Cerca de dois meses atrás, um desavisado que passasse diante da sala de eventos da prefeitura de Osasco poderia pensar que o time de auditores tinha mudado de ramo e entrado para a investigação criminal. Diante de fotografias, recortes de jornal e outras “provas materiais”, 42 profissionais tentavam desvendar dois crimes distintos.

As histórias eram 100% inventadas — durante quatro horas, os auditores se dedicaram a jogos analógicos de investigação. Mas a dinâmica estava longe de ser brincadeira. Foi o recurso adotado por Cintia Mendes Moreira, controladora geral do município, para aprimorar a integração entre integrantes de seu time e ajudá-los a desenvolver habilidades como o espírito de colaboração.

“Nessa função, é primordial entender que não há competição. Aconteceu isso no jogo. Todos se uniram em torno de um objetivo comum e até os mais tímidos interagiram”, Cíntia conta ao NeoFeed.

Os "games analógicos" pareciam fadados a desaparecer, mas vêm demonstrando um fôlego impressionante — sobretudo os de investigação. E, impulsionadas pelas redes sociais, novas marcas surgem a todo momento.

As duas histórias compradas pela controladora de Osasco foram criadas pelos cariocas Marina Lamim e Lucca Marques, que fundaram a Sob Investigação no ano passado. O casal começou imprimindo os jogos em casa, mas profissionalizou a impressão em outubro e já tem centro de distribuição, tamanha a demanda.

“Já vendemos mais de 20 mil unidades e, em fevereiro, chegamos às livrarias Martins Fontes e Leitura. Até o fim do ano, queremos atingir 200 pontos de venda”, projeta Marina, em conversa com o NeoFeed. Cada jogo, que equivale a uma história de roubo, sequestro ou assassinato, custa R$ 119,90.

Concorrente da dupla, Eduardo Maia desistiu do ramo de marketing digital depois de fundar a Detective Nights. Ele lançou a primeira história em fevereiro de 2025 e já tem nove no portfólio. Maia cria os roteiros, enquanto uma equipe de 12 pessoas dá forma aos jogos, que chegam ao mercado também por R$ 119,90.

“Nosso público é quem adora filmes de suspense e maratona séries na Netflix. Não vendo jogos, mas tempo de qualidade”, recita ao NeoFeed.

Criada em 2015, no Rio de Janeiro, a feira Diversão Offline (Doff) é um bom termômetro do fenômeno. Começou com 14 expositores e 700 visitantes, em edição de apenas um dia. A última, realizada em São Paulo, em 2025, durou dois dias e contabilizou 125 expositores e 13 mil visitantes.

Fernanda Sereno, CEO do evento, conta ao NeoFeed que o público já não é só de aficionados, os chamados heavy gamers: “A cada ano, vejo aumentar a presença de famílias e jogadores de fim de semana. Os millennials andam angustiados, buscando caminhos para se conectar às novas gerações e tirá-las das telas.”

A ser realizada na capital paulista em julho, a Doff 2026 terá um terceiro dia dedicado a profissionais de recursos humanos, ponte fundamental para um mercado cada vez mais promissor para os designers de jogos: o corporativo.

Para o Banco Daycoval,a Gamer Maker criou um jogo para treinar equipes de atendimento ao cliente. Cada jogo personalizado custa até 14 mil

Marcio Carneiro, fundador da Game Maker, desenvolveu jogos para clientes de peso como Alpargatas e Tenda (Foto: Divulgação)

A empresa Sob Investigação foi fundada pelos cariocas Marina Lamim e Lucca Marques, em 2025 (Foto: Divulgação)

Até o fim de 2026, os donos da Sob Investigação pretendem atingir 200 pontos de venda (Foto: Divulgação)

“A cada ano, vejo aumentar a presença de famílias e jogadores de fim de semana. Os millennials andam angustiados, buscando caminhos para se conectar às novas gerações e tirá-las das telas", diz Fernanda Sereno, CEO da feira Doff (Foto: Divulgação)

