Entre prédios de linhas retas e fachadas previsíveis, uma esfera metálica pousa sobre uma construção entre a rua Amauri e a avenida Faria Lima, no burburinho do Itaim Bibi. Desenhada pelo arquiteto Eduardo Longo na década de 1970, a Casa Bola permanece como um lembrete de que a arquitetura é um lugar de invenção e de projetos de futuro.
É nesse espaço improvável que acontece a quinta edição da Aberto, projeto do art advisor Filipe Assis que transforma residências singulares em locais temporários de exposição, deslocando a arte para fora dos cubos brancos de museus e galerias.
“Essa vai ser a maior Aberto de todas”, afirma Assis ao Neofeed. Além da Casa Bola — que pode ser entendida também como uma obra da exposição —, a mostra ocupará três andares 180 m² cada de uma galeria projetada por Longo e integrada ao mesmo complexo arquitetônico.
“Queremos contar um pouco de outros projetos que ele realizou, além da Casa Bola, apresentando desenhos, fotografias e maquetes”, destaca Assis. Esses trabalhos compõem um núcleo dedicado à produção de Longo, organizado pelo curador Fernando Serapião.
“Eu estava meio morto”, diz Longo, anos 83 anos, sem rodeios, em conversa com a reportagem. “Fiquei muito tempo preso ao projeto da Casa Bola, tudo muito folclórico, mas desacreditado.” Agora, ao ver a casa novamente ocupada e discutida, observa: “Aliás, a Bola nunca fez tanto sucesso como hoje.”
A exposição se constrói em relação aos projetos de Longo. “Estamos privilegiando um diálogo muito intenso com a Casa Bola — seja pelo humor, pela materialidade ou pelas formas”, explica Assis.
Com cerca de 90% das obras comissionadas especialmente para a exposição, a quinta edição reúne aproximadamente 60 trabalhos de 50 artistas, entre eles Sandra Cinto, Luiz Zerbini, Letícia Ramos, Iole de Freitas, Marepê e Carlito Carvalhosa.
A mostra também aborda um tema sobre o qual o arquiteto reflete há décadas: o espaço público. Quinze esculturas devem ocupar o canteiro central da avenida Faria Lima, no trecho entre as ruas Gabriel Monteiro da Silva e Adolfo Tabacow.
“Estamos expandindo a exposição para o espaço urbano para mostrar a arte a quem não necessariamente está à procura dela ou que nem sempre tem familiaridade com o assunto, mas que pode ter contato com as obras nesse percurso”, diz Assis.
Uma viagem ao subconsciente
Era o início dos anos 1970. O escritório de Eduardo Longo prosperava, com projetos de casas icônicas para famílias de alto poder aquisitivo. Mas uma “viagem” ao subconsciente o levou a repensar o que vinha produzindo.
“Eu fiz uma viagem ao subconsciente a partir do uso de um produto chamado Cannabis sativa, que eu utilizava para refletir sobre tudo isso”, lembra o arquiteto, em tom de brincadeira, sem esconder o fato.
Reconhecido por uma arquitetura de caráter escultórico, marcada pela ousadia formal e pelo uso intenso de materiais como madeira, argamassa e ferro, Longo passou então a se perguntar o que poderia fazer empregando menos matéria.
A questão se impôs a partir de um projeto que havia desenhado para um terreno cujas dimensões acabaram sendo reduzidas, tornando-o menor do que aquele para o qual havia concebido a construção.
“Nenhum volume é mais leve ou mais econômico do que a esfera”, afirma. “Habitar uma forma como essa, no entanto, era um desafio — algo verdadeiramente inusitado.” Tão inusitado que o arquiteto decidiu ele próprio enfrentar o experimento.
Contrariando a família — sobretudo a esposa e o pai, a quem se refere, em tom bem-humorado, como “grandes inimigos da história” —, Longo fechou o escritório para se dedicar integralmente à ideia.
Era uma casa muito engraçada
A primeira versão da casa foi pensada como uma estrutura provisória coberta com lona. Mas um amigo que trabalhava na construção de barcos lhe apresentou um material capaz de sustentar paredes finas e curvas: a argamassa armada, usada na fabricação de cascos de navios.
Com oito metros de diâmetro, a esfera abriga três quartos, cozinha, sala, banheiros e lavanderia. E, como não poderia deixar de ser em uma casa onde todas as superfícies são curvas, Longo projetou também o mobiliário – incluindo a geladeira.
“Quando tive a ideia da bola, foi algo quase místico”, lembra. “Recebi a certeza de que aquele seria o módulo de habitação do futuro.” Ele imaginava, mais adiante, montar uma indústria que fabricaria e entregaria casas bolas pelo mundo.
No fim, porém, construiu apenas uma segunda unidade: a do próprio pai, que se rendeu ao projeto e pediu que o arquiteto desenvolvesse uma versão da casa para ele, no bairro do Butantã.
Longo tentou vender a habitação modular, que permitiria a construção de edifícios a partir de módulos esféricos. “Aqui, muitas pessoas me diziam: ‘Isso deve ser muito bom para o Japão, porque lá falta espaço’. Eu fui ao Japão apresentar a ideia e eles diziam: ‘Ah, isso deve ser muito bom para o Brasil, porque vocês têm bastante espaço’”, recorda.
“A coisa fracassou até hoje”, lamenta, ponderando que não foi o único a pensar em casas redondas. Quase na mesma época, entre 1980-1984, foi construído na Holanda o Bolwoningen, conjunto de casas esféricas projetado pelo artista e escultor holandês Dries Kreijkamp.
Embora o projeto tenha fracassado do ponto de vista comercial, a Casa Bola marcou um ponto de virada em sua trajetória. “O princípio do não desperdício ficou profundamente incorporado em mim. Deixei de ser um arquiteto escultórico para me tornar um arquiteto racionalista”, ressalta.
O arquiteto passou a recusar projetos que exigissem começar do zero e passou a se dedicar às reformas de construções existentes. Sob sua própria casa, realizou experimentos urbanísticos radicais: abriu uma passagem com galeria comercial que conectava as ruas Amauri e Peruíbe. Um atalho improvável que permaneceu aberto, dia e noite, por 15 anos.
“Hoje em dia, penso muito menos em projetos ligados à Casa Bola e muito mais em urbanismo, em como liberar o solo para passagens e promover a mistura entre o público e o privado”, afirma. Após a realização da Aberto, Longo planeja manter a galeria aberta para receber mostras temporárias, reabrir a passagem entre as ruas, além da visitação da Casa Bola.