Em um mundo cada vez mais obcecado por métricas, seja o número de seguidores nas redes sociais, os KPIs no trabalho ou a nota de corte na universidade, surge uma pergunta incômoda: até que ponto estamos jogando um jogo que não foi criado por nós?
Quem levanta essa questão é o filósofo americano C. Thi Nguyen, professor da Universidade de Utah e especialista em filosofia dos jogos aplicada aos valores e ao pensamento humano.
Reconhecido por seu trabalho sobre como sistemas de regras moldam nossa liberdade e criatividade, Nguyen acaba de lançar The Score – How to stop playing somebody else’s game ("O ponto - Como parar de jogar o jogo da outra pessoa", em tradução livre), ainda inédito no Brasil.
Na obra, ele investiga como a lógica da pontuação e da medição constante, tão presente em escolas, empresas e plataformas digitais, pode tanto oferecer clareza sobre o que importa quanto corroer nossa autonomia e reduzir experiências humanas complexas a números.
“Ao estudar jogos e gamificação, percebi que eu tinha uma história na qual sistemas de pontuação claros eram como a fonte de liberdade e diversão", diz Nguyen, em entrevista ao NeoFeed.
"Mas, a outra história é que sistemas de pontuação simplificados eram a morte de tudo o que era bom. Pensei: 'Espera, como essas duas coisas funcionam juntas?' Foi assim que tudo começou, tentando entender o porquê”, complementa.
Para o filósofo, na vida, os números oferecem, de um lado, clareza sobre o que importa. Mas, de outro, drenam a criatividade, o propósito e a liberdade.
"As instituições precisam perceber que existem muitas coisas importantes e muitas delas são difíceis de expressar: valores de comunidade, de felicidade, de servir à humanidade", diz ele.
Na conversa com o NeoFeed, Nguyen explica por que a cultura da metrificação pode ser tão sedutora quanto perigosa. E como podemos recuperar nossa autonomia em meio a um mundo que insiste em nos reduzir a números.
Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista:
Quais são as diferenças que você observou sobre essa busca de pontos em jogos e na vida real?
Essa resposta tem duas etapas. Uma das coisas que acontece com os bons jogos é que eles são frequentemente projetados com cuidado para serem interessantes ou divertidos para o jogador. Nessa lógica, o sistema de pontuação é como o meio artístico do designer de jogos, e eles vivem ajustando-o. Em muitos casos, se você muda um pouco a pontuação, de repente os jogadores ficam mais incentivados a serem criativos, ou a cooperar, ou a entrar em conflitos interessantes. Além disso, o ecossistema dos jogos te oferece uma escolha enorme, certo? Se você não gosta do jogo que está jogando, você pode mudar, pode criar "regras da casa", enfim. Você tem opção de escolha.
Por outro lado...
Os sistemas de pontuação para instituições de grande escala não são ajustados dessa maneira. Eles são ajustados, tipicamente, para fornecer informações de forma rápida e, muitas vezes, são limitados apenas pelo que é fácil de medir rapidamente.
Você tem um exemplo desse uso?
Um dos meus exemplos favoritos é o “tempo de tela”. Quero dizer, todo mundo se importa com isso - eu tenho filhos. Nós nos preocupamos com o tempo de tela, mas o indicador não monitora o que realmente importa. Às vezes, o tempo de tela do meu filho é ele jogando jogos que são um lixo total ou assistindo a shorts ruins no YouTube. E, às vezes, o tempo de tela é ele construindo portas lógicas no Minecraft ou animando um vídeo. Ou contando uma história com os amigos em uma chamada. E tudo isso acaba sendo misturado e vira uma coisa só. A razão pela qual tudo se mistura é porque o tempo de tela é algo muito fácil para um dispositivo medir. Então, muitas vezes, uma grande limitação é apenas essa facilidade de medição.
Existe espaço para criatividade nesse esquema de pontos?
Acho que existe espaço para isso, mas é muito improvável, dada a lógica institucional. Pense assim: eu tenho um pouco de criatividade com as notas na minha sala de aula. O modo como as notas funcionam, eu tenho pouco controle. Eu posso, por exemplo, oferecer aos meus alunos vários caminhos para tirar um 'A' ou exercícios ligeiramente diferentes. Eu posso brincar um pouco com isso. Aqui, o conjunto de regras e o sistema de pontuação estão sendo ajustados à luz de algo maior e não mecânico. O problema é que, em muitas instituições, esse ciclo não acontece. O sistema mecânico de pontuação é o fim da linha.
E existe uma saída?
Você está visando entregar mais produtos, mais lucro... E se você não tem essa postura reflexiva maior, então seus valores ficam limitados pela "mecanicidade", entende? Os jogos podem ser guiados por algo que não é mecânico, mas a lógica institucional frequentemente nos pede para quase não alterarmos esse sistema. E, quando o alteramos, a estrutura de justificativa está presa à própria métrica. Não existe um ponto de vista por trás da métrica.
