Aos 66 anos, o empresário e investidor Ricardo Semler prepara uma nova virada de mesa. Na década de 1980, ele desmontou a hierarquia da empresa criada por seu pai e transformou a Semco em referência global de gestão democrática. Agora, quer virar a mesa da última grande instituição industrial — mais antiga e mais resistente a mudanças, a escola.
Semler acaba de lançar a UnTethered — batizada em português de DesColada, uma plataforma global de educação concebida para escalar o modelo de ensino que ele vem desenvolvendo desde o início dos anos 2000. Sua tese: a escola deixou de ser apenas um problema pedagógico e se tornou um gargalo macroeconômico.
Enquanto as empresas vêm se reinventando continuamente, o ensino permanece ancorado no século 19, moldado pela Revolução Industrial.
De um lado, estruturas flexíveis, decisões descentralizadas, valorização da autonomia, criatividade, colaboração e pensamento crítico e estratégico. Do outro, hierarquias rígidas, currículos padronizados, disciplinas fragmentadas e aprendizagem por repetição.
O descompasso entre o modo como aprendemos e a forma como o trabalho acontece não só aumenta como compromete a capacidade de inovação das empresas — e dos países.
Como pensar soluções originais para um mundo em constante transformação a partir de um ensino baseado no certo ou errado, na previsibilidade do que pode ser provado?
Foi a partir de inquietações como essa que Semler, em 2005, inaugurou em São Paulo a primeira escola Lumiar.
Considerada uma das mais inovadoras do mundo pela Unesco, OCDE e Universidade Stanford, a metodologia coloca o estudante no centro do processo de aprendizagem, transformando-o em protagonista de seu próprio saber — um modelo firmado na construção coletiva do conhecimento.
A UnTethered radicaliza o método. “A [escola] Nova Lumi é uma tentativa de adaptar a escola para o mundo de hoje, sem os resquícios da escola tradicional”, diz Semler, em conversa com o NeoFeed.
A nova plataforma consumiu cerca de três anos em desenvolvimento e ao redor de US$ 2 milhões em investimentos. Estruturada para se adaptar a diferentes currículos oficiais, funciona como um hub de aprendizagem. Os alunos são organizados em pequenos grupos, reunidos por competência e interesse. Cabe a eles a escolha do tema a ser estudado.
Enquanto grande parte das escolas tenta restringir o uso de telas, Semler propõe a tecnologia como eixo central — fluxos de informação em tempo real, jogos, redes sociais, streaming e conexões globais instantâneas, ao vivo e com tradução simultânea.
Graças às novas ferramentas, a Nova Lumi pode funcionar em qualquer lugar — onde houver sinal de internet. Em prédios escolares, espaços comunitários, campi corporativos e até campos de refugiados.
E isso não tem nada a ver com as soluções propostas pelas startups de educação. “As edtechs não estão inovando absolutamente em nada, só embalando a obsolescência”, diz. “Enquanto a escola não for de fato liberada, como estamos tentando fazer, tudo não passará de um acelerador de bobagens.”
A experiência na Semco
A trajetória de Semler como industrial ajuda a explicar sua aposta. Formado em direito pela Universidade de São Paulo e doutor em administração por Harvard, aos 21 anos, ele assumiu a Semco, fundada em 1953 por seu pai, o engenheiro austríaco Antonio Curt Semler. Com a crise de 1980, a empresa estava à beira da falência.
Ele reduziu a hierarquia, descentralizou decisões, colocou os funcionários no centro do processo e abriu as informações da empresa. Diversificou os negócios e fez a Semco crescer, mesmo em tempos de turbulências econômicas.
A experiência o tornou referência global. Seu primeiro livro, Virando a própria mesa, de 1988, foi traduzido para mais de 30 idiomas e vendeu cerca de 2 milhões de exemplares.
Em 2005, após um grave acidente de carro, ele se afastou da gestão da Semco e passou a se dedicar sobretudo aos projetos educacionais.
Se antes Semler desmontou as engrenagens do mundo corporativo, agora mira o ensino que molda os indivíduos antes de sua chegada ao mercado de trabalho.
“A escola sofrerá grandes mudanças pela primeira vez em 200 anos”, diz. “A questão é o que vai direcionar essa mudança: medidas de pânico — ou escolhas intencionais para avançar.”
Se der certo, o empresário terá virado a última grande mesa.
De San Diego, na Califórnia, onde vive atualmente, Semler conversou com o NeoFeed sobre a revolução imaginada para um setor que movimenta globalmente cerca de US$ 6 trilhões anuais.
Veja a seguir os principais trechos da entrevista:
Por que é tão desafiador mudar o sistema de ensino?
Apenas a escola e a Igreja continuam inalteradas há centenas de anos. Nada mais está tão ultrapassado quanto essas duas áreas da vida. A origem do conservadorismo é o medo. Os mais assustados são os pais: não querem expor seus filhos, suas crenças morais e seus valores. E, como você protege? Não deixando seus filhos fazerem nada do que você não fez. E, dentro daquele predinho [a escola], tudo parece protegido.
A nova economia não escancarou a importância da mudança?
Não. O medo ainda fala mais alto. Muitos, sobretudo os pais, não veem que dá para aprender horrores com a tecnologia. A primeira reação, até em países avançados, é: “Não deixe entrar na escola”. Preferem deixar os filhos na tabela periódica, mesmo que eles não usem esses conhecimentos depois. É uma reação conservadora, de medo e de atraso.
