A louça acumulou na pia. Talheres, copos, panelas. A frigideira boiando na água presa revela mais do que gordura, espuma ou dejetos. Vê-se uma ilha verdejante entre mares azuis, entre utensílios domésticos identificados apenas pela linha fina do grafite que os contorna.

A cena faz parte da série Cotidiano, de Wilma Martins (1934-2022), realizada entre 1975 e 1984. Dezenove trabalhos desse conjunto estão agora reunidos em Wilma Martins: territórios interiores, em cartaz na Galeria Galatea, em São Paulo.

“Apesar de não aceitar com alegria essa divisão masculino/feminino, não posso negar que ela existe e condiciona meu olhar”, disse a artista em entrevista à Folha de S. Paulo, em 1976, refletindo sobre a “problemática feminina” em sua obra. “As tarefas a mim impostas influenciam muito meu trabalho. Um homem não veria a casa como eu vejo. Para mim, a pia pode ser um oceano, o telefone um animal hostil.”

Na série, Wilma sobrepõe às superfícies esbranquiçadas do cotidiano animais e cenas impossíveis: bois pastando sobre a gaveta de uma cômoda do quarto, onças bebendo água no tanque da lavanderia, crocodilos invadindo a biblioteca.

Suas imagens revelam como até o espaço doméstico mais banal pode se abrir ao fantástico, ao perigo, ao absurdo. O gesto dialogava com o espírito da época.

“Ela capturou o zeitgeist do debate feminista de maneira sutil”, observa Fernanda Morse, autora do texto crítico da mostra, em entrevista ao NeoFeed.

A curadora lembra a chegada, em 1960, da tradução brasileira de O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, como um ponto de virada cultural.

Fernanda acrescenta que Wilma não se alinhou a nenhuma vanguarda ou estética dominante. “A forma como ela lida com a cor é algo muito dela. Na série Cotidiano, Wilma chegou a uma proposta estética verdadeiramente original. Mesmo sendo tímida e reservada, conquistou um lugar próprio”, afirma.

 “Eu não mostrei porque não quis”

Wilma nasceu em Belo Horizonte, em 1934, e estudou com o pintor Alberto da Veiga Guignard (1896-1962), de quem herdou a paleta rebaixada e o gosto por paisagens de contorno onírico. Em 1966, mudou-se com o marido, o crítico de arte Frederico Morais, para o Rio de Janeiro. Trabalhou como diagramadora e ilustradora.

A carreira começou intensa: participou de quatro Bienais de São Paulo nos anos 1960 — em 1967, recebeu o Prêmio Itamaraty — e também da Bienal de Veneza, em 1978. Em 1976, venceu o Panorama de Arte Atual Brasileira, no MAM-SP, com a série Cotidiano. Teve individuais em instituições como o MAC-Paraná e o Museu da Inconfidência. Depois, o silêncio: três décadas sem expor.

O hiato soava enigmático, ainda mais por ser casada com um dos críticos mais influentes de sua geração. A curadora Stefania Paiva, que foi assistente de Frederico Morais, conta que se intrigava com esse silêncio da artista no circuito e a questionou, ouvindo em resposta: “Eu não mostrei porque não quis”.

“Wilma tinha aversão ao mercado. Recusou convites, recusou pressões — inclusive de Frederico. Ela fazia o trabalho dela, e só isso importava”, conta Stefania, ao NeoFeed.

A obra de Wilma Martins só voltaria a circular a partir da década de 2010. O ponto de virada foi a retrospectiva Cotidiano e sonho, apresentada em 2013 no Paço Imperial, no Rio de Janeiro, e no ano seguinte no Centro Cultural Minas Tênis Clube, em Belo Horizonte, com curadoria de Frederico Morais.