Quando foi criada em 2015, a Doff tinha apenas um dia e atraiu 14 expositores e 700 visitantes. Ano passado, durou dois dias e recebeu 125 expositores e 13 mil visitantes (Foto: Divulgação)

Com o avanço de procura pelos jogos de tabuleiro, os espaços para jogar andam lotados. Em São Paulo, quem vai à Ludus Luderia escolhe entre 2 mil títulos do acervo e joga por quanto tempo quiser (Foto: Divulgação)

Fundador da Game Maker, Marcio Carneiro conquistou o primeiro cliente PJ em 2021: a empresa de tecnologia TI Safe. Por encomenda, Carneiro desenvolveu um jogo de tabuleiro que tem como tema as vulnerabilidades desafiadoras para profissionais de cibersegurança.

De lá para cá, a Game Maker criou jogos para clientes de peso. O banco Daycoval encomendou um jogo para treinar equipes de atendimento ao cliente. Para a construtora Tenda, a empresa levou a conquista da casa própria para o tabuleiro, usado em uma ação de marketing com influenciadores.

A divulgação nas redes sociais também foi a finalidade do jogo inspirado na série Only Murders in the Building, criado a pedido da divisão de streaming da Disney.

Só com reserva

Como desenvolver um jogo pode levar meses e custar de R$ 8 mil a R$ 14 mil para o cliente, nova aposta da Game Maker é a série de jogos white label, com modelos básicos já formatados, que podem ser personalizados ao gosto do freguês em poucos dias.

A Alpargatas foi a primeira cliente. “Eles fizeram uma campanha institucional interna sobre os valores da empresa e usaram o jogo como ferramenta”, diz Carneiro ao NeoFeed.

Jogos destinados ao universo corporativo geralmente são simples, fáceis de jogar. Já os produtos desenvolvidos para o consumidor final passam longe disso.

Bem diferentes dos antigos Banco Imobiliário e Detetive, os jogos modernos de tabuleiro têm tramas complexas e temas dos mais variados, que vão de zumbis à história do Brasil. A maioria é indicada para maiores de 14 anos.

Segundo Diego Bianchini, CEO da MeepleBR, cujo portfólio é composto de jogos estrangeiros e nacionais, o mercado brasileiro começou a se transformar em 2011. O divisor de águas, ele diz, foi a chegada do jogo alemão Catan, lançado aqui pela Grow — o objetivo é construir estradas, aldeias e cidades para colonizar uma ilha.

“Antes, a indústria só apostava nos jogos lúdicos para crianças, porque faltava a visão de quem é o maior público consumidor”, lembra Bianchini, em entrevista ao NeoFeed. “Os jogos modernos são sempre para adultos, mas podem ser considerados familiares.”

A dinâmica não depende de sorte, mas de estratégia. Um dos best-sellers da MeepleBR é o Brasil Imperial, que convida jogadores a formarem um novo império — o produto já foi exportado e traduzido para uma dezena de idiomas.

Jogos modernos já foram exclusividade das lojas nichadas, como a PlayEasy, em São Paulo, e a Game of Boards, no Rio de Janeiro, mas já furaram a bolha. Chegaram a grandes marketplaces, como Mercado Livre e Amazon, o que tem ampliado o acesso, apesar do preço — algo entre R$ 300 e R$ 500, em média.

Não por acaso, os espaços para jogar andam lotados. Em São Paulo, quem vai à Ludus Luderia paga de R$ 34 a R$ 48, conforme o dia da semana, para escolher um dos 2 mil títulos do acervo e jogar pelo tempo que quiser, enquanto come os hambúrgueres do menu (cobrados à parte).

A casa existe há 19 anos, mas a fundadora Lucy Raposo conta ao NeoFeed que nunca esteve tão cheia — há dias em que os 200 lugares não dão conta da procura: “Recebo muitas famílias, grupos de amigos e o público 50+ também está aumentando. No sábado à tarde, só entra quem tem reserva”.