"A visão mais saudável é encarar a métrica como um pequeno pedaço de informação que é muito limitado"
Você acredita que existe uma forma saudável de utilizar essas métricas no mundo corporativo?
Para mim, a visão mais saudável é encarar a métrica como um pequeno pedaço de informação que é muito limitado, mas útil pela sua acessibilidade. Theodore Porter, o historiador da cultura da quantificação que foi uma das principais fontes do meu livro, diz que o raciocínio qualitativo é rico, complicado e aberto, mas ele viaja mal entre contextos. Já a quantificação viaja bem entre pessoas com históricos muito diferentes porque foi desenhada para isso: porque removemos o 'alto contexto' dela.
O que isso significa?
Nós removemos tudo o que exige uma quantidade enorme de contexto e deixamos algo que é fácil para todos contarem, como visualizações de página, cliques, curtidas, tempo de tela, produtos, algo que não exige uma sensibilidade específica para ser notado. Isso é muito poderoso porque nos permite comunicar rapidamente e nos permite agregar. É daí que vem o big data. Mas há muitas questões…
Como você resumiria?
Você pode usar as métricas de forma consciente como apenas uma aproximação grosseira e simplificada de um sistema de valores complexo e multidimensional, ou seja, perceber que é apenas essa linguagem hiper simplificada que criamos para nos comunicar rápido.
Você já sentiu o peso das métricas na sua própria vida?
Todos os dias. Eu comecei tudo isso porque tinha que relatar os resultados de aprendizagem do ensino de filosofia para legisladores que não aceitavam coisas como: 'ah, eles estão mais curiosos e virtuosos'. Eles querem ver as taxas de graduação. Agora mesmo os departamentos de humanas estão sendo cortados. Departamentos de filosofia, artes… eles estão sendo removidos da educação dos estudantes porque aquilo que eles visam não é prontamente quantificável. Um programa que rapidamente dá ao aluno uma habilidade de forma mensurável é valorizado. Outro que está tentando fazer os alunos serem mais flexíveis, abertos e eticamente críticos é muito difícil de medir. E assim eles tendem a perder as disputas institucionais onde as pessoas querem clareza.
É possível mexer nessa disputa?
É bom dizer que nossas decisões são 'baseadas em dados', mas temos que lembrar que os dados são muito limitados, especialmente em escala institucional, aos tipos de coisas que são fáceis para as instituições coletarem e aos tipos de coisas que as instituições decidiram que iriam coletar.
Com a inteligência artificial, essas métricas só se tornam mais relevantes, certo?
Sim. Eu não entendo tudo de machine learning, mas sei que envolve otimizar um algoritmo de aprendizagem em cima de um alvo, e muitas vezes esses alvos são apenas o que quer que tenhamos disponível. Existem algoritmos de machine learning que são otimizados para selecionar alunos visando o 'sucesso do estudante', mas esse sucesso é definido em termos de taxas de graduação e emprego, e não em termos de outras coisas.
Quais seriam essas outras coisas?
Uma das histórias que contei no meu livro é sobre conhecer desenvolvedores de IAs artísticas que estavam otimizando a tecnologia para fazer 'arte boa'. E eles tinham definido 'arte boa' como o aumento das horas de engajamento no catálogo da Netflix. E isso não é arte boa, mas também não temos dados para o que conta como arte boa, porque isso não é o tipo de coisa que seja uma qualidade simples, transcontextual e mecanicamente mensurável. Então, é muito difícil de mirar.
"O valor humano é o tipo de coisa difícil de captar em uma métrica, porque ele tem as duas características fundamentais do que é difícil de medir"
Onde você acredita que o valor humano se encaixa nesse cenário?
O valor humano é exatamente o tipo de coisa difícil de captar em uma métrica, porque ele tem as duas características fundamentais do que é difícil de medir. Uma é que ele é sutil e a outra é que ele é variável. As métricas tendem a se mover em direção ao que é publicamente acessível e ao que é estável em diferentes contextos.
Mas o que é valioso?
O que é valioso muitas vezes envolve, eu acho, muita especialização. Por exemplo, o que é valioso em uma forma de arte envolve uma longa experiência. O que é valioso em um campo como a filosofia, a literatura, a arte ou a sociologia exige estar 'mergulhado' naquele campo. Portanto, as métricas tendem a não captar isso. A outra questão é que muitos valores humanos são altamente variáveis de pessoa para pessoa. E, novamente, esse não é o tipo de coisa que as métricas conseguem captar.
Você tem um exemplo prático disso?
