O chairman e sócio sênior do BTG Pactual, André Esteves, está otimista com as perspectivas do Brasil no curto e longo prazo. No entanto, a dúvida que fica é se os benefícios serão pontuais ou definitivos. E o final depende de como o País lida com as questões internas.

Em painel no evento Global Managers Conference, promovido pela BTG Pactual Asset Management na manhã de terça-feira, 31 de março, Esteves falou sobre a perspectiva de retomada do fluxo de investidores estrangeiros com o fim da guerra no Oriente Médio, o impacto positivo das commodities e a neutralidade do País no cenário global.

Ao mesmo tempo, voltou a bater na tecla da necessidade de ajuste fiscal e trouxe um novo tema para a mesa: a necessidade de fortalecer a institucionalidade.

Acompanhe, abaixo, os principais pontos abordados por Esteves:

Fluxo no curto prazo, commodities no longo

Segundo ele, no curto prazo, o Brasil deve voltar a se beneficiar do fluxo de recursos internacionais para mercados emergentes, visto antes da guerra no Oriente Médio, responsável pelos recordes do Ibovespa nos últimos meses.

Para Esteves, esse fluxo deve ser retomado assim que “a poeira baixar”, avaliando que os Estados Unidos não devem prolongar o conflito, muito menos invadir o Irã.

Ele destacou que a guerra foi mais um fator que arranhou a imagem americana, um dos fatores que fizeram os gestores reduzirem suas posições no país, além dos valuations elevados e dúvidas que começaram a pairar a respeito dos efeitos da inteligência artificial (IA) nos negócios e na economia.

“Essa guerra e o comportamento da comunidade internacional sugerem que esse certo mal-estar com os Estados Unidos, ele não vai embora. Ao contrário, ele se ampliou. Quando a poeira baixar, eu acho que a trend anterior [fluxo para mercados emergentes] vai ser retomada, talvez até com mais intensidade”, afirmou.

Quando olha mais adiante, Esteves mostra muito otimismo com o Brasil e a América Latina. Para ele, a região está bem posicionada para atender às necessidades globais por produzir um grande volume de commodities a custos baixos, sejam agrícolas, minerais ou energéticas. No caso do Brasil, soma-se o fato de o País ter boas relações com todos os polos de poder que estão se formando, permitindo escapar dessa divisão que ocorre no mundo.

“Tem uma estatística de que eu gosto muito: se você olhar o crescimento do consumo de alimentos do mundo nos próximos 20 anos, 80% será servido pelo Brasil”, disse. “É um tremendo soft power. Você conversa com qualquer senior officer na China ou no Oriente Médio, você vê que todo mundo está preocupado com segurança alimentar.”

Eleições e ajuste fiscal

Esse posicionamento independe de qual governo assumirá o Planalto nesta ou nas próximas eleições. Esteves disse que a escolha do novo presidente não é tema entre os investidores estrangeiros, destacando, inclusive, que o País tem conseguido avançar nas reformas necessárias.

No tema das reformas, ele entende que mudanças podem ser bem recebidas pela população caso sejam bem comunicadas. Um fator relevante é o fato de a população pender cada vez mais para a direita. “Quando você está a favor da gravidade, é fácil fazer as coisas. E o Brasil tem enormes distorções”, afirmou.

Dentre as mudanças que entende que ainda precisam ser endereçadas, está a questão dos gastos públicos, sobretudo aqueles ligados à Previdência.

“O Brasil é o único país no mundo em que o sujeito é aposentado e tem ganho de produtividade de 2,5%. Isso não tem na França, na Noruega, nas social-democracias. Vamos ter nós aqui, que somos mais pobrinhos. Não tem o menor sentido”, disse.

Brasil institucional

Além dos gastos públicos, Esteves entende que o Brasil precisa avançar na defesa da institucionalidade. Na esteira dos casos Banco Master e Reag, além da revelação da presença do crime organizado no segmento de distribuição de combustíveis, o chairman do BTG Pactual disse que o tema não pode mais ser subestimado.

“Existe uma certa guerra entre o Brasil institucional contra o Brasil não institucional”, disse. “Como é que pode o mercado de combustíveis no Brasil ter se tornado 20% informal? É um mercado controlado, tem regulador, tem uma agência, tem controle na boca da bomba. Como é que pode isso ter acontecido? Como é que pode um banco pequeno criar um rombo de R$ 50 bilhões no FGC e fazer um desfalque de R$ 12 bilhões em um banco público?”

Segundo Esteves, a extrapolação da não institucionalidade leva a exemplos de México e Rússia, em que o crime organizado e o descumprimento sistemático de regras resultam em ambientes de negócios ruins.

“Para ter desenvolvimento de verdade, você precisa de regras, você precisa que a lei valha para todos, que o jogo seja feito dentro das quatro linhas. Precisa que a previsibilidade, não só econômica ou política, também seja do lado da aplicação das leis. E eu acho que esse aspecto é altamente relevante e muito subestimado”, afirmou.