Havana - “Podem pagar em pesos cubanos ou em dólares.” A frase, repetida em restaurantes, lojas privadas e serviços de Havana, sintetiza uma transformação silenciosa, mas profunda, na economia de Cuba.
O que começou como prática episódica em pontos turísticos virou regra estruturante do cotidiano - e escancarou a distância entre quem tem acesso à moeda forte e quem depende exclusivamente do peso cubano.
Com cerca de 11 milhões de habitantes, o país atravessa uma crise estrutural prolongada, agravada a partir de 2020. Dados da Oficina Nacional de Estadística e Información mostram retração da atividade econômica, queda na produtividade e forte pressão sobre o consumo.
O cenário combina fatores que se reforçam mutuamente: redução do turismo, restrições externas, baixa produção interna e desequilíbrios macroeconômicos persistentes. No vácuo deixado pelo Estado, o dólar avançou.
Embora o peso cubano seja hoje a única moeda oficial, nem sempre foi assim. Durante décadas, o país operou com um sistema de dupla moeda: o peso cubano (CUP) e o peso conversível (CUC), este último atrelado ao dólar e utilizado sobretudo no turismo e em transações com estrangeiros.
A legalização do uso da moeda americana remonta a 1993, quando o governo passou a permitir sua circulação como resposta à crise do pós-União Soviética.
Com a reforma monetária de 2021, o CUC foi eliminado e o peso cubano passou a ser a única moeda oficial. Mas o desenho institucional não acompanhou a economia real. O dólar se consolidou como principal referência de valor, especialmente fora do setor estatal.
Nos principais pontos turísticos da capital, como o bairro de Habana Vieja, a moeda americana é amplamente aceita em restaurantes, mercados de artesanato e negócios privados.
No mercado informal, que dita o custo real de vida, US$ 1 pode valer entre 400 e 500 pesos cubanos, muito acima das taxas oficiais definidas pelo Banco Central de Cuba.
A dolarização também reconfigurou o setor de serviços. O tradicional bicitáxi, antes utilizado majoritariamente por moradores locais, passou a integrar a economia turística dolarizada. Passeios pela capital são ofertados diretamente em moeda estrangeira.
Salário de US$ 5 mensais
Wiliam H.*, bicitaxista há mais de 16 anos na capital e formado em engenharia pela Universidade de Havana, adaptou sua renda a essa nova lógica. “Não é a nossa moeda oficial, mas, sem dúvidas, é a principal”, diz ele, em conversa com o NeoFeed. “Com o dólar, consigo comprar nas lojas privadas com um câmbio melhor.”
Após a reforma monetária, o salário mínimo foi fixado em cerca de 2,1 mil pesos cubanos mensais, enquanto o salário médio gira em torno de 5,8 mil pesos.
No câmbio informal, com o dólar entre 400 e 500 pesos, o salário mínimo equivale a algo entre US$ 4 e US$ 5 por mês, e o salário médio, a algo entre US$ 11 e US$ 14 — o que limita drasticamente o acesso da maior parte da população a bens básicos.
Para turistas, a aceitação do dólar facilita o consumo e sustenta parte relevante da atividade econômica. Em Havana, motoristas de bicitáxi cobram, por trecho, uma média de mil CUP para moradores locais. Já um city tour de duas horas pelos principais pontos da cidade pode custar US$ 10 por pessoa.
“Aqui em Cuba, nós não vivemos com o dólar. Nós sobrevivemos”, resume William. “Apenas assim conseguimos comprar alguns, poucos suprimentos básicos para nos mantermos no mês.”

O advogado brasileiro Lucas Jorge, que visitou Havana por pouco mais de uma semana, aderiu rapidamente ao sistema. “Antes de vir, eu sabia que, trazendo dólares, o acesso aos principais lugares turísticos seria facilitado”, conta ao NeoFeed. “Para nós, que viemos de fora, acaba valendo mais a pena, e também ajudamos a economia circular junto ao dólar aqui na ilha.”
A dolarização escancara uma fragmentação econômica crescente. Hoje, Cuba opera com pelo menos três referências de valor: o câmbio oficial, os preços regulados pelo Estado e o mercado informal, onde o dólar dita as regras.
Na prática, é o mercado paralelo que organiza o cotidiano. A inflação persistente, reconhecida em análises de organismos como a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), é impulsionada pela escassez de bens, pela emissão monetária e pela desvalorização do peso cubano.
Quem recebe remessas do exterior ou atua no setor privado, ampliado após 2021 com a legalização das mipymes, que são as micro, pequenas e médias empresas, tem maior acesso à moeda americana e, consequentemente, a bens e serviços. Já os trabalhadores do Estado permanecem dependentes de uma moeda que perdeu função como reserva de valor.
No dia a dia, essa dinâmica se traduz em práticas informais. Pagamentos podem ser feitos em dólar, mas o troco é frequentemente devolvido em pesos cubanos, estratégia dos comerciantes para reter moeda forte dentro do negócio e garantir a reposição de insumos.
Relatórios de organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU), apontam dificuldades persistentes no abastecimento e na segurança alimentar, refletindo o enfraquecimento da rede estatal de distribuição.
A “divisa”, como o dólar é chamado localmente, organiza a vida econômica real, enquanto o peso cubano sobrevive como moeda formal de um sistema cada vez mais descolado do cotidiano dos cubanos.
*O personagem William H. pediu para ter seu nome alterado por receio de retaliações governamentais.