A filósofa Elizabeth Barnes, que trabalha com a natureza da saúde, tem um argumento belíssimo que apresento no meu livro, que é mais claro do que qualquer coisa que eu já tenha formulado sobre por que a saúde não será capturada por uma métrica. Para ela, o conceito de saúde é relativo aos interesses, e esses interesses variam de pessoa para pessoa. Então, o que você quer dizer com um 'joelho saudável'? Ela diz: 'Veja, um joelho saudável para um atleta olímpico, que precisa de desempenho máximo nos próximos quatro anos e se importa menos com o desempenho a longo prazo... essa noção de saúde é diferente daquela de uma pessoa que deseja um desempenho de baixo nível, mas sem dor e a longo prazo'.
É mais complexo do que estamos acostumados.
Essas são noções diferentes de saúde. E como a saúde é relativa aos interesses, e os interesses variam drasticamente de pessoa para pessoa, não é o tipo de coisa estável que você consiga captar. É por isso que tendemos a focar em coisas um pouco mais fáceis, como expectativa de vida e taxas de mortalidade, e presumimos que é isso que importa para a saúde.
Você acredita que, se focarmos apenas nas metas, todos se moldarão para serem iguais?
Acho que isso monotoniza a humanidade. Valores deveriam ser sutis e diversos. E parte do que é bom nas pessoas e na nossa configuração natural é que podemos buscar nossas próprias noções bizarras de valor. Podemos nos espalhar e valorizar coisas diferentes de formas diferentes. Uma maneira como eu coloco isso é que, quando você é capturado por métricas, você está terceirizando seus valores. E todos nós estamos terceirizando os nossos...
Qual é o tamanho desse problema?
Um problema da terceirização é que ela não é feita sob medida para você. Se todos terceirizarmos nossos valores para uma única coisa, de repente estaremos todos valorizando da mesma maneira. E não estaremos buscando todas as coisas estranhas, diferentes e belas que poderíamos encontrar. Estaremos buscando coisas com base no fato de serem altamente acessíveis, compreensíveis e rapidamente contáveis em escala. E essa é uma maneira muito limitada de ser uma pessoa.
"A forma como deveríamos interpretar o tédio é como um chamado para mudar nossos valores. E, muitas vezes, isso significa reconceber as coisas"
Essa perspectiva se conecta diretamente com a falta de motivação no trabalho e na vida?
O filósofo Elijah Millgram tem um artigo maravilhoso chamado On Being Bored Out of One's Mind (algo como "Estar entediado ao extremo"), onde ele defende que o engajamento e a plenitude são sinais de que você tem valores que se ajustam a você e ao seu ambiente, e o tédio é um sinal de que você tem valores que não se ajustam. E a forma como deveríamos interpretar o tédio é como um chamado para mudar nossos valores. E, muitas vezes, isso significa reconceber as coisas: mudar de emprego ou apenas reconceber como você está fazendo o que faz.
E se não for possível?
Se você estiver fixado em um valor externo e se isso dominar sua tomada de decisão, você não vai fazer essa transição — porque parte do modo como isso funciona é ser capaz de ouvir um sinal silencioso e, então, ser capaz de mudar. E isso não acontece se houver uma referência de valor fixa, clara e barulhenta que está constantemente gritando conosco.
Como você acredita que as companhias podem usar as métricas para ajudar a criar um ambiente melhor?
Para mim, as instituições precisam perceber que existem muitas coisas importantes e muitas delas são difíceis de expressar: valores de comunidade, de felicidade, de servir à humanidade... É muito fácil para uma empresa pensar algo como: "Bem, estamos fazendo um bom produto e ele vai ajudar as pessoas, e como medimos se está ajudando? Bem, devemos apenas olhar o número de produtos enviados". Essa é uma medida rápida de algo. Mas, então, obviamente você não estará otimizando para uma série de coisas que são muito diferentes do que realmente importa. Por isso, acho que devemos submeter constantemente uma métrica ao escrutínio da pergunta: 'será que isso capta o que realmente importa?'
Levando em consideração todos esses pontos, como você imagina o futuro à nossa frente?
Eu não sei, estou um pouco aterrorizado com a possibilidade de que o que está acontecendo seja o que eu acho de Colapso de Valor, que ocorre quando nossos sistemas sociais dão todo o poder às pessoas que estão dispostas a ignorar o que é importante e focar obsessivamente na métrica. Isso criaria um ciclo de feedback onde todas as pessoas no poder são aquelas dispostas a eliminar todos os sinais silenciosos do que é realmente importante para apenas perseguir a métrica.
Se isso acontecer?
Se isso estiver certo, estamos condenados. Talvez não esteja. Talvez existam sistemas que possamos construir para encorajar as pessoas, recompensá-las e incentivá-las a dar um passo para fora da métrica. Mas, dada a maneira como as instituições parecem centralizar uma métrica altamente legível, então... eu não sei. O pessimista em mim acha que esse é apenas o ciclo. O otimista acha que temos muitos movimentos sociais que se afastam das métricas, mas eles não são muito respeitados.