Desde que a inteligência artificial (IA) se tornou a maior aposta de investimentos do mercado financeiro, os recursos destinados para os avanços em tecnologia não param de crescer. A expectativa é de que a maior parte das empresas aporte mais de US$ 750 bilhões nessa área somente neste ano.
Isso explica o fato de que as companhias mais valiosas do mundo sejam de IA. A Nvidia tem hoje um valuation de US$ 4,6 trilhões, seguida por Apple, com US$ 4,5 trilhões, e Alphabet, com US$ 4,35 trilhões. E há uma enorme expectativa pela oferta pública de ações (IPO) de gigantes como OpenAI, de Sam Altman, e da Anthropic, que entraram em junho com pedido de registro nos Estados Unidos.
Mas, para a companhia brasileira Positivo Tecnologia, isso não é um problema. Ao contrário. Na visão da empresa, essas gigantes vão se tornar, ao longo do tempo, suas grandes aliadas.
“Quanto mais a inteligência artificial cresce e mais capacidade computacional é necessário, mais oportunidades aparecem para nós”, diz Hélio Rotenberg, CEO e cofundador da empresa, em entrevista ao NeoFeed.
Na visão do empresário, há uma avenida está no conceito chamado do edge AI, tendência em que a inteligência artificial é processada localmente em dispositivos, reduzindo especialmente a dependência da infraestrutura de nuvem.
O sentido está, segundo Rotenberg, nas oportunidades de crescimento da infraestrutura regional que irão surgir para absorver esta demanda global. “Os grandes vão continuar crescendo, mas existe espaço para o processamento local. E é aí que nós entramos”, afirma.
A analogia do empresário está no setor de geração de energia elétrica. A gigante hidrelétrica Itaipu, binacional controlada por Brasil e Argentina, por exemplo, não consegue gerar toda a energia sozinha. Para isso, existem as pequenas centrais hidrelétricas (PCHs). Levando para o universo das big techs, a Positivo seria uma dessas PCHs.
“Há outras formas de geração de energia local. Com isso, surge esse intercâmbio de tecnologias. Você tem o modelo centralizado, ele começa a ficar caro, daí você descentraliza. Ele começa a ter problemas de não conseguir mais crescer, e então você descentraliza”, afirma Rotenberg.
Outra razão para explicar esse argumento está no custo dessas movimentações. Executar essas operações de IA em nuvem significa, na prática, pagar permanentemente pelo uso dessa infraestrutura.
Segundo o cofundador da Positivo, o alto investimento em construções de grandes data centers no mundo tem feito com o que processamento centralizado fique ainda mais caro. Neste sentido, a tendência é que fiquem concentrados na órbita destas gigantes as construções de parâmetros de LLMs mais sofisticados.
“Os processamentos com muitos parâmetros vão seguir centralizados. Agora, parte dessa construção poderá ser feita na própria empresa”, explica. “O custo dos tokens é muito alto.”
Outro ponto é a própria segurança dessas informações. “Há uma questão de sigilo de dados. Um banco não vai querer que todas as suas informações estejam abertas na nuvem. Então, ele vai ter seus servidores para fazer parte deste processamento”, explica Rotenberg.
Neste sentido, a Positivo já vem capturando parte desta tendência, ampliando seu horizonte de atuação no serviço de processamento local de IA.
Nos últimos meses, a companhia fez duas entregas de mega servidores de IA para a Universidade de São Paulo (USP) e Universidade de Campinas (Unicamp), duas das principais instituições públicas de ensino superior.
No caso de Campinas, o supercomputador foi instalado em dezembro. Chamado de Abaporu, por ser um “devorador de dados”, em alusão à obra de Tarsila de Amaral, o modelo custo US$ 1 milhão e está instalado no Instituto de Computação.
O da USP se chama Jairu, feito em parceria com a Nvidia e a Scherm, e foi entregue em janeiro. O projeto custou R$ 40 milhões e utiliza 96 processadores da Nvidia Blackwell B200.
Também recentemente, a empresa concluiu a entrega de um superservidor de IA para a Petrobras, um dos maiores da América Latina. O projeto se chama HPC25 (High Perfomance Computing) e a licitação foi vencida pela integradora frnacesa Atos Bull, que comprou o modelo da empresa brasileira.
O plano é que projetos deste tipo, na esteira da oportunidade gerada pela força das gigantes de tecnologia, ajudem a Positivo a alcançar a receita prevista para este ano, entre R$ 4 e R$ 4,2 bilhões.
Mais da metade da receita
Isso explica também o resultado da divisão de insfraestrutura de TI da Positivo, que reúne os negócios de PCs corporativos, servidores tradicionais e de IA, e a área de serviços, que já representa 52% do faturamento da empresa.
Isso significa que este segmento já apresenta um resultado anualizado superior a R$ 2 bilhões. Somente na divisão dos superservidores de IA, Rotenberg afirma que a Positivo conseguiu ultrapassar a marca de R$ 500 milhões, como havia revelado ao NeoFeed no ano passado. E que a tendência é de o segmento ser ainda mais representativo.
“Como as outras áreas estão crescendo, a perspectiva é que este percentual suba, mas na proporção com os outros mercados. Um bom número seria consolidar o segmento de infraestrutura entre 50% e 60%”, afirma o fundador da Positivo.
Nos planos de inovação, a empresa também enxerga espaço de avanços para novas tecnologias, com um modelo de leitura da palma de mão, pelas maquininhas de pagamentos e soluções produzidas pela Positivo. O lançamento foi no mês passado.
A empresa está na fase de apresentar a tecnologia para as companhias de pagamento. Somente no ano passado, o segmento de maquininhas representou 15% do faturamento da Positivo.
“Hoje, já temos mais de 1 milhão de maquininhas de pagamento da Positivo. Agora estamos evoluindo. A pessoa pode cadastrar o cartão de crédito em uma mão e o pix em outra, por exemplo. Não precisa nem do celular”, explica.
“Estamos discutindo com várias empresas para começar a operação, que hoje está presente em países como a China. Licenciamos a tecnologia de lá”, completa. A ideia é que o sistema já esteja embutido nas próximas maquininhas.
Parte dessas tecnologias integra o volume de cerca de R$ 200 milhões que a companhia prevê reservar para investimentos em 2026.
No primeiro trimestre desse ano, a Positivo alcançou receita líquida de R$ 741,4 milhões, alta de 3,6% sobre a mesma base do ano passado. O Ebitda cresceu 31%. Hoje a empresa vende 800 mil PCs por ano.
No acumulado de 2026, as ações POSI3 na B3 registram queda de 3,16%. A Positivo tem valor de mercado de R$ 564 milhões.