Poucos países se comparam em ambição à China. Na busca por se tronar a maior potência do mundo, o país asiático combina planejamento estatal, escala e velocidade de execução de forma rara. É o que o pesquisador Dan Wang define como “progresso sísmico”, no livro Breakneck: China's Quest to Engineer the Future, algo como “Em Ritmo Vertiginoso: A Busca da China por Projetar o Futuro”.
Ainda inédita no Brasil, a obra mostra que a capacidade de organização e prioridade dos chineses produziu infraestrutura e liderança industrial impressionantes — frequentemente, porém, ao preço de altos custos sociais e ambientais.
Não à toa, Wang defende que a disputa entre China e Estados Unidos é menos ideológica e mais estrutural. O que acontece hoje é um choque entre modelos de poder e de construção do futuro que a potência oriental tem priorizado de modo estratégico, menos agressivo e barulhento que a política de intimidação de tarifas e intervenções armadas de Trump.
Suas conclusões são resultado de acompanhamento por quase uma década sobre o que classifica como “crescimento tumultuado e impressionante” da China. “O Estado (chinês) construiu pontes imponentes, ferrovias reluzentes e vastos complexos industriais para melhorar os resultados econômicos em tempo recorde”, observa o autor.
Essa mudança acelerada, por outro lado, espalhou ondas de dor por toda a sociedade chinesa, algo ao qual o Ocidente não tem acesso e não pode dimensionar. Segundo ele, a China cresceu tão rapidamente nas duas últimas décadas, em parte, ao superar a América em seu próprio jogo: o capitalismo e a mobilização da energia incansável do empreendedorismo.
Por outro lado, ele situa os Estados Unidos como uma “sociedade de advogados”, caracterizada pela preponderância de processos, regulações e discórdia legal. Essa dicotomia não é apenas uma metáfora, mas um quadro analítico para explicar por que os chineses parecem tão eficazes em executar grandes projetos e os estadunidenses frequentemente tropeçam diante de obstáculos burocráticos e legais.
Essa diferença de orientação institucional, explica o autor, tem raízes profundas nas formações profissionais de suas elites políticas e econômicas. “Enquanto muitos líderes e formuladores de políticas chineses possuem formação em engenharia ou ciências aplicadas, nos Estados Unidos uma proporção significativa passou por escolas de direito e moldou estilos de governança distintos”.
Seria o pragmatismo tecnocrático versus a cautela jurídica. Esse contraste (que tem culturas diferentes no meio) molda desde decisões sobre infraestrutura até a maneira como sociedades respondem a crises de impacto. Para reforçar seu argumento, ele examina exemplos concretos recentes da capacidade de execução chinesa.
Um deles é a expansão expressiva das linhas de alta velocidade ferroviária da China, com modelo de planejamento e execução de infraestrutura em grande escala, trechos construídos mais rápido e em maior extensão do que em muitos outros países de economia consolidada. Soma-se a isso seu alcance, como no caso da ferrovia Beijing–Shanghai high-speed railway, talvez a mais moderna do mundo.
Os mega-campi de manufatura, como os da Foxconn, em Shenzhen, são outro caso estudado pelo autor. Fazem parte do ambiente fabril de grande escala, com turnos, disciplina industrial, dormitórios, logística rigorosamente eficiente e produtividade acima da média.
Para Wang, aglomerações industriais assim, que ocupam centenas de hectares e centenas de milhares de trabalhadores em picos durante o dia, permitem um nível de produção e coordenação que exemplifica a “capacidade de execução” de uma China eficiente.
A construção em massa de cidades e moradias como parte de megaprojetos urbanos é citada como outro “case” de como a China “lança” cidades, bairros e megaprojetos de pontes, viadutos, barragens e novas cidades em ritmo e escala que explicam vantagens e custos desse modelo de engenharia estatal. Se no passado localidades assim surgiam em décadas e séculos, hoje nascem “da noite para o dia” e isso não é exagero.
Esses feitos não são apenas resultados de políticas macroeconômicas, mas de uma mentalidade que privilegia “fazer” em vez de “debater”. Entretanto, ressalta o autor, seu estudo faz panfletagem de uma visão otimista e correta da China.
Sua intenção é evitar uma celebração acrítica do desenvolvimentismo acelerado chinês. Ele propõe uma discussão sobre o lado sombrio dessa “engenharia social” aplicada à própria população. Aponta também danos ambientais e sofrimento humano.
Os altos custos sociais decorrentes de intervenções governamentais autoritárias aparecem em políticas sociais de engenharia, como a do filho único e as rígidas restrições de Zero-COVID, que causaram sofrimento humano significativo, com impactos traumáticos sobre famílias e restrições às liberdades individuais.
A rápida industrialização e crescimento vieram acompanhados ainda de degradação ambiental, sobrecapacidade e dívida em setores estatais, além de desafios como poluição e impactos ambientais.
Pesquisador associado ao Hoover History Lab, na Universidade Stanford, anteriormente Wang foi pesquisador no Paul Tsai China Center da Faculdade de Direito de Yale e analista de tecnologia na Gavekal Dragonomics. É analista de tecnologia e trabalhou em Hong Kong, Pequim e Xangai, onde observou e acumulou informações para suas esclarecedoras análises. Além disso, publicou ensaios no The New York Times, Foreign Affairs, Financial Times, New York Magazine e The Atlantic.
Ao longo dos capítulos, a escrita se alterna entre ensaio analítico e descrição vivida por Wang. Em algumas passagens, ele usa experiências pessoais em viagens e observações no interior da China para ilustrar contrastes com a vida americana.
Faz, assim, uma mistura de jornalismo de campo e reflexão intelectual, sem sacrificar a profundidade analítica, o que contribuiu para sua ampla recepção crítica nos círculos de política pública e tecnologia.
O autor, por fim, defende que tanto a China quanto os Estados Unidos têm lições a aprender um com o outro. Os americanos poderiam se beneficiar de uma renovada ênfase em engenharia e execução. A China precisaria incorporar mais mecanismos que protejam direitos individuais e promovam o pluralismo institucional.
É uma chamada à síntese, afirma. Mais do que a polarização, seu livro estimula o leitor a repensar o futuro não apenas de duas superpotências, mas da própria ideia de progresso tecnológico.