Nova York - Em 3 de dezembro, 70 mil adolescentes de Nova York submeterão suas candidaturas aos 700 programas das 400 escolas públicas de ensino médio da cidade. Trata-se do maior e mais diverso sistema escolar público dos Estados Unidos.

A decisão final é revelada em maio e depende de uma série de variáveis, incluindo a nota, a preferência do aluno por cada escola e um número lotérico que desempata candidatos com qualificações similares que concorrem à mesma vaga. Trata-se de um hexadecimal gerado automaticamente por um computador e quem estiver à frente ganha. Quem não passar é alocado em escolas subsequentes da lista de preferência ou é incluído na lista de espera.

A complexidade do sistema ensina crianças de 13 anos a lidar com perdas e frustrações e gera ansiedade nos pais, incluindo estrangeiros e até mesmo americanos que cresceram em outra cidade e nunca passaram por tal batalha.

“Quando fiquei viúva repentinamente, há dez anos, não fiz terapia. Mas busquei ajuda psicológica quando minhas gêmeas mais novas se candidataram ao ensino médio”, diz ao NeoFeed uma cientista francesa, mãe de quatro, que vive em Manhattan.

Por trás da loteria há uma lógica criada pelo economista Alvin Roth, professor na Universidade Stanford e vencedor do Prêmio Nobel em 2012 pelo seu trabalho em torno da “teoria dos mercados”. No caso, mercado de pessoas em vez de preços.

Roth desenvolveu o “algoritmo de aceitação diferida” para agilizar a seleção de residências médicas, combinando candidatos e programas de residência com base na preferência mútua mais alta.

O sistema passou a ser adotado pelo Departamento de Educação do Estado de Nova York em 2003.

A ideia partiu do então diretor de planejamento estratégico, que procurou Roth (que é nova-iorquino) para investigar se o sistema de correspondência médica poderia funcionar em um vasto sistema de escolas públicas com políticas de admissão diversas: além das notas e da loteria, há também o aspecto socioeconômico e crianças com necessidades específicas de aprendizagem.

“É importante envolver as crianças neste processo, levá-las para visitar as escolas e estabelecer prioridades. Esta é uma escolha acadêmica pela qual eles têm de se responsabilizar”, diz a pintora carioca Lilian Kebudi, em entrevista ao NeoFeed.

Seus filhos gêmeos passaram pelo processo no ano passado: “Sempre recomendo que as famílias coloquem a ‘escola dos sonhos’ na lista, mesmo que a chance de entrar pareça impossível”, afirma ela.

O assunto é tão quente que há um grupo no Facebook com mais de 16 mil pais e mães ávidos por troca de informações.  Além disso, muitos pais recorrem a profissionais, como o time do NYC Admissions Solutions, pagando a partir de US$ 375 por hora ou alguns mil dólares por pacotes mais elaborados.

Seus especialistas ajudam as famílias a montar listas estratégicas, de acordo com o perfil acadêmico e as aptidões de cada aluno.

As três raias

Em workshops, a consultora de admissões, Joyce Szuflita, explica ao NeoFeed que o sistema de admissão do sistema público (sem falar em particulares e escolas charter) funciona como uma piscina de três raias: cada aluno pode se candidatar às três, sendo a primeira e a segunda opcionais.

Na primeira raia, estão as cinco escolas especializadas e altamente competitivas. O prefeito eleito, Zohran Mamdani, por exemplo, estudou em uma delas, a Bronx Science, e o ator Tim Robbins foi aluno da Stuyvesant.

Para entrar, os alunos devem fazer a prova chamada SHSAT (Specialized High School Admissions Test), que exige uma preparação árdua e é válida apenas para esta finalidade. Ou seja, a não admissão não fica registrada no histórico escolar.

Na segunda raia, figura a escola Fiorello H. LaGuardia, fundada em 1961 e que inspirou o filme Fame (1980): a escola fica próxima ao Lincoln Center e é voltada às artes performáticas e cênicas. Para isso, os aspirantes, ainda aos 13 anos, devem submeter portfólios de ilustrações e participar de audições de música, dança e teatro.

Para preparar as crianças, os pais recorrem à ajuda de profissionais, como atores, coreógrafos e ilustradores. O pente é fino: pela escola passaram Jennifer Aniston, Adrien Brody, Timothée Chalamet, Al Pacino e Liza Minnelli.

Na terceira raia, as famílias devem listar 12 programas (às vezes, as escolas oferecem mais de um programa) em ordem de preferência. Apesar de todas elas seguirem o mesmo currículo, elas têm tamanhos e perfis variados: algumas são voltadas para estudos do meio ambiente, outras para matemática; há programas com pinceladas de diplomacia e de direito; outras focam em esportes.

Na James Madison High School, por exemplo, formaram-se figuras como a juíza Ruth Bader Ginsburg, o político Bernie Sanders e o ator Chris Rock.

E ainda há algumas que, como a LaGuardia, são dedicadas às artes performáticas. No Queens, o cantor Tony Bennett, falecido em 2023, e sua esposa construíram uma delas como forma de retribuição ao bairro onde ele nasceu.

O nome é uma homenagem ao melhor amigo do fundador: Frank Sinatra School of the Arts. A escola foi fundada em 2001, mas, em 2009, ganhou um prédio ultramoderno no complexo Kaufmann Studios e Museum of the Moving Image, em Astoria.

No Brooklyn, a escola Edward R. Murrow também é conhecida por atrair crianças com vocações artísticas, incluindo a cantora Alicia Keys. Seus estudantes têm sorte: além de ter aparecido de surpresa para dar um show, a artista ajudou a escola a criar um centro de engenharia de som para os alunos de música.