Com poucas exceções, o agronegócio, ainda pouco representativo no mercado brasileiro de capitais, não viveu uma das safras mais promissoras na B3 em 2025. E esse cenário tem se prolongado neste início de ano.
Nesse contexto, quem mais tem sofrido é o setor sucroenergético. Mas é justamente nesse campo, que o Itaú BBA enxerga uma perspectiva um pouco mais favorável para a Jalles Machado.
O banco está iniciando a cobertura da companhia sucroenergética com recomendação de compra e um preço-alvo de R$ 4 para a ação no fim de 2027, o que implica um potencial de valorização de 36% em relação à cotação atual do papel.
“Vemos a Jalles Machado como uma empresa mais protegida em relação à média do setor de açúcar e etanol neste momento, apesar do cenário desafiador no curto prazo, marcado por menor apetite de investidores e um ambiente de preços menos favorável”, escreveram os analistas do Itaú BBA.
Em relatório, o Itaú BBA ressaltou que essa visão relativa dentro do setor se explica pela combinação de excelente eficiência operacional e uma base de receita mais resiliente, impulsionada pelo segmento de açúcar orgânico e por posições de hedge mais alongadas.
No detalhe, o banco destaca três fatores que sustentam a lucratividade futura da Jalles Machado. A começar justamente pela eficiência operacional, que classifica como um dos maiores diferenciais competitivos da companhia em um setor dominado por commodities.
Em um dos exemplos nessa direção, os analistas apontam que a empresa alcançou uma tonelada de cana por hectare (TCH) consistentemente superior à média da região Centro-Sul, fruto tanto da sua localização geográfica favorável quanto do uso intensivo de irrigação.
“Em Goiás, cerca de 60% das áreas de cana já contam com irrigação (com 100% das áreas críticas cobertas) e investimentos contínuos estão sendo direcionados para ampliar essa estrutura também em Minas Gerais”, observa o banco.
Um segundo pilar destacado é a capacidade da Jalles Machado de extrair valor de produtos que fogem da lógica tradicional das commodities, em particular, no negócio de açúcar orgânico.
Para o Itaú BBA, o know-how técnico e operacional adquirido pela empresa cria barreiras significativas para novos entrantes, já que a categoria exige um controle agrícola mais rigoroso, padrões industriais mais elevados, tecnologias específicas e um intervalo maior entre o início da operação e a venda final.
Em outro componente favorável, os analistas ressaltam que o açúcar orgânico possui uma dinâmica própria de preços, independente do ciclo do açúcar convencional. E acrescentam:
“Isso significa que períodos de queda global nos preços do açúcar tendem a impactar menos a receita da Jalles, proporcionando maior proteção, menor volatilidade e uma geração de caixa mais estável ao longo do tempo”.
Em uma terceira e última frente, o Itaú BBA cita que a unidade da Jalles Machado em Santa Vitória (MG) representa um vetor relevante de geração de valor para a empresa nos próximos anos, tanto por meio de novos projetos, como a expansão da irrigação, quanto pela melhoria da eficiência geral da planta.
Nesse cenário, apesar de destacar que a geração de caixa da operação permanece limitada no curto prazo, o banco vê potencial para uma taxa de crescimento anual composta do resultado operacional ajustado de 25% entre 2026 e 2030.
Na visão do Itaú BBA, esse avanço será sustentado principalmente pelo aumento da utilização da capacidade da unidade e a consequente normalização de margens no consolidado – o que reforça sua visão construtiva para o investimento e sua preferência relativa em relação aos pares do setor.
Fundada em Goianésia (GO), em 1980, a Jalles Machado abriu capital na B3 em fevereiro de 2021. Na época, o grupo interrompeu um hiato de quase oito anos sem um IPO do setor sucroalcooleiro e, com suas ações precificadas a R$ 8,30, levantou R$ 741,5 milhões, sendo avaliada em mais de R$ 3 bilhões.
Os papéis da empresa estavam sendo negociados com queda de 2,04% por volta das 15h35 na B3, cotados a R$ 2,88. Em doze meses, as ações da companhia, avaliada em R$ 868,4 milhões, acumulam uma desvalorização de 37,2%.