San Sebastián - Pedro Almodóvar foi um dos primeiros a reconhecer que Sirât não é apenas um filme. Em cartaz nos cinemas brasileiros, o adversário de O Agente Secreto na briga pelo Oscar de melhor filme internacional é uma experiência sensorial e transcendental como poucas já produzidas no cinema.
“Pelo roteiro, deu para perceber que o filme seria muito impactante, por ser algo praticamente nunca visto antes”, contou Almodóvar, um dos produtores que contribuiu para Sirât sair do papel. Ele abraçou o projeto com a sua empresa, a El Deseo, ajudando a financiar o que seria o representante da Espanha no Oscar, orçado em € 6,5 milhões.
“Toda a concepção é muito cinematográfica, baseada no som, na atmosfera e na atitude dos personagens. Como tantos no mundo de hoje, que não veem muitas possibilidades de existência nesta sociedade, eles embarcam em uma aventura sensorial onde tudo o que interessa é dançar”, disse Almodóvar, antes da primeira sessão de Sirât no último Festival Internacional de Cinema de San Sebastián (SSIFF), que teve cobertura do NeoFeed.
Sim, Sirât é ambientado no cenário das raves, onde uma multidão é embalada pelo som da música eletrônica, com devoção religiosa, no sul do Marrocos. A ponte de entrada nesse universo é a chegada de um pai, Luis, interpretado por Sergi López, que viaja na companhia do filho, Esteban, à procura da filha desaparecida. A jovem foi vista pela última vez em uma rave no deserto marroquino.
Depois de perguntar por todos os lados se alguém da festa viu a filha, sem sucesso, ele decide seguir de carro um grupo rumo à fronteira do país com a Mauritânia, onde uma “rave mítica” está para acontecer. Pelo caminho, pai e filho acabam criando uma conexão com os estranhos, que vivem apenas para frequentar raves, pulando de uma à outra, como se o mundo real não tivesse nada de bom para oferecer.
Em meio a muitos perigos, a jornada pelo deserto e pelas festas que duram dias se revela cada vez mais misteriosa e metafísica. É como se os personagens precisassem aprender e, mais importante, aceitar que muito da vida escapa totalmente ao controle. E, muitas vezes, da pior maneira possível.
“O filme nasceu da minha necessidade de meditar sobre a morte. Só pensando nela é que o ser humano se dá conta de quão pequeno ele é”, disse o roteirista e diretor de Sirât, o espanhol Óliver Laxe, em encontro com o público e a imprensa em San Sebastián.
A palavra que ele escolheu para o título significa, no Islã, a ponte estreitíssima sobre o fogo do inferno que todos devem atravessar no Dia do Juízo Final, se quiserem chegar ao paraíso. Daí dá para se ter uma ideia do que os personagens terão de enfrentar, tendo a música como um protagonista a mais na história, por fazer parte da construção narrativa.
“Nossos roteiros são bastante atmosféricos, com descrições dos estados emocionais e da música, o que já faz parte do nosso vocabulário no cinema”, afirmou Laxe, parceiro aqui do escritor Santiago Fillol, com quem já realizou O Que Arde (2019) e Mimosas (2016).
Indicado também ao Oscar de melhor som e vencedor de seis Goyas (O Oscar espanhol), incluindo os de melhor música original e melhor som, Sirât está dividindo em três partes, em termos de ambientação sonora. Inicialmente, o diretor emprega uma música catártica e tribal. “O foco aqui cai na batida, na pulsação, na percussão e no transe que a música muitas vezes nos proporciona”, comentou ele.
Já a segunda parte do filme ganha uma trilha mais existencialista, despertando emoções e muita melancolia, o que abre caminho para a dimensão mais espiritual do terceiro e último segmento. “É neste momento que nós nos perguntamos que diabos estamos fazendo no mundo, caindo naquele sentimento de abandono”, disse Laxe.
Ele reconhece que a música sacra ou clássica é geralmente a escolhida para acompanhar os momentos mais transcendentais no cinema. “Mas acredito que a música eletrônica oferece algo a mais por não sabermos de onde vêm os sons, já que eles não saem necessariamente de um instrumento. Ou seja, há um potencial maior aqui para evocarmos o mistério de um mundo sutil, por trás desse que conhecemos.”
E por que ambientar a história no universo das raves especificamente, tido como escapista? O que essa subcultura, que nasceu nos anos 1980, representa para você?
“Em uma sociedade onde está cada vez mais difícil ser coerente, com nossos valores alinhados com as nossas ações, sempre tive muita admiração pelos ravers”, contou Laxe, que morou dez anos no Marrocos, onde frequentava essas festas. “Eles eram os únicos que conheci lá com um interesse genuíno pelos outros. E não só isso, mas com uma capacidade de compreender os demais, sempre com generosidade”, destacou o cineasta, que só escalou ravers (e não atores) para os papéis aqui.
E ele completou: “São pessoas com antenas mais potentes. Quando dançam, transmitem seu estado emocional para todos. E, quando percebem que alguém está triste, procuram ajudar. É algo que a humanidade parece ter esquecido, apesar de até o inseto, altamente sensível aos outros da mesma espécie, fazer.