Na primavera, normalmente em maio, às margens do rio Han, Seul se transforma em palco para um torneio inusitado: vence quem domina com perfeição a arte de não fazer nada. Nada mesmo. Não vale conversar, mexer no celular tampouco cochilar. Por 90 minutos, os participantes são instigados a manter a mente em estado de vazio absoluto. Ou “fora do ar”, como o nome do campeonato sugere. Bem-vindos à Space Out Competition.

Idealizada pela artista visual Woopsyang, em 2014, ano após ano, a prova reúne mais e mais competidores. Entre 2024 e 2025, o número de inscritos cresceu cerca de 44%, somando ao redor de 4,5 mil pessoas, para apenas 80 vagas. Anunciado pelo governo municipal como um dos eventos mais importantes da capital sul-coreana, a disputa inspirou iniciativas semelhantes mundo afora, como Rotterdam, Tóquio, Pequim, Hong Kong, Taipei e Melbourne, entre outras cidades.

A competição tem um quê de performance, como costuma definir sua criadora. Uma ode ao ócio, uma pausa na agitação da vida contemporânea. Um respiro em tempos de hiperconexão e da hiperprodutividade. A ideia surgiu depois de Woopsyang, ela própria, ser vítima de burnout quando trabalhava em uma agência de publicidade.

"Todos ao meu redor estavam trabalhando muito e observá-los me deixava desconfortável. Talvez eles quisessem ficar alguns momentos ociosos como eu, mas não conseguiam parar porque estavam ansiosos, já que todos em volta também estavam trabalhando muito”, conta ela em entrevista à plataforma Korea.net. “Então, de repente, pensei: ‘Não seria bom se todos nós nos reuníssemos e juntos não fizéssemos nada?'”

O esgotamento físico e mental decorrente de um ambiente de trabalho pautado pela lógica de competição e da autossuficiência está entre os grandes males da contemporaneidade. Uma pesquisa do Boston Consulting Group é reveladora do tamanho do problema: 48% dos trabalhadores de oito países atualmente se veem às voltas com sintomas do burnout.

Para o estudo Four Keys to Boosting Inclusion and Beating Burnout, foram ouvidas 11 mil pessoas nos Estados Unidos, Canadá, Alemanha, França, Reino Unido, Índia e Japão.

Levantamentos recentes colocam o Brasil entre as nações com a maior incidência da síndrome ocupacional — ao redor de 35% da força de trabalho. Com a baixa produtividade de seus funcionários, globalmente, as empresas perdem US$ 438 bilhões anuais.

Somado a outros distúrbios mentais, como depressão e ansiedade, os prejuízos financeiros e sociais chegam facilmente à casa dos trilhões de dólares.

Dar-se o direito de não fazer nada (sem culpa!) não é, portanto, perda de tempo ou sinônimo de baixa eficiência no escritório. Ao contrário. Quando deixamos nos levar por nossos pensamentos, sem interferência externa, ativa-se um conjunto de regiões cerebrais conhecido como “default mode network” — DMN ou  “rede de modo padrão”.

A mente em DMN favorece a autorreflexão, a criatividade e a memória, sobretudo a autobiográfica. Pequenas pausas conscientes são, portanto, poderosíssimas: reduzem o estresse, ajudam a reorganizar as experiências e melhoram o foco. Um estado mental em consonância com a tese do sociólogo italiano Domenico De Masi.

No livro O Ócio Criativo, ele defende que o tempo livre não é inatividade improdutiva, mas um espaço fértil onde trabalho, estudo e lazer se misturam, permitindo inovação e bem-estar. Em um mundo obcecado por desempenho contínuo, sustenta ele, a capacidade de parar torna-se estratégica tanto para a saúde mental quanto para a geração de novas ideias.

A artista Woopsyang criou a Space Out Compatition em 2014, depois de sogrer uma crise de burnout (Foto: woopsyang.com)

O vencedor de 2025 foi a banda de indie punk Pogo Attack, liderada por Byung-jin Park (Foto: seoul.go.kr)

O troféu da Space Out Competition foi inspirado na escultura "O Pensador", de Rodin (Foto: seoul.go.kr)

Apesar de todas as comprovações científicas, a maioria de nós não se convence. Um estudo da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, assustadoramente ilustra à perfeição nossa dificuldade: muitas pessoas preferem levar choques elétricos leves a ficar com seus próprios pensamentos por apenas 15 minutos.

Por isso, a Space Out Competition é muito mais do que um campeonato divertido. Funciona como uma espécie de lembrete (e até treinamento) para a urgência de ficar “fora do ar” por algum tempo.

Antes de ser dada a largada para a hora e meia de concentração em si próprio, cada participante recebe quatro cartas. Uma é para pedir água, uma para ganhar uma massagem, outra para solicitar um abanador e a última, para abandonar a prova.  A frequência cardíaca é averiguada a cada 15 minutos para medir o nível de relaxamento dos competidores. O vencedor é escolhido pela combinação dessas métricas com os chamados pontos artísticos, obtidos por meio de votação da plateia.

Há de tudo entre os concorrentes. Jovens, velhos e crianças; estudantes, empresários, artistas, operários, motoristas, médicos e enfermeiros. Alguns competem individualmente, outros em grupo. Muitos vão para a disputa fantasiados de Hello Kitty, palhaço, monge budista, executivo sobrecarregado, skincare coreano...  Não há limites para a criatividade em nome do ócio.

“A parte mais difícil foi abandonar a ideia de que eu deveria estar fazendo alguma coisa”, conta Byung-jin Park à revista National Geographic. “Simplesmente ficar sentado, sem fazer absolutamente nada, é surpreendentemente desafiador (...) Com o passar do tempo, comecei a esquecer onde estava. Parecia que meu corpo tinha desaparecido.”

Aos 36 anos, o empresário e músico indie punk de Seul foi o vencedor da Space Out Competition de 2025, junto com sua banda Pogo Attack. Mais importante do que levar para casa o troféu inspirado na escultura O Pensador, de Rodin, foi descobrir que, sim, é possível se desligar do mundo exterior.

“Force-se a relaxar por pelo menos 10 minutos por semana. Mesmo cinco minutos podem ajudar. No início, você vai perceber que seus pensamentos estão se intensificando, as preocupações surgem e tarefas inacabadas aparecem na sua cabeça”, diz Park. “Mas tudo se acalma. Você pode encontrar clareza ou perceber que alguns problemas não são tão grandes quanto parecem.”