEye. Aeronave de alerta aéreo antecipado (conhecida pela sigla AEW&C), o GlobalEye combina radar Erieye ER com alcance de 550 km e um sistema de comando e controle que atua como “os olhos” de uma força aérea moderna, identificando aeronaves, mísseis, drones, navios e veículos terrestres antes de qualquer outro sensor, permitindo reação antecipada.

O GlobalEye é hoje o único AEW&C multimissão capaz de vigiar ar, mar e terra simultaneamente a partir de uma única plataforma. Isso o coloca em vantagem sobre concorrentes, mais focados principalmente em vigilância aérea.

A França comprometeu-se com mais de US$ 1,3 bilhão para a aquisição do GlobalEye. O pacote inclui duas aeronaves AEW&C multimissão, suporte, treinamento e equipamentos terrestres. Um único contrato com a França equivale a cerca de 15% da receita anual da Saab – o que explica por que o GlobalEye é considerado um dos programas mais estratégicos da indústria sueca.

Os Emirados Árabes Unidos receberam cinco unidades e a Suécia, uma, com outra a caminho. A Alemanha e Canadá também estudam fazer encomendas. A Saab ainda está oferecendo o GlobalEye, juntamente com a Bombardier, para a modernização da vigilância em toda a aliança da Otan, em substituição às aeronaves de alerta aéreo antecipado AWACS, projeto dos anos 1970 baseado em um Boeing 707 com um grande radar rotativo.

A empresa sueca compra o jato Global nas versões 6000 ou 6500 da Bombardier, por cerca de US$ 50 milhões, faz toda a conversão para o GlobalEye na unidade de Linköping e entrega a versão equipada por cerca de US$ 400 milhões, dependendo do contrato. A empresa sueca tem planos de ampliar sua linha de produção também para o GlobalEye para dar conta da demanda.

O jornalista viajou a convite da Saab