O encontro deste ano do Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês), aberto na segunda-feira, 19 de janeiro, em Davos, na Suíça, está carregado de simbolismos. De um lado, vai oferecer ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o palco ideal para consolidar seu golpe final contra o multilateralismo que marcou a geopolítica global no pós-Segunda Guerra.

De outro, deve reforçar a perda de relevância do fórum de Davos, que após a edição do ano passado viu seu idealizador, presidente executivo e principal articulador, Klaus Schwab - economista alemão que fundou o WEF em 1971 - renunciar após denúncias internas que renderam a abertura de uma investigação sobre malversação de fundos e assédio a funcionárias.

Durante décadas, Schwab atraiu a elite econômica e política mundial para a pequena vila nos Alpes suíços com o objetivo de debater a integração global e as mudanças climáticas, entre outros temas multilaterais. Após investigações, Schwab foi inocentado. Ele foi substituído por Larry Fink, CEO da gigante de investimentos americana BlackRock e considerado mais próximo a Trump.

O próprio tema escolhido para liderar os debates da 56ª edição do Fórum Econômico Mundial, “Um Espírito de Diálogo”, soa estranho para o momento de incerteza geopolítica que vive o mundo, marcado pelo protecionismo comercial e ambições territoriais do presidente americano.

Na apresentação da agenda deste ano do Fórum, os organizadores justificaram o tema como necessário para discutir “o cenário geopolítico mais complexo em décadas, marcado pela crescente fragmentação e rápidas mudanças tecnológicas".

Mas a evidente preocupação em bajular o presidente americano, que vai levar uma numerosa comitiva e discursa na quarta-feira, 21 de janeiro, mostra que o evento deste ano promete ser bem diferente.

Em vez de promover um diálogo franco sobre propostas opostas, o programa oficial deixou em segundo plano a agenda sustentável das empresas e deu destaque a temas mais afeitos aos interesses de Trump, como inteligência artificial e criptomoedas.

Por oferecer a empresários e políticos de 130 países uma excelente oportunidade de interagir com Trump, o evento deste ano promete ser o mais concorrido dos anteriores. Em sua 56ª edição, que vai até sexta-feira, 23, o Fórum Econômico Mundial  deverá contar com cerca de 3 mil participantes, incluindo 65 chefes de Estado e 850 executivos de grandes empresas.

Confirmaram presença Jensen Huang, CEO da Nvidia, Jamie Dimon, CEO do J.P. Morgan Chase, e Satya Nadella, CEO da Microsoft, entre outros executivos de peso. Apesar da diminuição da importância das mudanças climáticas no fórum, Al Gore, ativista climático e presença constante em Davos, também estará presente.

Mohamed Kande, presidente global da PwC, com sede em Washington, explicou o motivo da expectativa com a presença de Trump – que no ano passado discursou por videoconferência: “Os EUA continuam sendo o principal destino para investimentos; as pessoas respeitam os fundamentos da economia e os fundamentos das empresas do país.”

Escalada de tensão

Os dias que antecederam a abertura do fórum foram marcados pelo aumento de tensão entre os EUA e os líderes europeus por causa da promessa do presidente americano de tirar da Dinamarca a soberania sobre a Groenlândia.

Trump ameaçou no fim de semana anterior ao início do evento implementar uma onda de tarifas crescentes a partir de 1º de fevereiro sobre países europeus - Dinamarca, Suécia, França, Alemanha, Holanda, Finlândia, Grã-Bretanha e Noruega - que na semana passada enviaram um pequeno contingente de militares para reforçar a segurança da ilha no Ártico.

Os europeus reagiram de uma forma dura nunca vista antes na relação com os EUA, de quem são parceiros na Otan, a aliança militar atlântica. Uma das opções aventadas é a de baixar um pacote de tarifas sobre 93 bilhões de euros (US$ 108 bilhões) em importações americanas, que poderia entrar em vigor automaticamente em 6 de fevereiro.

Outra opção, esta dos países da União Europeia, é invocar o Instrumento Anticoerção (ACI) , que nunca foi utilizado e que poderia limitar o acesso a licitações públicas, investimentos ou atividades bancárias, ou restringir o comércio de serviços, área em que os EUA têm superávit com o bloco, inclusive em serviços digitais.

O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, chegou a pedir uma “discussão calma entre os aliados”, acrescentando que não acreditava que Trump estivesse considerando uma ação militar para tomar a Groenlândia.

Na segunda, 19, Trump deu mostras de que pretende ir até o fim para anexar a ilha. Em uma carta ao primeiro-ministro norueguês, Jonas Gahr Store, divulgada em sua rede social, avisou: "Considerando que seu país decidiu não me conceder o Prêmio Nobel da Paz por ter impedido mais de oito guerras, não me sinto mais obrigado a pensar apenas na paz, embora ela sempre seja predominante, mas agora posso pensar no que é bom e apropriado para os Estados Unidos da América."

O Comitê Nobel norueguês irritou Trump ao conceder o Prêmio Nobel da Paz de 2025 à líder da oposição venezuelana, María Corina Machado. Ela entregou sua medalha a Trump na semana passada, durante uma reunião na Casa Branca, embora o Comitê Nobel tenha afirmado que o prêmio não pode ser transferido, compartilhado ou revogado.

Em sua mensagem, Trump também repetiu sua acusação de que a Dinamarca não pode proteger a Groenlândia da Rússia ou da China. "Por que eles teriam um 'direito de propriedade', afinal?", escreveu ele, acrescentando: "O mundo não estará seguro a menos que tenhamos controle total e completo da Groenlândia."

Após a divulgação da carta, as ações europeias caíram na segunda-feira, enquanto o dólar recuou com a busca dos investidores por moedas consideradas refúgio seguro. O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, ajudou a elevar a tensão, ao afirmar "que todos deveriam acreditar na palavra do presidente".

Bessent adiantou que Trump deve usar seu pronunciamento de quarta, em Davos, para fazer um balanço do ano e falar sobre seus planos para o futuro. Ele enfatizou que Trump deixará claro que "América Primeiro" não significa apenas a América, afirmando que o presidente americano demonstrará "como é a liderança americana no mundo".

Daí a expectativa de que Trump aproveite a plateia lotada de chefes de governo – incluindo os europeus – para fazer um novo anúncio impactante, como, por exemplo, a efetiva anexação da Groenlândia. Uma eventual intervenção militar americana na ilha significaria, na prática, o fim da Otan.

Precavidos, os líderes da UE discutirão suas opções em uma cúpula de emergência em Bruxelas agendada para quinta-feira, um dia depois do discurso de Trump. A depender da evolução da crise, o fórum de Davos corre o risco de terminar na sexta-feira, 23, mergulhado no ostracismo.