Desde que surgiu nos jornais americanos, em 16 de abril de 1989, o mal-humorado Dilbert se tornou uma das tiras mais populares do país – e, depois, do mundo –, por ter suas aventuras ambientadas em um lugar que nunca pareceu engraçado: a empresa, onde se vive com toda intensidade e regras a cultura corporativa moderna.

Com trinta e poucos anos, camisa branca e gravata sem terno, óculos grossos e um jeito sarcástico que o identifica com vários leitores que vivenciam ambientes corporativos opressivos, Dilbert trabalha como engenheiro em uma empresa de tecnologia e tem de lidar no dia a dia com a burocracia e desafios típicos de um escritório moderno.

Sua personalidade do personagem costuma ser definida como cínica, frustrada e resignada diante da incompetência da empresa em que trabalha. Sua irritação quase sempre nasce de situações objetivamente absurdas, exploradas em tiras de quatro quadrinhos: chefes incapazes, decisões ilógicas, jargões vazios e burocracias inúteis.

Por isso, seu “mau humor” é justificado e transforma a rabugice em humor de identificação, empatia e não em antipatia. A tira se tornou um grande sucesso internacional também por enfatizar falhas de liderança, ineficiências de processos, reuniões inúteis em excesso e a sensação de impotência do trabalhador diante da máquina corporativa. Rir com suas historinhas parecia deixar o dia mais leve. Que empresa não apelidou alguém de Dilbert?

Esse universo parece ter chegado ao fim hoje, quando o seu criador, o cartunista Scott Adams, morreu aos 68 anos, depois de uma longa luta contra um câncer de próstata que se tornou metastático, inspirou-se em sua própria vivência corporativa para dar vida a Dilbert.

Adams nasceu em 8 de junho de 1957, na cidade de Windham, Nova York. Desde jovem, ele tentou desenhar cartuns, embora não tenha frequentado escola de arte, e optou por ser um autodidata. Tanto que se formou em economia pelo Hartwick College, em 1979, e depois obteve um MBA pela Universidade da Califórnia em Berkeley, em 1986.

Antes de se dedicar às tiras de humor profissionalmente, trabalhou por anos nas áreas de negócios e financeira, como, por exemplo, no Crocker National Bank e especialmente na empresa de telecomunicações Pacific Bell. Foi dessa convivência corporativa que tirou a visão satírica sobre a cultura do escritório que moldaria sua famosa tira.

A virada em sua vida veio em 1989, quando lançou Dilbert e, gradualmente, passou a trabalhar em tempo integral como cartunista, à medida que a tira ganhou popularidade. Segundo ele, a ideia do personagem nasceu de rabiscos que fez no trabalho, em momentos em que buscava relaxar, e acabou por evoluir para uma série de tiras que criticam com humor as “absurdidades” do mundo corporativo.

A tira se expandiu rápido pelo país. Se antes do primeiro aniversário saía em 50 jornais, pulou para aproximadamente 150 jornais, em 1992. A partir daí, o crescimento foi acelerado, impulsionado pela identificação do público com a sátira sobre a vida corporativa e pela rápida difusão entre jornais norte-americanos. Logo vieram antologias em livros.

Dilbert virou fenômeno de massa por volta de 1996, quando era publicado em cerca de 1.200 jornais e chegaria a aproximadamente 1.400 no ano seguinte. No auge, no fim dos anos 1990 e início dos 2000, a tira atingiu algo entre 1.550 e 2.000 jornais e revistas ao redor do mundo. Além disso, ganhou uma série de TV animada (1999–2000) e muitos produtos licenciados, inclusive bonecos e brinquedos.

No Brasil, o sucesso do personagem foi o mesmo do resto do mundo. Saiu em jornais de vários estados. Além, disso, nos anos 1990, a Ediouro publicou livros de Scott Adams relacionados a Dilbert — como O Princípio Dilbert e O Futuro Dilbert — que misturavam tiras e reflexões sobre o mundo corporativo. Saíram por volta de 1997-1998 e tinham formato de livro mais tradicional.

Na década seguinte, a editora L&PM foi a principal responsável por publicar Dilbert em formato de coleção de tirinhas traduzidas para o português, sob a linha L&PM Pocket. Entre 2008 e 2014, o selo lançou pelo menos 8 volumes numerados com tiras, além de uma Caixa Especial com 5 volumes lançada em 2009, que reuniu os cinco primeiros títulos.

Falas racistas

O personagem de Adams se manteve no topo até 22 de fevereiro de 2023. Nessa data, durante uma transmissão ao vivo no YouTube, seu criador comentou uma pesquisa do Rasmussen Reports que perguntava se as pessoas concordavam com a afirmação “It’s okay to be White?” (“É tranquilo ser branco?”).

Organizações como a Anti-Defamation League observaram ter sido a frase usada por grupos de supremacia branca e deveria ser repudiada. A pesquisa mostrava que 53% dos negros entrevistados concordavam com a frase, 26% discordavam e 21% não tinham certeza. O que ninguém esperava era que, a partir desses números, Adams fizesse declarações que foram amplamente consideradas racistas e discriminatórias.

Ele afirmou que, “se quase metade de todos os negros não está de acordo com que pessoas brancas são OK, isso é um grupo de ódio. Eu não quero ter nada a ver com eles. E, com base na forma como as coisas estão indo, o melhor conselho que eu poderia dar às pessoas brancas é sair da vista dos negros… simplesmente desaparecer. Porque não há como consertar isso”.

Essas falas foram repercutidas por agências de notícias como Associated Press, Reuters e The Economist como discriminatórias e ofensivas. No dia seguinte, a USA TODAY Network, responsável pela publicação de centenas de jornais nos Estados Unidos, anunciou que "já não vai mais publicar a tirinha" de Dilbert devido "aos últimos comentários discriminatórios de seu criador".

Ao mesmo tempo, a distribuidora Andrews McMeel Syndication encerrou a parceria com Adams e algumas editoras também cancelaram livros programados com o autor que seriam lançados naquele e nos anos seguintes.

A morte de Adams foi anunciada por sua ex-esposa, Shelly Miles, durante uma transmissão ao vivo no canal de Adams no YouTube (Real Coffee with Scott Adams), onde ela leu uma mensagem final escrita por ele antes de falecer. Adams afirmou que teve uma “vida incrível” e encorajou seus seguidores a “serem úteis” e a saberem que ele os amava “até o fim”.

A doença que o matou havia sido diagnosticada publicamente em maio de 2025 e se espalhou pelo corpo.