Berlim  Mike Figgis atribui às “limitações financeiras” parte do triunfo de Despedida em Las Vegas (1995), um dos filmes mais emblemáticos do boom do cinema independente dos anos 90. A obra, que completa o seu 30º aniversário com projeção de cópia restaurada nesta 76ª Berlinale, provou que uma produção de baixo orçamento podia ser sucesso de crítica e público e, de quebra, levar um Oscar.

“A falta de dinheiro se revelou uma bênção aqui, por restringir as minhas escolhas”, contou o diretor inglês Mike Figgis ao NeoFeed, no Grand Hyatt hotel, o coração do festival de cinema alemão a ser encerrado amanhã, no domingo, 22. Responsável pelo único Oscar de melhor ator recebido por Nicolas Cage, Despedida em Las Vegas é uma das atrações da Berlinale Classics, mostra dedicada à preservação e à história do cinema.

“Eu não tive orçamento para colocar a câmera em trilhos ou mesmo para ter um guindaste no set. E também não podia gastar muito com iluminação. Todo o nosso equipamento cabia em uma van”, recordou Figgis, rindo. “Até o nosso cronograma de filmagem, que era apertado, precisou ser seguido à risca, já que não dava para estender nossa presença nas locações alugadas.”

Mas tudo isso contribuiu para a construção de um drama tão realista quanto intimista sobre o encontro de duas almas perdidas em Las Vegas. Ele (Cage) é um roteirista alcoólatra que desembarca na “Cidade do Pecado” para “beber até morrer”. E ela (Elisabeth Shue) é uma prostituta cansada de ser humilhada por seu cafetão. O romance, no entanto, está fadado ao fracasso — até porque ambos são emocionalmente frágeis, o que mais os aproximou.

Como Figgis só tinha US$ 4 milhões para contar a história, o cineasta optou por utilizar câmera de mão e rodar em 16mm. O formato é mais econômico que o de 35mm, no qual as imagens são mais nítidas e com mais detalhes. Como o fotograma é menor em 16mm, a emulsão fotoquímica se torna mais visível, com uma textura mais granulada, o que confere uma qualidade nostálgica ao filme.

Essas “escolhas orçamentárias” do diretor acabaram criando uma experiência mais intensa para os atores, abusando dos espaços fechados e dos closes, e mais voyeurística para o espectador. É como se o público espionasse os momentos mais íntimos e, muitas vezes, desesperadores, do casal.

E o resultado foi um retrato cru e honesto da autodestruição humana, um contraste com o que se fazia no cinema mainstream da época. “A minha visão expressava, de certa forma, uma raiva da mesmice vigente. Hollywood costumava amenizar filmes sobre vícios com a redenção dos personagens, algo que eu não permitiria aqui”, disse Figgis.

Foi assim que o cineasta surpreendeu toda a indústria, principalmente quando o seu filme arrecadou quase US$ 50 milhões de bilheteria e ainda conquistou quatro indicações ao Oscar. Além da estatueta conquistada por Cage, Figgis concorreu nas categorias de melhor direção e roteiro adaptado (a partir do livro homônimo, de John O’Brien) e Elisabeth Shue brigou pelo troféu de melhor atriz.

Por causa do orçamento apertado, Figgis acabou criando uma experiência mais intensa para os atores, abusando dos espaços fechados e dos closes, e mais voyeurística para o espectador (Foto: imdb.com/© Initial Films 1995)

O restauro de obras-primas, como "Casablanca", é tão importante para a preservação da história do cinema que os grandes festivais dedicam mostras dedicadas à exibição de cópias recuperadas (Foto: themoviedb.org)

A restauração digital de "O Iluminado" foi criticada pelos críticos: o processo destruiu a atmosfera mais sombria estabelecida pelo cineasta Stanley Kubrick (Foto: themoviedb.org)

Para garantir que o espectador de hoje tenha a mesma experiência proporcionada no lançamento de Despedida em Las Vegas, o diretor supervisionou a restauração. Ainda sem data para estrear no Brasil, a nova cópia foi recuperada digitalmente, escaneada em 4K, a partir do negativo original em 16mm, na empresa Silver Salt Restoration, no Reino Unido.

“Queria ter certeza de que as imagens mais escuras do filme, que criam a atmosfera de isolamento, em contraste com as luzes cintilantes de Las Vegas, fossem mantidas assim. Todas as sombras foram escolhas que eu fiz”, contou o cineasta, avesso à tendência de deixar as cores mais vibrantes nas restaurações.

“O fato de o controle de cor na restauração digital ser incrível não é motivo para exagerarmos, deixando o filme brilhante”, completou ele, referindo-se principalmente a restaurações de filmes de Stanley Kubrick, como De Olhos Bem Fechados (1999) e O Iluminado (1980). Nos dois casos, os críticos também reclamaram que o processo destruiu a atmosfera mais sombria estabelecida por Kubrick.

A restauração digital de filmes clássicos é realizada fundamentalmente para preservar as obras consideradas patrimônios do cinema — daí os mais importantes festivais do mundo, como Cannes, Veneza e Berlim, dedicarem uma mostra a esses títulos.

O processo inclui reparar e melhorar as condições, seja removendo sujeiras, arranhões e manchas ou corrigindo cor, contraste e brilho em filmes desbotados.

Ao ser restaurado, Despedida em Las Vegas entra para um clube de obras-primas que também foram “resgatadas” digitalmente. Entre elas, Cidadão Kane (1941), Casablanca (1942), Um Corpo que Cai (1958), Lawrence da Arábia (1962), Um Estranho no Ninho (1975) e Apocalypse Now (1979).

“Quando olho para trás, reconheço que o meu eu jovem se deu muito bem”, brincou Figgis, atualmente com 77 anos. De todas as escolhas que fez, uma das que mais se orgulha foi ter trazido Nicolas Cage para encabeçar o elenco, embora muitos tenham tentado fazê-lo mudar de ideia.

“Diziam que Cage era um tipo pateta demais para um papel tão dramático”, comentou o diretor, que foi o responsável pela redefinição de Cage como ator. Foi depois do alcoólatra que ele conseguiu construir uma reputação de ator sério.