Uma enorme dor de cabeça para a farmacêutica suíça Novartis, em termos de resultados clínicos, levou a companhia a enfrentar uma das piores crises de sua história em relação às suas ações desde a abertura de capital, em 1996.

A empresa anunciou, na terça-feira, 8 de setembro, que o medicamento experimental Del-desiran, testado para tratamento de atrofia muscular, falhou na fase final do estudo, sem apresentar os resultados esperados.

O efeito colateral foi imediato no mercado financeiro. Na bolsa de Zurique, os papéis da Novartis registravam queda de 10,6% às 16h30 (horário local). Na Nyse, em Nova York, o tombo foi maior. A desvalorização alcançou 13,1% às 10h40 (também local). Em poucas horas, a empresa perdeu o equivalente a US$ 30 bilhões em valor de mercado.

A aposta no medicamento havia sido a principal razão apontada pela empresa para a aquisição da empresa de biotecnologia americana Avidity Biosciences, por US$ 12 bilhões, em outubro de 2025.

Este, no entanto, não é o único revés recente da companhia em termos de desempenho de ensaios clínicos. Dois de suas três principais apostas de medicamentos inovadores para este ano falharam em suas respostas.

Antes, a farmacêutica europeia já tinha decidido interromper oito de dez estudos que estavam sendo realizados, de uma terapia celular experimental chamada para o tratamento de doenças autoimunes após o registro de mortes de três pacientes.

Os investidores contavam com o Del-desiran, com o medicamento para o coração Pelacarsen e com o anti-inflamatório Pemibrutinib para impulsionar o resultado da companhia, visto que a Novartis enfrenta a queda nas vendas do medicamento Entresto e se prepara para a expiração de suas patentes, no início da próxima década.

“O medicamento deveria ter sido uma vitória obrigatória para a empresa", disse James Eugene, analista da Verso Investment Management, acionista da Novartis, à Reuters.

Para ele, o fracasso do teste vai aumentar a pressão sobre os demais medicamentos em desenvolvimento. “Este recente revés pode abalar a confiança em sua estratégia de aquisições, dado o tamanho do negócio e as expectativas relativamente altas de sucesso para a Del-desiran.”

Os resultados de Del-desiran surgem um dia depois de as ações da Novartis terem caído mais de 3% também na sequência do fracasso do ensaio clínico Pelacarsen, que era igualmente visto como grande oportunidade de aumento da receita.

Os analistas do banco britânico Barclays estimavam um pico de vendas anuais de US$ 3,1 bilhões para o Del-desiran e atribuíram ao medicamento uma probabilidade de sucesso de 60%, com base em dados positivos da fase intermediária de testes.

Shreeram Aradhye, presidente de desenvolvimento e diretor médico da Novartis, afirmou que o desenvolvimento de terapias para doenças como a distrofia miotônica tipo 1 continua sendo um desafio e que os contratempos fazem parte do progresso científico.

O analista da Vontobel, Stefan Schneider, afirma, no entanto, que não irá alterar suas avaliações sobre as outras duas terapias adquiridas pela Novartis por meio da Avidity, embora o último revés tenha enfraquecido ainda mais a confiança na empresa. A tendência, segundo ele, é que alguns investidores se desfaçam de suas ações.

O fracasso no desempenho dos testes do medicamento aumenta ainda mais a pressão sobre o CEO da Novartis, Vas Narasimhan, e sua estratégia de fusões e aquisições para fortalecer o portfólio de produtos da empresa.

A Novartis reiterou suas projeções para o ano todo e afirmou que continua esperando um crescimento de vendas a uma taxa anual de 5% a 6%, entre 2026 e 2030. No entanto, especialistas disseram que essa meta agora será considerada inatingível devido a estas duas falhas consecutivas.

“As preocupações com o crescimento pós-2030 provavelmente ressurgirão”, diz o analista Michael Leuchten, do banco Jefferies.

Na Bolsa suíça, as ações da Novartis registram alta de 3,4% em 2026, e de 9,8% no acumulado de 12 meses. Em Nova York, os papéis sobem 0,8% no ano, e 8% na base anualizada. A Novartis tem valor de mercado de US$ 285 bilhões.