O jornal The New York Times, certa vez, o descreveu como “tão inexpressivo quanto uma estátua”. A revista Time o caracterizou como “um vazio insosso”. Ele podia não agradar a crítica, mas levou multidões aos cinemas com seus golpes de arte marcial e fama de invencível.
Na manhã desta quinta-feira, 19 de março, aos 86 anos, a morte venceu Chuck Norris, que deixa a marca de um astro que transformou limitações cênicas em estilo, construiu uma carreira sólida à margem do prestígio intelectual e, contra todas as expectativas, tornou-se um dos rostos mais reconhecíveis (e duradouros) da cultura pop.
Nove dias antes da morte, quando fez aniversário, Norris publicou um vídeo no Instagram em que aparece treinando alguns socos, nos jardins de sua casa na ilha de Kauai, no Havaí.
“Nada como um pouco de diversão num dia ensolarado para nos sentirmos jovens. Sou grato por mais um ano, pela boa saúde e pela oportunidade de continuar fazendo o que amo”, escreveu. “Obrigado a todos por serem os melhores fãs do mundo. O apoio de vocês ao longo dos anos significou mais para mim do que vocês jamais poderiam imaginar.”
A gentileza do artista fora dos sets e das competições contrastava com a figura do herói brutamontes quase imperturbável, que falava pouco e resolvia tudo à força. Assim, ele se tornou uma lenda do cinema de ação dos anos 1980 e 1990. E, na era dos memes, o jeitão impassível de seus personagens fez dele também um mito da internet.
A partir do início dos anos 2000, começou a viralizar uma série de memes, os Chuck Norris Facts. Com humor seco e hiperbólico, as piadas tratam o ator como um ser praticamente sobrenatural, capaz de feitos impossíveis.
São tiradas do tipo: “Chuck Norris não faz flexão, ele empurra a Terra”, “Chuck Norris contou até o infinito. Duas vezes” ou “A morte teve uma experiência de quase morte com Chuck Norris”. Seu favorito era: “Tentaram esculpir Chuck Norris no Monte Rushmore, mas o granito não era resistente o bastante para sua barba”.
Ele não só entrou na brincadeira e mostrou ter o dom de rir de si mesmo como usou a fama na internet para estrelar campanhas publicitárias para a empresa de telefonia T-Mobile, a desenvolvedora de games World of Warcraft, a cervejaria colombiana Cerveza Poker e a montadora Toyota, entre outras.
A gravata de Gracie
Antes de ser um ator, Norris era, antes de tudo, um lutador profissional de artes marciais. Começou aos 24 anos, em um pequeno torneio em Salt Lake City. Pelos quatro anos seguintes, perdeu mais do que ganhou.
Em 1968, porém, ele sofreu sua décima e última derrota. No final daquele ano, sagrou-se campeão mundial de karatê na categoria meio-pesado. Ao longo da carreira, também treinou e incorporou outras modalidades, como o taekwondo e o jiu-jitsu.
Em 1990, ele criou o próprio sistema, o Chun Kuk Do, uma combinação entre técnicas do jiu-jitsu, wrestling, muay thai e karatê. No início da década de 2010, em visita ao Brasil, Norris quis conhecer os Gracie.
"Fui para o chão com Rickson Gracie e foi como se eu nunca tivesse ido a uma aula na minha vida”, contou. "Ele me disse: 'Chuck, me dê um soco'. Eu respondi que não faria isso. A última coisa que lembro é de levar a mão para trás. Depois acordei, tinha sido estrangulado e fiquei inconsciente.”
A força de McQueen
Com a fama nas artes marciais, Norris passou a ser procurado por várias celebridades, como Priscilla Presley, Donny Osmond, Bob Barker. Nenhuma delas, porém, foi tão importante quanto Steve McQueen, àquela época um dos maiores astros de ação de Hollywood. Ele percebeu o potencial do instrutor de karatê e o incentivou a tentar o cinema. Deu certo.
Em 1969, Norris estreou nas telas com a comédia de ação e espionagem Um perigo em cada curva, dirigida por Phil Karlson e estrelada por Dean Martin. Mas foi o Voo do dragão, três anos depois, que o apresentou ao mundo como ator. No longa roteirizado, dirigido e estrelado por Bruce Lee, ele era o capanga Colt. É lendária a luta entre Norris e Lee no Coliseu de Roma.
Norris participou de cerca de 40 filmes. Entre os mais famosos estão Braddock: O super comando, de 1984. No filme, o coronel James Braddock retorna ao Vietnã anos após o fim da guerra para investigar relatos de que soldados americanos ainda estariam sendo mantidos como prisioneiros.
Ao perceber que , sim, há americanos presos, ele decide agir por conta própria. Braddock invade o país asiático, enfrenta militares vietnamitas e realiza a missão de resgate praticamente sozinho.
É o típico filme de ação dos anos 1980: direto, patriótico e centrado em um herói solitário, que resolve a situação na base da força e da determinação, óbvio. O sucesso foi enorme — tanto que virou franquia.
O longa consolidou a persona que definiria a carreira de Norris: a do herói caladão, solitário e implacável, que age à margem das instituições para corrigir aquilo que o sistema não consegue resolver. Com poucos diálogos, seu personagem transforma a eficiência física em linguagem.