“As tarefas a mim impostas influenciam muito meu trabalho. Um homem não veria a casa como eu vejo. Para mim, a pia pode ser um oceano, o telefone um animal hostil", disse em entrevista (Foto: Galeria Galatea)

Aqui está o detalhe da obra da série "Cotidiano", descrita no início da reportagem: é possível ver a ilha ilha verdejante em mar azul, entre utensílios domésticos identificados apenas pela linha fina do grafite (Foto: Ding Musa)

E aqui está a mesma obra, inteira (Foto: Ding Musa)

“Ela [Wilma] capturou o zeitgeist do debate feminista de maneira sutil”, defende Fernanda Morse, curadora da mostra (Foto: Ding Musa)

Desde então, a artista passou a despertar renovado interesse, integrando a 32ª Bienal de São Paulo (2016) e participando de mostras como Mulheres radicais: arte latino-americana, 1960-1985 (2017-2018) e Constelação Clarice (IMS, 2022).

Mesmo após seu falecimento, em 2022, sua obra segue em circulação, entre elas a panorâmica Wilma Martins: território da memória (Paço Imperial, Rio de Janeiro, 2023) e, mais recentemente, Pop Brasil: vanguarda e nova figuração, 1960-70, em cartaz na Pinacoteca até outubro.

O longo afastamento das vernissages talvez se explique, mas não se justifique, pela vida paralela que Wilma cultivava em seu refúgio particular. Ao se mudar para o Rio de Janeiro, um dos lugares onde morou com Frederico foi em um apartamento no Cosme Velho, na Zona Sul.

Da janela de seu ateliê, avistava um terreno em Santa Teresa, que se tornaria tema recorrente em sua pintura — como no tríptico Santa Teresa I, Santa Teresa II e Santa Teresa com elefantes.

A inteligência das coisas

Anos depois, quando surgiu a chance de deixar o aluguel, foi categórica: queria aquele pedaço de morro que observava todos os dias. Compraram o lote e, embora Frederico tenha contratado um arquiteto para projetar a nova casa, Wilma redesenhou tudo.

Alterou o projeto, ajustou proporções, volumes, aberturas. “Dessa casa de Santa Teresa, ela via o antigo ateliê. Criou uma espécie de rebatimento invisível ali entre os dois espaços”, conta Stefania.

Além das paredes, Wilma desenhou e construiu móveis, cuidou de um jardim de flores tropicais e costurou as próprias roupas. Sua rotina era feita de tarefas práticas que, para ela, tinham o mesmo peso que as obras assinadas. “Ela tinha uma inteligência muito além do comum”, lembra a curadora. “Não era uma inteligência de biblioteca. Era uma inteligência da vida, das coisas.”

Essa intimidade com o espaço doméstico ressoa em Cotidiano. Nas gravuras e pinturas, Wilma maneja o desenho arquitetônico com precisão: domina proporções, perspectivas, cria relevos que transformam o plano em superfícies quase como cerâmicas moldadas à mão. Suas cozinhas e salas não são apenas cenários para animais fabulosos, mas espaços erguidos com a mesma lógica estrutural com que concebia a própria casa.

A biblioteca de Wilma, separada da do marido, refletia essa autonomia: enquanto Frederico se dedicava a volumes de política e artes, ela mergulhava em poesia, literatura e romances policiais. Tinha um interesse especial pelos livros do cubano Leonardo Padura.

Seu gosto literário diz algo sobre sua imaginação. Essa atmosfera de fantasia, poesia e suspense, herdada dessas leituras, está presente nos ambientes domésticos de Cotidiano. Espaços onde o ordinário nunca é apenas o que parece, mas sempre uma possibilidade de assombro.

Esse deslocamento da realidade chamava a atenção de quem a acompanhava. Stefania lembra de um comentário do poeta Ferreira Gullar sobre a artista: “O branco é o que nós vemos, é o real. O que ela vê é o que colore. São animais fantásticos, uma natureza exuberante. Para ela, o que a gente vê não importa. O que importa é o sonho.”

Embora fosse uma mulher reservada, Wilma impressionava quem convivia com ela. “Podia conversar sobre qualquer assunto, era extremamente bem informada”, conta Stefania. “Ela tinha uma mágica de existir, algo muito único e muito dela. A gente até brincava: mesmo se fosse deixada sozinha no Alasca, ela sobreviveria. Ela simplesmente não precisava de ninguém.”

Assim como sua obra, que sobrevive sozinha, desafiando o tempo, os modismos e as convenções.