Roma — Um ritual “sagrado” e meticuloso vem acontecendo, à noite, dentro da Capela Sistina, nos últimos dois meses. Restauradores sobem em um andaime, colocam folhas duplas de papel japonês especial (washi) sobre pequenas partes do afresco de O Juízo Final criado pelo gênio renascentista Michelangelo Buonarroti (1475-1564), pincelam com água deionizada, retiram o material molhado e as cores originais surgem novamente.

Trata-se de um espetáculo visual jamais visto de perto, pois não é aberto ao público. A técnica funciona como uma esponja, absorvendo sais e resíduos causados pela respiração, pelo suor e pelas mudanças climáticas e não danifica os pigmentos originais. Tudo em questão de minutos, como a reportagem do NeoFeed presenciou, a poucos centímetros — e a quase 20 metros de altura.

Este véu branco, identificado como lactato de cálcio (sal de cálcio do ácido lático), estava alterando os contrastes de luz e sombra na obra-prima, e foi identificado durante uma das revisões minuciosas realizadas periodicamente no local.

“Vendo de baixo, praticamente não se notava nada”, revela Marco Maggi, responsável pelo Escritório de Conservação dos Museus Vaticanos, ao NeoFeed. “Foi apenas o controle de perto, associado às análises científicas, que permitiu identificar essa substância sobre a superfície. Redescobrimos as cores michelangelesas”, completa o antropólogo.

Decidiu-se, então, por uma manutenção extraordinária da pintura, que foi concluída em 1541, sendo que a última conservação com essa envergadura foi feita há cerca de 30 anos. O Vaticano evita usar a palavra “restauro”, pois o afresco não está danificado.

De tempos em tempos, a Capela Sistina passa por operações discretas de conservação. Desde 2010, os Museus Vaticanos mantêm um protocolo anual de manutenção ordinária, realizado durante cinco semanas nos meses de janeiro e fevereiro. À noite, quando não há público, equipes de profissionais limpam superfícies, verificam estruturas e monitoram o estado das pinturas e dos mármores.

Em 2024, os especialistas decidiram realizar uma revisão muito mais aprofundada da obra de Michelangelo. “Significou não apenas limpar e documentar, mas fazer um controle mais rígido, sem solvente químico, com total segurança para os operadores, o acervo e o meio ambiente”, afirma Maggi. Foi nesse processo que surgiu a surpresa.

A pressão humana sobre a Capela Sistina é enorme. Um espaço relativamente pequeno, que tem aproximadamente 40,9 metros de comprimento, 14 metros de largura e 20,7 metros de altura, onde são celebradas missas e onde também ocorreu o último conclave, em 2025, quando 133 cardeais católicos se reuniram para escolher o papa Leão XIV.

Assista ao vídeo que mostra como funciona a técnica:

Além de ser um local sagrado, recebe visitantes do mundo inteiro, podendo chegar a quase 25 mil por dia. A respiração das pessoas, a umidade e partículas microscópicas liberadas pelo fluxo constante de turistas acabam alterando o microclima do ambiente e favorecendo o depósito de substâncias sobre as superfícies pintadas.

Com a remoção da camada superficial, pouco a pouco os restauradores voltaram a perceber com mais clareza a intensidade das tonalidades e os contrastes que estruturam a composição monumental da arte que fica em uma das paredes da capela.

“Era uma catarata”, brincou Barbara Jatta, diretora dos Museus Vaticanos, em conversa com jornalistas, comparando o estado da obra à doença ocular, e que agora está sendo removida.

Até a conclusão dos trabalhos, prevista para a Semana Santa, a Capela Sistina continuará recebendo fiéis e visitantes, enquanto os restauradores do Laboratório de Pinturas e Materiais Lenhosos dos Museus Vaticanos trabalharão sobre o grande andaime, protegido por uma tela que reproduz a imagem do Juízo.

A limpeza do afresco é financiada por um grupo de mecenas da Flórida, nos Estados Unidos, e todas as fases estão sendo documentadas pelo Laboratório Fotográfico dos Museus Vaticanos, criando um precioso testemunho.

O Juízo Final (em italiano, Il Giudizio Universale) foi encomendado a Michelangelo, em 1533, pelo papa Clemente VII, da poderosa família Medici. O tema traria toda a força criativa do artista: a representação do julgamento final das almas.

Os andaimes são montados à noite (Foto: Governatorato SCV/Direzione dei Musei)

Este detalhe de um grupo em torno de Jesus Cristo mostra o estado da obra de Michelangelo antes da intervenção (Foto: Governatorato SCV/Direzione dei Musei)

O afresco estava cobreto por uma película esbranquiçada que alterava os contrastes de luz e sombra e as cores de "O Juízo Final" (Foto: Governatorato SCV/Direzione dei Musei)

O trabalho começou em 1536, já durante o pontificado de Paulo III Farnese, e foi concluído cinco anos depois, em 1541. Para permitir que o gênio se dedicasse inteiramente ao projeto, o papa chegou a liberá-lo de outros compromissos artísticos, incluindo o longo trabalho no túmulo de Júlio II, e assegurando-lhe um salário anual de 1.200 ducados até sua morte (cerca de US$ 250 mil).

Quando o afresco foi finalmente revelado, relatos da época dizem que o papa Paulo III ficou tão impressionado que se ajoelhou diante da pintura, implorando misericórdia divina para o dia do julgamento.

Com suas centenas de figuras em movimento e uma composição dramática dominada pela figura de Jesus Cristo, O Juízo Final se tornou uma das obras mais impactantes da história da arte e um dos símbolos do Vaticano.

Apesar da dimensão da intervenção atual, a estratégia dos Museus Vaticanos é evitar grandes restauros no futuro. A aposta é na conservação preventiva contínua, uma tradição que remonta ao próprio século XVI. Já em 1543, durante o pontificado de Paulo III, foi criada a figura do mundator (em latim, “aquele que limpa”), responsável por remover periodicamente o pó das decorações da Capela Sistina.

Mesmo depois de mais de cinco séculos, o afresco continua surpreendendo quem o observa de perto. “É impressionante ver essas cores ainda tão vivas”, afirma Maggi. “Nós mesmos ficamos impressionados ao revê-las.” O orgulho italiano de abrigar uma das obras de arte mais importantes do mundo, nesse momento, realmente salta aos olhos.