A IA generativa vai matar o software? O tema ganhou relevância com a queda das ações das empresas da área neste ano.  O ETF iShares Expanded Tech-Software (IGV), proxy de empresas de software, acumula queda de 26,5% no ano.

Mas os temores não se restringem ao mercado de ações. O otimismo também já não é mais o mesmo no mercado de crédito privado, que acumulou alta exposição ao setor nos últimos anos.

Com muitos desses créditos originados no início da década próximos da data de vencimento, grandes gestoras de crédito privado estariam subestimando a real exposição a empresas de software em seus documentos oficiais, segundo reportagem do The Wall Street Journal (WSJ).

A análise foi baseada nos portfólios de crédito da Blackstone, Blue Owl Credit Income, Ares Capital e Apollo Debt Solutions — firmas que, ao todo, fazem a gestão de mais de US$ 2 trilhões.

A discrepância, segundo o WSJ, é próxima de 25% em relação aos números divulgados. A maior diferença está nos valores reportados pela Blue Owl Credit Income, que diz ter 11,6% do portfólio exposto a empresas de software. A análise indica ser quase o dobro.

A Blackstone, por sua vez, é a que possui maior concentração, com cerca de 33% em dívidas do setor, 7,5% a mais do que o divulgado pela empresa.

Para a análise, o WSJ utilizou classificações setoriais do provedor de dados PitchBook e sua própria análise para identificar empresas de software dentro das carteiras de crédito privado.

Fontes informaram que não é uniforme a forma como as gestoras classificam cada empresa por setor. Uma companhia de software que presta serviços ao setor de saúde, por exemplo, poderia ser inserida nessa categoria devido à dependência da indústria.

A alta exposição a empresas de software foi acompanhada de um forte crescimento dos fundos de crédito, o que também tem chamado atenção para a qualidade das dívidas originadas.

Desde 2021, os grandes fundos de crédito dessas gestoras saltaram de cerca de US$ 20 bilhões, em 2021, para quase US$ 175 bilhões, no fim de 2025.

Um relatório da Standard & Poor’s estima que 20% das dívidas do setor estejam para vencer nos próximos dois anos e que companhias mais “frágeis” ou “facilmente” disruptivas terão dificuldade de refinanciar suas dívidas.

Para empresas com crédito a vencer em quatro anos ou mais, que representam cerca de 40% da dívida total do setor, a agência de classificação de risco tampouco projeta um cenário fácil.

“O cenário do setor de software pode ser significativamente diferente até lá, o que pode dificultar o refinanciamento para empresas tradicionais caso não façam mudanças relevantes em suas ofertas de serviços”, afirma a S&P.

Essa preocupação, segundo a S&P, está presente no mercado desde o ano passado, mas tem sido realçada a partir de lançamentos de ferramentas de IA com potencial de ameaçar empresas de software.

Uma delas é a Claude Cowork, da Anthropic, que é capaz de automatizar diversas etapas de tarefas intelectuais diretamente no computador dos usuários. No dia de seu lançamento, na semana passada, o ETF iShares Expanded Tech-Software, caiu 4,3%. Na semana, a queda foi de 7,3%.

Apesar da crescente preocupação, a S&P acredita que a disrupção do setor pela IA será “complexa e cheia de nuances”.

Para empresas menos reguladas, a agência estima que as ferramentas de IA podem ser implementadas de forma mais simples, e softwares legados que dão suporte a esses negócios tendem a enfrentar maior risco de substituição.

Já em setores regulados, que lidam com dados sensíveis e estão sujeitos a estruturas legais, a S&P espera que a adoção da IA seja mais cautelosa e lenta.

Segundo a agência de classificação de risco, empresas de software continuam apresentando crescimento saudável e ganhando mais upgrades do que downgrades em suas classificações de risco — o que afasta um risco de colapso imediato.

“No entanto, é importante destacar que nossas estimativas de crédito são baseadas em performances históricas. Reconhecemos que o ritmo acelerado de desenvolvimento da inteligência artificial provavelmente irá remodelar a dinâmica competitiva no mercado de crédito direto voltado ao setor de software”, diz a S&P.