Perto do fim de uma temporada de oito meses da peça Madame Butterfly, no West End, em Londres, em setembro de 1989, o ator inglês Anthony Hopkins estava quase morrendo de tédio, segundo sua descrição. Certa manhã, antes da matinê, ele foi assistir ao filme Mississippi em chamas, com o protagonista Gene Hackman, e saiu do cinema pensando: “Eu ia adorar fazer um grande filme em Hollywood. Fiquei me perguntando se isso um dia aconteceria. Provavelmente não”.
Hopkins tinha filmado um trabalho “sem importância” com Mickey Rourke, Horas de desespero, e quando o colega-galã lhe agarrou com muita força pelo pescoço numa determinada cena, ele o empurrou e disse: “Encoste em mim assim outra vez e eu grudo o seu rosto no fundo do crânio!”. A fala era de verdade, não fazia parte do texto decorado.
Poucos dias depois, em uma tarde de quinta, ele recebeu uma ligação no telefone do teatro. “Estou com um roteiro aqui no escritório”, disse seu agente em Londres, Dick Blodgett. “É interessante. Quer ler?”, perguntou. “Sobre o que é o filme?”, perguntou o ator. “Chama-se O silêncio dos inocentes. Quem vai dirigir é um americano, Jonathan Demme. Ele é bom”. Hopkins completou: “O silêncio dos inocentes. É um filme infantil?”
Hopkins, como se sabe, não só aceitou quando soube que contracenaria com Jodie Foster, como sua interpretação alterou a rota de seu destino, com um Oscar, e o colocou na história do cinema.
Com 42 anos, só quem tinha visto o delicado e sensível Nunca te vi, sempre te amei, de dois anos antes, poderia se lembrar de um filme dele. Anos depois, ganharia o segundo Oscar, por Meu pai, de 2020, que cravou seu nome na lista dos onze de Hollywood a levar duas vezes a estatueta de Melhor Ator.
Esse episódio, que Hopkins descreve em sua autobiografia Até que deu tudo certo, em lançamento no Brasil pela Sextante, segue o tom que ele usou para contar a sua vida.
Há duas formas mais usuais de se escrever sobre si mesmo em formato de autobiografia: a do predestinado e a de quem superou todas as maiores probabilidades contrárias. Ele escolheu a segunda.
E essa opção faz toda a diferença, pois o livro apresenta um relato comovente do porquê ele tinha tudo para dar errado em qualquer carreira profissional. A começar pela escola, cujo desempenho medíocre quase enlouqueceu os pais. E ele não teve o menor pudor de se expor nesse sentido:
“Aquela estranha sensação de estar perdido, sem saber lidar com nada, permaneceu comigo durante os muitos anos de minha vida. Estou surpreso por ainda estar aqui. Não há explicação”, escreve ele, pouco antes de chegar aos 88 anos.
Quando pequeno, seu apelido na rua era “Cabeça de Elefante”, por parecer grande demais e desproporcional ao seu corpo franzino. Os pais – um padeiro e uma dona de casa – achavam que ele tinha hidrocefalia e o levaram a um conceituado médico especializado em crianças, Dr. Bray, que os tranquilizou: ele só precisava engordar um pouco.
Depois de tentar despertar o aprendizado do menino em algumas escolas, só restou a eles interná-lo em um colégio, o West Mon, mesmo que isso comprometesse as economias da família. A medida só piorava o drama de um garoto que a cada dia buscava uma forma de suportar a existência, isolando-se do mundo que não o queria bem e o maltratava de todas as formas.
Hopkins apanhava na rua, em casa e na escola, onde o espancamento por professores fazia parte do aprendizado. “Quanto mais tapa eu levava, mais eu adotava meu truque de sobrevivência, um olhar de pura insolência estúpida. Esse olhar demonstrava minha indiferença passiva a tudo aquilo que era hostil em meu entorno”, escreveu.
Até a noite em que ele e os colegas foram reunidos no auditório do internato para assistir Hamlet (1948), com Laurence Olivier, eleito o maior intérprete de Shakespeare do cinema. “Eu nunca havia sentido um impacto como esse. Era explosivo. Eu ainda não conseguia entender a estrutura de Hamlet e suas nuances”. E acrescentou: “Chorei, dominado pela representação épica de pais e mães falhos”.
Desde então, o cinema deu um sentido à sua vida. Só que levaria décadas para conseguir seu grande papel, como comentou depois de ler o roteiro de O silêncio dos inocentes. Até lá, consagrou-se no teatro, ao seguir a orientação do professor Christopher Fettes, da Real Academia, onde estudou: “Apenas continue a aprender, siga em frente. Não se preocupe. Só vá. Saiba que você nunca vai ser perfeito. Só faça o melhor que puder.
As primeiras aparições nas telas foram papéis pequenos ou secundários, muitas vezes em produções históricas, onde era valorizado mais pela dicção, presença e rigor técnico do que por carisma ou apelo comercial. Hopkins descreve esse período como profissionalmente irregular e emocionalmente confuso, sem a sensação de estar construindo uma carreira cinematográfica sólida.
No livro, ele atribui a demora de se destacar a três razões centrais de “autossabotagem”: o alcoolismo, que o prejudicou por décadas. Mesmo quando trabalhava, não havia continuidade nem foco. Depois, reconheceu que nunca teve o perfil do astro carismático ou do galã, algo que o próprio sistema de Hollywood exigia. Por fim, sua dispersão entre teatro, TV e cinema, o que impediu uma construção linear de imagem cinematográfica.
A virada não aconteceu apenas por causa de O silêncio dos inocentes, segundo ele. O verdadeiro ponto de inflexão foi interno, antes de ser profissional: estava sóbrio havia anos e não buscava mais aprovação, aprendeu a aceitar que nunca seria um astro convencional. Ele escreve que não viu o papel como chance de consagração, mas como um exercício técnico, quase indiferente ao impacto externo. Segundo o próprio ator, “o sucesso veio quando ele parou de esperar por ele”.
O ator preferia o cinema porque tinha poucas repetições, poderia viajar e o pagamento é bom. “E eu gosto. Você se muda muito. Não cria raízes. Este filme, Silêncio de qualquer coisa, pode ser interessante. Jodie Foster? Não pode ser ruim”, disse a seu agente. Foster levou o prêmio de Melhor Atriz pela policial Clarice e o longa levou o de melhor filme também.
Até que chegou a vez de Hopkins na mesma cerimônia: “Lembro de subir ao palco. Kathy Bates me entregou o Oscar. Aparentemente, fiz um discurso. Mais tarde, me disseram que uma das coisas que eu disse foi: ‘Hoje faz 11 anos que meu pai morreu, então, talvez ele também tenha tido algo a ver com isso, não sei’. Depois fui levado aos bastidores. Eu tinha passado por toda a cerimônia com pouca ou nenhuma ansiedade”.
Em casa, ligou para a mãe, no País de Gales. Eram quatro da manhã, no horário do Reino Unido. E fez uma pergunta, que chamou de idiota depois: se ela tinha o visto na TV. “Claro que vi. Por que outro motivo eu estaria acordada a essa hora? Seu pai teria ficado orgulhoso de você. O menino da Wern Road em Port Talbot”. Ele apenas sussurrou: “Sim, até que deu tudo certo”.