Se o grafiteiro Banksy for mesmo o inglês Robin Gunningham, não é apenas um nome que vem à tona. É o desmonte de um dos pilares do trabalho do artista de rua mais famoso do mundo: o anonimato. Raros usaram o mistério em torno da própria identidade com tanta veemência quanto ele.
Ao longo da última semana, críticos, galeristas, acadêmicos e artistas debateram o impacto da revelação da agência Reuters sobre as obras e o legado do artista. Sem a incógnita, o mito resiste?
Ainda é cedo para dizer. Mesmo porque, por intermédio de seus advogados, Banksy negou ser quem estão dizendo que ele é. Aliás, não é a primeira vez que Gunningham é associado ao grafiteiro. Em 2008, o jornal The Mail já havia levantado essa suspeita.
Desde então, o artista teria trocado de nome, passando a se chamar David Jones, um nome bem mais comum no Reino Unido. Assim, seria mais mais fácil ficar fora do radar. E ficou.
“Não tenho nenhum interesse em me revelar", disse ele em 2006. "Acho que já existem idiotas presunçosos o suficiente tentando enfiar suas caras feias na sua frente.”
O NeoFeed teve acesso a uma troca de mensagens entre um artista brasileiro e um grafiteiro britânico, cuja identidade inclusive já foi apontada como sendo de Banksy.
"Não parece muita novidade, apenas mais escavações. Não acho que o público ou os fãs de Banksy estejam interessados", escreveu o britânico. "Ele não vai se pronunciar publicamente e continuará brincando de gato e rato :)"
Banksy "nasceu" no início dos anos 1990, na cena alternativa de Bristol, cidade no sudoeste da Inglaterra, de onde Gunningham é. Com humor e sarcasmo, poesia e acidez, suas obras denunciam as injustiças, desigualdades e violências.
Zombando do establishment, o artista subversivo foi parar nas galerias, museus e casas de leilão, onde seus trabalhos alcançam preços altíssimos. E há de se considerar que o anonimato tende a funcionar como multiplicador de valor.
"Sua habilidade, combinada com sua identidade secreta e a discrição que envolve sua prática, ajudaram a impulsionar sua reputação e o interesse do mundo da arte", lê-se em artigo de 2019, da revista The Harvard Gazette.
O anonimato também é uma forma de proteção. No Reino Unido, por exemplo, pintar, riscar ou marcar qualquer parede ou muro sem permissão é crime, passível de multa e registro policial.
Os grafiteiros britânicos, com nome e sobrenome, frequentemente reclamam do "tratamento especial" recebido por Banksy por parte das autoridades. Mas como punir alguém cuja identidade não é conhecida?
Preservar-se incógnito é também uma decisão política do artista e uma forma de aumentar a "carga dramática" de sua produção.
Uma das performances mais emblemáticas de Banksy aconteceu em 2018. A réplica da obra Garota com balão foi arrematada por £ 1,04 milhão em um leilão da Sotheby 's.
No momento em que o martelo soou, o trabalho foi picotado por um triturador instalado atrás da peça. Só não foi completamente destruído porque a engenhoca travou.
Enquanto isso, Banksy comentava o ocorrido nas redes sociais. Ficou evidente que o grafiteiro conta com uma rede de apoio ao seu anonimato.
Três anos depois, em 2021, a mesma obra, agora em pedaços, rebatizada como O amor está no lixo, foi revendida por £ 18,6 milhões. E, em 2024, em um leilão em Los Angeles, uma reprodução saiu por £ 80 mil libras, mostrando uma valorização meteórica em poucos anos.
No total, as obras de Banksy angariaram quase US$ 250 milhões no mercado secundário desde 2015, segundo dados da consultoria inglesa ArtTactic.
Na teoria, segundo a Reuters, o artista recebe apenas uma fração do valor das vendas. Porém, fontes da agência afirmam que Banksy organiza vendas privadas para colecionadores que podem lhe proporcionar milhões de dólares diretamente.
Na contas da agência de notícias, sete empresas foram diretamente ligadas a Banksy ao longo dos anos, além de ao menos duas outras companhias conectadas ao artista por meio de seus advogados.
O negócio central é a Pest Control Office, empresa incorporada em 2008 à empresa-mãe, Picturesonwalls Limited. Ela tem a função de autenticar as obras e gerir sua operação comercial. A sua controladora, a Picturesonwalls, já foi dona de uma galeria em Londres.
A valorização dos ativos do artista foi gigante. O primeiro balanço financeiro da Pest Control Office, divulgado em 2009, mostrou montante de £ 243 mil. Em 2015, esse valor cresceu para £ 2,7 milhões. O relatório de 2024 revela ativos líquidos de cerca de £ 5,7 milhões — sendo £ 4,4 milhões em caixa.
"Vocês nunca vão encontrá-lo"
O interesse dos repórteres da Reuters surgiu após a divulgação de que Banksy havia estado em uma vila nos arredores de Kyiv, na Ucrânia, em 2022. Por lá, ele deixou uma lembrança: um desenho de um homem barbudo em uma banheira, esfregando as costas em meio aos escombros de um prédio atingido por bombas russas.
Ao ver aquela cena, foi difícil imaginar como o artista e mais dois parceiros conseguiram acessar o local, chamado de Horenka. O vilarejo estava localizado a menos de oito quilômetros de distância de Bucha, onde pelo menos 300 pessoas haviam sido mortas meses antes.
Foi essa “façanha” que deu início a toda a investigação. Nela, o nome Robert Del Naja chegou a ser uma opção bastante cotada. O vocalista da banda Massive Attack é um dos pioneiros no mundo do grafite e também deixa clara a sua insatisfação com o sistema, sempre que pode.
Além disso, coincidência ou não, sua banda parecia estar presente em todos os cenários nos quais novos grafites de Banksy apareciam.
Thierry Guetta, outro artista de rua, também entrou nessa lista de possíveis suspeitos. Porém, além de sua nacionalidade não ser inglesa, sua presença no documentário Exit Through the Gift Shop, sobre Banksy e indicado ao Oscar em 2010, o tirou do páreo.
A conclusão de que Robin Gunningham seria Banksy foi tomada após os repórteres terem acesso a um processo criminal dos anos 2000, no qual o artista foi preso em Nova York em meio a uma de suas obras. Na ocasião, ele assinou o documento de liberação com seu “verdadeiro nome”.
No fim, essa parece uma caça sem fim. “Não existe Robin Gunningham”, afirmou Steve Lazarides, ex-agente de Banksy, ao ser questionado sobre a identidade do artista pela Reuters. “Esse nome que vocês têm eu matei anos atrás. " Na vida real”, garantiu, “vocês nunca vão encontrá-lo”.