Entre o final do século 19 e a primeira metade do século 20, os safáris estavam entre os passatempos preferidos das elites europeia e estadunidense. Em longas e sofisticadas expedições, eles percorriam sobretudo a África em busca de seus troféus. Caçavam como se não houvesse amanhã. Mas o futuro chegou e os animais começaram a rarear, enquanto crescia a consciência do mal que a “brincadeira” causava não só aos ecossistemas e às comunidades locais, como a todo o planeta.

Ao longo dos últimos 40 anos, porém, consolidou-se a certeza de que o turismo pode ser usado como ferramenta de conservação e desenvolvimento, sendo inclusive mais lucrativo do que a matança indiscriminada. Assim, o safári tradicional se transformou em safári de observação — um negócio responsável atualmente por 7% do PIB médio africano, conforme dados do Banco Mundial. Os levantamentos mais recentes indicam que, anualmente, US$ 42,6 bilhões foram injetados no continente, o que representa 41% das entradas do comércio internacional da região.

Hoje, a África abriga cerca de 7 mil áreas protegidas, sobretudo em Botsuana, África do Sul, Quênia, Uganda e Gabão. A maioria é gerida por 280 ONGs, focadas em restaurar a fauna e a flora dizimadas e ameaçadas por anos de exploração intensiva. Essas reservas atraem 5 milhões de visitantes por ano.

Com extensão inferior ao estado de São Paulo e 90% de seu território coberto por árvores, o Gabão é um dos maiores exemplos do sucesso do turismo de observação. Considerado o último Éden do continente, a região abriga cerca de dois terços dos elefantes-da-floresta remanescentes na África, além de grandes famílias de gorilas, hipopótamos e chimpanzés, além de uma vasta vida marinha.

Foi lá que o Projet Gorille Fernan-Vaz, de preservação de gorilas, criou raízes. Fundado em 2001, nasceu de uma ideia simples, porém ambiciosa: combinar a preservação dos primatas com financiamento sustentável por meio do turismo responsável.

Em um primeiro momento, a ONG se concentrou na realocação de um pequeno grupo de gorilas para um ambiente natural protegido. Aos poucos, o negócio expandiu suas atividades para o resgate e a reabilitação de gorilas jovens afetados pela caça ilegal e pelo comércio de carne de animais silvestres.

“Hoje, o projeto opera tanto um santuário permanente para gorilas que não podem retornar à vida selvagem quanto um programa de reabilitação em floresta, voltado a preparar gorilas resgatados para maior independência em condições naturais”, conta o gabonês Virgile Manin, gerente da iniciativa, em entrevista ao NeoFeed. “É nesse santuário que recebemos visitas de turistas”.

Com essa iniciativa, o Projet Gorille Fernan-Vaz cuida hoje de 12 animais. “O turismo foi incluído desde o início como uma forma de criar um modelo financeiro sustentável, em vez de depender exclusivamente de doações. Ele permite que os visitantes apoiem diretamente a conservação, ao mesmo tempo em que amplia a conscientização sobre a proteção dos gorilas”, diz ele.

Segundo Manin, até o momento, o ecoturismo tornou-se uma das principais fontes de financiamento da instituição, ao lado de subsídios e parcerias com zoológicos.

Manin, porém, não deixa de alertar para os perigos da prática. “O turismo deve sempre ser orientado por rigorosos padrões de bem-estar animal, limites de visitantes, protocolos de saúde e reinvestimento transparente na conservação. O turismo deve apoiar a missão — nunca substituí-la ou comprometer a ética”, complementa.

Para além da África

Os modelos adotados por organizações como o projeto do Gabão ultrapassaram as barreiras do continente africano. Atualmente, o turismo baseado na natureza impulsiona cerca de 8 bilhões de visitas únicas por ano a áreas protegidas que representam 17% do território global e 8% das áreas marinhas globais. Em 2025, o mercado global de ecoturismo foi avaliado em US$ 298 bilhões, podendo atingir US$ 1,1 trilhão até 2034, um avanço de cerca de 16% ano a ano.

Hoje, é possível observar urso-polar no Canadá, urso panda na China, elefantes na Tailândia, pássaros na Colômbia, entre um leque gigante de possibilidades, todos em seus habitats naturais.

E o Brasil é um dos países que está investindo na prática, dado o seu vasto potencial natural. Por aqui, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) instituiu, em agosto de 2025, o Programa Nacional de Observação de Vida Silvestre, denominado Caminhos da Biodiversidade.

No Gabão, o Projet Gorille Fernan-Vaz, criado em 2001, conta com o turismo como peça fundamental para manter os animais no santuário

O Gabão é considerado o último Éden do continente africano e abriga cerca de dois terços dos elefantes-da-floresta remanescentes na região

O Onçafari, que nasceu no Pantanal apostando no ecoturismo como ferramenta de preservação das onças-pintadas, é um dos maiores exemplos de sucesso do formato no Brasil

Com o projeto, já foram identificadas mais de 300 onças. Em 2011, quando a iniciativa começou, esse número não passava de cinco

Segundo o instituto, a proposta do programa é estimular o turismo ecológico voltado à observação da fauna em vida livre, promovendo geração de renda para comunidades locais. Com esse foco, estados e municípios serão incentivados a elaborar planos para desenvolver a observação da fauna, com apoio de instituições de pesquisa.

Esse é um dos primeiros movimentos governamentais feitos no Brasil com foco no turismo ecológico. Porém, instituições como Projeto Tamar, Onçafari e Parque das Aves já atuam no segmento há anos.

“Quando nós começamos o Onçafari, em 2011, o ecoturismo no Brasil estava 30 anos atrás da África e isso não fazia sentido pra mim. Nós somos o país com maior biodiversidade do mundo, então eu sabia que isso precisava mudar”, afirma Mário Haberfeld, fundador da ONG, ao NeoFeed.

Haberfeld ainda considera que estamos muito atrasados nesse quesito. Porém, as iniciativas do Onçafari, que começou como um projeto para preservação da onça-pintada no Pantanal, dentro da propriedade Caiman, do empresário e ambientalista paulistano Roberto Klabin e hoje já está presente 24 pontos do Brasil, foram determinantes para o desenvolvimento do setor por aqui.

“A minha visão era que nós tínhamos que mudar a cabeça das pessoas. Com a habituação das onças e o desenvolvimento do ecoturismo, as comunidades em volta do projeto parariam de matar os animais e começariam a preservá-los, já que aquilo era muito mais rentável e gerava mais empregos do que a própria pecuária”, diz Haberfeld. “Eu basicamente queria seguir o molde do que vi por muitos anos na África”.

Funcionou. Desde que o Onçafari começou no Pantanal, o número de turistas na região cresceu cerca de 550%. A receita da fazenda Caiman, que era focada no gado, hoje é proveniente, em maior parte, do turismo. E, nos primeiros oito anos da instituição, 100% da renda era proveniente do setor.

Segundo Haberfeld, em 2025, 60% dos hóspedes que ficaram na Caiman vieram de fora do Brasil. “Nós nos tornamos o lugar mais famoso do mundo para avistamento de onças-pintadas e isso é incrível”.

Na visão do empresário, esse tipo de turismo nacional ainda não é o forte dos brasileiros, por uma questão cultural. Porém, ele tem plena confiança de que o segmento ainda se desenvolverá por aqui, mesmo que aos poucos.

Como ele diz: “O ecoturismo é a melhor forma de trazer pessoas para conhecer as iniciativas, se engajar e apoiar as comunidades que moram na região”.