Anestesiado pelo ingresso de R$ 53,4 bilhões de investidores estrangeiros para aplicação em ações na B3 neste ano – melhor resultado trimestral desde 2022, quando, segundo a consultoria Elos Ayta, R$ 65,3 bilhões aportaram na bolsa – o mercado acompanha a estreia do Brasil em “novo” calendário, a partir de domingo, 5 de abril.

No sábado, 4 de abril, termina o prazo para a desincompatibilização de cargos executivos de futuros candidatos às eleições. Ministros, governadores, prefeitos e parlamentares decididos a mudar de posto já aquecem os motores para o pleito em outubro.

Deflagrado pelo presidente Lula na reunião ministerial de terça-feira, 31 de março, o rodízio em cargos relevantes – agora ocupados por secretários-executivos – passa ao largo da população. Mas é monitorado em detalhe pelo mercado financeiro porque as substituições ocorrem em um momento singular da economia, exposta aos efeitos da guerra no Oriente Médio e pela via mais sensível: o bolso do cidadão.

A reestruturação do Executivo com a troca de 18 ministros era esperada, mas é ponto de atenção dado o esforço do governo Lula para viabilizar rapidamente duas iniciativas: conter o impacto do preço do petróleo e dos fertilizantes, que pode encarecer a “mesa” do brasileiro, e facilitar a renegociação de dívidas – uma grave, mas não recente, fratura no orçamento das famílias que afeta a popularidade do presidente. O comprometimento da renda com dívidas supera 29% desde outubro passado.

“A desincompatibilização de cargos é um ‘corte’ no calendário, mas não um novo momento do governo Lula. Os substitutos de ministros são técnicos e estavam a par de importantes diretrizes em curso. Concordavam com as políticas e acompanhavam os titulares das pastas”, diz Leandro Consentino, doutor em Ciência Política e Relações Internacionais, professor do Insper há mais de uma década.

Quando questionado pelo NeoFeed sobre eventual adoção de medidas – populistas ou não – pelo governo nos próximos meses para atrair eleitores à reeleição de Lula, Consentino diz não ver à frente um “cavalo de pau,” ou uma guinada de 180 graus.

“Movimento relevante, só em uma situação inesperada em que os novos titulares, agora com o manche na mão, podem vir a fazer correções de rumo. Via de regra, os substitutos seguirão a orientação dos antecessores, inclusive por não terem peso político relevante a ponto de bancar grandes mudanças”, explica o professor.

Apesar da expectativa quanto à possibilidade de o governo lançar mais medidas econômicas, o mercado segue anestesiado sob a enxurrada de capital estrangeiro que, embora tenha desacelerado nas últimas semanas, mira o recorde histórico de R$ 100 bilhões alcançado em 2022 inteiro.

Nesse contexto confortável, bancos e consultorias focam sobretudo em projeções para a inflação decorrente da guerra e eventual “atraso” em cortes de juro pelo Banco Central.

“Flávio não é Jair e PT tem a máquina na mão”

Revisões de cenários na passagem do primeiro para o segundo trimestre elevam estimativas para o IPCA e, por consequência, para a Selic. A inflação esperada para este ano pelos três maiores bancos privados do País – Itaú, Bradesco e Santander – passou de 3,70% a 3,80% para 4,30% a 4,50%. Para 2027, ultrapassam 4%.

Para a Selic, as projeções subiram cerca de 0,50 ponto percentual sobre indicações anteriores à guerra no Oriente Médio, agora agravada pelo frustrante pronunciamento de Donald Trump à Nação, indicando que a batalha continua. O intervalo das apostas para a taxa básica passou a 12,50% - 13% para 2026 e a 9,5% - 12% para 2027. Para o câmbio, a visão dos grandes bancos segue estável entre R$ 5,50 e R$ 5,60 para dezembro próximo, e para o final de 2027 entre R$ 5,60/R$ 5,70.

Para o Produto Interno Bruto (PIB), as estimativas de expansão não sofreram alterações e seguem modestas entre 1,5% e 1,9% para este ano e 1% a 2% para 2027. A perspectiva para a política fiscal tampouco passou por ajuste relevante. Isto é, a meta de 0,25% do PIB de superávit este ano deverá ser cumprida com o uso da margem de tolerância de 0,25 ponto para mais ou para menos do ponto central.

“Essas previsões não sugerem que o País está sob um alerta vermelho na economia, ainda que a inflação preocupe pelo petróleo salgado. Há, sim, um sinal amarelo e de fundo político no Planalto porque a disputa de Lula com Flávio Bolsonaro parecia mais fácil no início do ano”, observa o professor do Insper, para quem, apesar da perspectiva de disputa acirrada nas urnas, o governo tem vantagens.

“Flávio não é Jair Bolsonaro, não tem o carisma do pai e tem telhado de vidro que será explorado durante a campanha. O Planalto está preparado para isso. Mas ainda mais relevante é que o PT tem a máquina pública na mão e, nessa condição, nunca perdeu uma eleição”, recorda Consentino, que alerta para a necessidade de o mercado financeiro acompanhar os caciques políticos, os partidos e os interesses daqueles que acabam de deixar cargos executivos.

“A votação é em outubro, mas já estamos na eleição e a caminho das convenções partidárias – entre 20 de julho e 5 de agosto – que escolherão os efetivos candidatos às urnas. Neste ano, as convenções acontecerão na esteira da Copa do Mundo”, lembra o professor, que não deixa de considerar a Copa um ponto de distração no cenário eleitoral.

“Até por esse motivo, o dia a dia merece atenção por pontuar questões relevantes”, reforça Consentino. “Com Alckmin vice na chapa de Lula e Haddad disputando o governo de São Paulo, quem formará a linha de frente no Senado? Simone Tebet, Marina Silva, Gleisi Hoffmann? Sinalizações como essas são muito importantes para se compreender qual horizonte se desenha para um possível próximo governo.”