O que dizer a quem quer proibir as telas na escola?
A caneta Bic demorou 32 anos para ser aceita dentro da escola. No início, a calculadora também foi proibida. Hoje, o medo é que a IA, as mídias sociais, os jogos roubem a concentração das crianças. Demora tempo para você olhar para trás e falar: "Nossa, que bobagem era aquilo".
"Apenas a escola e a Igreja continuam inalteradas há centenas de anos"
Mas as telas distraem mesmo.
Claro. Só faltava alguém dizer que prefere fazer seno e cosseno. Mas as crianças e adolescentes não vão se concentrar porque aquilo [o modelo de ensino] é uma idiotice. A aula é tão enfadonha que qualquer coisa vai ser mais interessante. À medida que as crianças crescem, elas perdem a curiosidade, a magia do conhecimento. Chega uma hora, aos 14, 15 anos, em que falam: “O que eu tenho de fazer para sair daqui?”. Memorizam o que é preciso para passar de ano, decoram o que é necessário para o vestibular. É um desperdício de capacidade e de interesse. No entanto, esse modelo é 96% do aprendizado no mundo. A escola tradicional é indefensável, um crime contra a infância.
Se os alunos passam de ano, entram na faculdade, não é sinal de que alguma coisa funciona?
Suponhamos que alguém hoje tire 9 em uma prova de geografia. Daqui a um ano, esse 9 vale 2. Por que o aluno foi torturado, obrigado a decorar aquilo? Para vomitar de volta na provinha? Que exercício de aprendizado real é esse?
Então, o que você sugere?
Nós defendemos o aprendizado baseado em relevância. Se é relevante para as crianças, desperta interesse. E, sendo interessante, há retenção de conhecimento.
Como funciona na prática?
A plataforma tem uma máquina chamada “leitura de mundo”, que capta o que foi notícia de manhã e indica dois ou três caminhos para discussão. Os alunos escolhem o tema a ser trabalhado. O conflito no Oriente Médio, por exemplo. A análise pode levar a entender como é composto o preço do petróleo, o que é imperialismo ou ditadura. E isso leva ao estudo de história, geografia, matemática, economia…
"As edtechs não estão inovando absolutamente em nada, só embalando a obsolescência"
As escolas construtivistas seguem essa linha.
Sim, mas, frequentemente, elas não cumprem os currículos oficiais. Nosso software pode ser adaptado a diversas diretrizes. Ele dá baixa nos conteúdos obrigatórios e avisa quando eles não foram contemplados. Ou seja, todo o tempo que os alunos passam na Nova Lumi é, de fato, escola.
O novo modelo dispensa o professor?
A Nova Lumi desfaz de cara a ideia do professor tradicional. Em um mundo que muda de uma semana para outra, é preciso alguém que consiga se atualizar constantemente e fazer referências cruzadas entre áreas — e não que se concentre apenas em informação memorizada. Trabalhamos com tutores e mestres. Os tutores são uma espécie de guia e conselheiro, orientando os alunos.
E os mestres?
São experts em determinados assuntos, espalhados pelo mundo. Eles podem entrar ao vivo, com tradução simultânea, para falar sobre o que está sendo debatido. Outra possibilidade é usar uma plataforma como o Slack para compartilhar experiências com uma escola em Teerã, por exemplo. Depois de uma hora, a criança sabe mais sobre a guerra no Irã do que os pais dela em um mês.
Ou seja, a nova plataforma leva a escola para qualquer lugar.
Sim, basta ter sinal de internet. O DesColada questiona a necessidade de uma escola física — e isso está deixando muita gente preocupada. Se reunimos dez crianças ou adolescentes, temos um dashboard que os acompanha, damos baixa nas exigências curriculares, há tutores próximos, um banco de mestres à disposição e os alunos passam ali cinco horas por dia, por que é preciso um prédio? Nós queremos, por exemplo, oferecer a plataforma em campos de refugiados, onde as crianças passam, em média, 17 anos e meio. São 27 milhões de crianças que, durante todo esse tempo, ficam sem escola.
O mercado de edtechs está previsto para avançar a uma taxa de crescimento anual de aproximadamente 14% até 2030, quando deve movimentar US$ 400 bilhões. Como você avalia as soluções apresentadas por essas startups?
As edtechs não estão inovando absolutamente em nada, só embalando a obsolescência. O que é uma boa escola hoje? É a que tem um monte de dinheiro investido nos prédios, que coloca um pouco de IA para dar um arzinho de modernidade. Mas vai em uma aula de química e estão todos decorando a tabela periódica como há cem anos. Ou seja, não aconteceu nada. Uma enganação total. A escola engana os pais, os pais se deixam enganar, as crianças colam e passam de ano. Enquanto a escola não for de fato liberada, como estamos tentando fazer, tudo não passará de um acelerador de bobagens.
Algumas startups propõem acabar com a escola e substituir os professores por avatares.
A função sociológica, a função tribal da escola não vai deixar de existir nunca. A interação entre os estudantes é fundamental para que eles possam desenvolver a criatividade, a intuição e o questionamento em grupo.
Como será a comercialização da plataforma?
Tem um business aqui, mas nada monumental. Ainda não temos departamento de vendas, mas a ideia é vender assinaturas para as escolas particulares que já cobram caro de seus alunos. Para as escolas pequenas que não podem pagar e as públicas, será gratuito. Nós queremos disseminar a metodologia DesColada. Estamos oferecendo o manual, o do it yourself, uma parte do software em open source para quem quiser fazer.